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Entenda como as canetas emagrecedoras podem redesenhar agro mundial



Criadas para tratar o diabetes tipo 2, as chamadas “canetas emagrecedoras”, medicamentos à base de agonistas de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, já começam a mudar os hábitos alimentares dos consumidores e a criar oportunidades para o agronegócio.
Em relatório recente, a Cogo Inteligência em Agronegócio afirma que o avanço desses medicamentos impulsiona uma reestruturação nos padrões de consumo de alimentos.
Somente nos Estados Unidos, mais de 18 milhões de pessoas utilizaram regularmente esses tratamentos em 2024, e a consultoria projeta crescimento de até 80% nas vendas até 2030, impulsionado pela quebra de patentes prevista para 2026 e pela consequente redução dos preços e ampliação do acesso aos medicamentos. No mundo todo, a projeção é de 100 milhões de unidades até 2030.
A mudança ocorre porque os usuários tendem a sentir mais saciedade e reduzir o consumo de alimentos calóricos, passando a priorizar opções mais nutritivas. Segundo o estudo, 56% dos consumidores adotam hábitos alimentares mais saudáveis após iniciar o tratamento.
Nesse contexto, ganham espaço as chamadas smart foods, definidas pela consultoria como “alimentos cientificamente formulados para maximizar a saciedade, a densidade nutricional e a atratividade para usuários de GLP-1”.
A conclusão central do relatório é que os ganhos gerados pela migração para dietas mais proteicas superam os riscos associados à redução do consumo calórico, especialmente para produtores e empresas ligados à proteína animal.
Esse movimento aumenta a demanda por ingredientes proteicos derivados da soja, como isolados, concentrados e farinhas. Ao mesmo tempo, fortalece a produção de aves alimentadas com rações de alta qualidade e impulsiona o consumo de milho e farelo de soja.
“Estamos falando, por um lado, de alimentos que recebem adição de proteína e, por outro, de alimentos naturalmente proteicos. Ao mesmo tempo, observamos impactos negativos em grupos mais ligados aos carboidratos, especialmente os cereais”, afirma Carlos Cogo, sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio.
Segundo ele, o milho foge dessa tendência por integrar a cadeia de rações e, por isso, tende a se beneficiar do aumento da demanda por proteínas animais. Já produtos como trigo, arroz e algumas leguminosas, como o feijão, podem perder espaço nesse novo cenário.
Entre as proteínas animais, o frango aparece como o principal beneficiado pela mudança de consumo. Segundo Cogo, além de já estar associado à alimentação saudável, é a proteína que mais cresce no mundo e conta com uma cadeia produtiva altamente estruturada no Brasil.
Cogo destaca ainda ganhos para o segmento de frutas, legumes e verduras (FLV), principalmente os alimentos frescos, em detrimento dos produtos processados. “A partir disso surgem várias derivações, como snacks proteicos, alimentos enriquecidos com proteína e produtos que recebem uma quantidade adicional desse nutriente”, pontua.
Nova demanda por proteínas
Para a consultoria, o Brasil reúne condições favoráveis para aproveitar essa transformação nos hábitos alimentares. “Isso porque, além de ser o maior exportador mundial de proteínas, o Brasil também possui um setor altamente estruturado e com ampla experiência em exportação, atendendo mais de 200 países”, afirma Cogo.
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Segundo ele, a capacidade de ampliar a produção e escalar exportações pode colocar o país entre os principais beneficiários dessa mudança de consumo. Os primeiros impactos devem ocorrer na América do Norte e na Europa, mercados que já concentram grande parte do consumo desses medicamentos. Em uma segunda etapa, a tendência pode avançar para regiões estratégicas para as exportações brasileiras, como o Sudeste Asiático e o Oriente Médio.
Menos calorias não significam menos agro
Apesar da redução no consumo de calorias, o relatório não prevê uma queda na demanda pelos produtos do agronegócio. Para a consultoria, a mudança não necessariamente reduz o tamanho do mercado, mas pode aumentar seu valor ao direcionar o consumo para proteínas e alimentos de maior valor agregado.
Segundo o consultor, a demanda pode migrar de produtos com menor valor agregado, como trigo e arroz, para proteínas como frango, tilápia e carne bovina. Derivados da soja, como o farelo utilizado na alimentação animal, também tendem a ganhar espaço com o aumento da demanda por rações.
“A exportação de proteínas possui valor agregado muito superior ao das commodities agrícolas básicas, como os cereais. Portanto, ocorre uma redução no consumo de calorias, mas um aumento no valor dos produtos demandados. Esse é o principal ponto”, conclui.


Globo Rural

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