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Empresa quer usar calor gerado por data centers para aquecer piscinas

Essenciais para o funcionamento de uma gama de serviços digitais disponíveis nos smartphones, computadores e na internet, os data centers geram um desafio ambiental: o alto custo energético para processar dados.

Uma planta de data center de grandes dimensões, de 30 megawatts, gasta, sozinha, em média a mesma energia do que 16.300 casas brasileiras, de acordo com estimativas do Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica da Eletrobras —e esse consumo deve aumentar com a ampla adoção de inteligência artificial.

Uma das empresas do setor, a Equinix, propõe uma solução: reaproveitar o calor gerado pelas máquinas para esquentar piscinas, casas e outros ambientes. O mecanismo é parecido com o de um “boiler”, usado para esquentar chuveiros com energia solar.

Os data centers geram de 25 a 30 graus celsius de calor, que seria usado para aquecer serpentinas de água corrente. Essas reservas aquecidas seriam, então, levadas a uma placa de troca de calor, cujo objetivo é redirecionar a energia térmica para uma segunda tubulação de água, que atinge de 60 a 90 graus celsius.

Depois de passar pela placa de troca de calor, a água está pronta para uso doméstico, seja em calefação, seja em piscinas aquecidas ou em chuveiros.

A Equinix planeja exportar, a partir de julho, calor de uma de suas plantas em Paris para a região de Plaine Saulnier e para o Centro Aquático Olímpico, que sediará vários eventos durante os Jogos Olímpicos de Verão de 2024.

A empresa já implementou iniciativas de exportação de calor em toda a Europa e nas Américas, com projetos na França, Finlândia, Alemanha, Irlanda, Suíça e Canadá. Agora, quer trazer a tecnologia para o Brasil.

O país teria uma reserva de calor gerado por data centers relevante, já que concentra 130 dessas unidades de processamento instaladas em seu território, de acordo com o levantamento colaborativo Data Center Map. “O projeto de exportação de calor é uma oportunidade de reaproveitar a eletricidade já gasta”, diz o presidente da Equinix no Brasil, Victor Arnaud.

Há, contudo, um desafio, segundo o executivo. Os municípios brasileiros não têm infraestrutura de distribuição de calor, já instalada em cidades de países com clima temperado em função da demanda de calefação durante o inverno rigoroso.

“Em locais do Brasil onde faz muito frio, já existe alguma estrutura, mas onde não é tão frio, não há redes públicas de calefação, mas nada impede a criação de uma rede de distribuição de calor, o que não é tão complexo”, diz Arnaud.

Para isso, contudo, seria necessário haver vontade dos formuladores de políticas públicas para construir a redes ou facilitar a execução dessas obras, segundo o executivo.

Aqui, a empresa mantém plantas em São Paulo, Barueri, Santana do Parnaíba e Rio de Janeiro.

“Ainda é preciso muita conversa para colocarmos o projeto em prática, mas eu acredito ser possível implementar projetos de exportação de calor em São Paulo, no Rio de Janeiro e também em outros países da América Latina”, afirma Arnaus.

Os primeiros diálogos já estão em curso, conforme o executivo. Um data center de 20 gigawatts gera energia suficiente para aquecer 100 piscinas ou 4.500 casas (a grande diferença tem a ver com o alto coeficiente térmico da água), estima a Equinix.

O desafio de minimizar uma enorme pegada energética paira sobre toda a indústria de data centers. A Agência Internacional de Energia (AIE) estimou, em relatório do início deste ano, que o consumo de energia elétrica nas plantas industriais por trás do mundo digital possa passar dos 460 terawatt-hora (TWh) registrados em 2022 para 1.050 TWh em 2026 —o Brasil consome metade disso, cerca de 500 TWh por ano.

A alta de gasto de eletricidade seria puxada, majoritariamente, pela ampla adoção de IA, já que a tecnologia exige grande volume de dados e cálculos computacionais complexos.

Além da Equinix, outras empresas do setor, como Elea, Ascenty e Scala correm para apresentar à sociedade medidas para diminuir a dependência de combustíveis fósseis como fonte de eletricidade e usam a infraestrutura de energia limpa brasileira para melhorar números globais. Quase 90% da matriz energética brasileira é livre de carbono, segundo dados da AIE.

No Brasil, as quatro provedoras de data centers citadas afirmam usar 100 por cento de energia limpa, e Arnaud, da Equinix, diz que a matriz energética brasileira facilita seu trabalho nesse sentido.

“Eu poderia me acomodar com esse número, mas implementar um projeto de transporte de energia nos traz a chance de reaproveitar energia elétrica já utilizada e diminuir consumo total das cidades em que estamos instalados.”

Folha de São Paulo

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