Economia

Empresa de Lemann faz venda ‘discreta’ de participação na Kraft Heinz

A empresa de private equity 3G Capital, que tem como fundadores o trio de bilionários brasileiros Jorge Paulo Lemann, Marcel Hermann Telles e Carlos Alberto Sicupira, deixou de ser acionista da gigante americana de alimentos Kraft Heinz.

A informação foi divulgada pela rede de TV americana CNBC, que afirmou que a venda da participação ocorreu no final de 2023, discretamente. A Folha confirmou a informação com uma fonte próxima ao 3G.

A reportagem procurou o 3G e a LTS, holding de investimentos do trio, mas as instituições não quiseram comentar.

O trio de bilionários são os principais acionistas da Americanas, e foram até o final de 2021 os controladores da varejista, envolvida desde janeiro de 2023 em um escândalo contábil, que revelou uma fraude de mais de R$ 25 bilhões nos seus balanços.

A Kraft Heinz foi formada em 2015, a partir da fusão da Kraft Foods com Heinz, capitaneada pelas empresas 3G Capital e Berkshire Hathaway, do bilionário americano Warren Buffett.

A 3G Capital também marcou presença em vários negócios de peso, como Burger King, AB Inbev e a própria Americanas, considerada uma das maiores varejistas do país, antes da fraude.

Em setembro de 2021, a Kraft Heinz comprou a brasileira Hemmer, que tem as mostardas como carro-chefe.

Em fevereiro do ano passado, Warren Buffett afirmou em sua carta anual sobre os investimentos da Berkshire Hathaway, que a manipulação de lucros em um balanço é uma prática “nojenta” (confira mais detalhes abaixo).

Jorge Paulo Lemann deixou em março de 2021 o conselho da Kraft Heinz, após um período de forte queda nas ações da companhia. Analistas comentaram à época que o recuo foi marcado pelo fracasso do estilo da 3G, baseado em fusões e corte incessante de custos.

“Não é mais possível construir algo no negócio de alimentos como fizemos no ramo de cerveja. Tentamos, não deu certo e vamos consertar”, disse Lemann em um evento em 2019, segundo a Bloomberg, após nomear o executivo Miguel Patricio, ex-AB Inbev, como presidente da Kraft Heinz. Em janeiro deste ano, ele foi substituído por Carlos Abrams-Rivera, único CEO que não tinha ligação com o 3G.

Quando a administração da companhia estava sob influência do 3G, a Kraft se envolveu em um esquema de fraude contábil, incluindo o reconhecimento de descontos não ganhos de fornecedores e a assinatura de contratos de fornecedores falsos. Com isso, inflacionou seus ganhos do último trimestre de 2015 até o fim de 2018.

Em 2021, a Kraft Heinz concordou em pagar uma multa de US$ 62 milhões (R$ 314 milhões) para encerrar investigação do regulador federal de valores mobiliários (SEC, na sigla em inglês)

“Finalmente, um aviso importante: mesmo o valor dos lucros operacionais que favorecemos pode facilmente ser manipulado pelos gestores que assim o desejarem. Tal adulteração é muitas vezes considerada sofisticada por CEOs, diretores e seus conselheiros. Repórteres e analistas também aceitam a sua existência”, disse Warren Buffet na carta aos investidores da Berkshire Hathaway em fevereiro de 2023.

“Superar as ‘expectativas’ é anunciado como um triunfo gerencial. Essa atividade é nojenta. Não é necessário nenhum talento para manipular números: apenas um desejo profundo enganar é necessário. ‘Contabilidade ousada e imaginativa’, como um CEO certa vez descreveu seu engano para para mim, tornou-se uma das vergonhas do capitalismo”, afirmou.

Folha de São Paulo

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