Entenda por que o Teatro Goiânia foi projetado como um navio

Quem passa pelo Teatro Goiânia, no Centro da capital, encontra mais do que um dos símbolos do Art Déco goianiense. A arquitetura do prédio adota a vertente streamline e traz referências diretas aos grandes transatlânticos do início do século XX. A semelhança não é apenas uma interpretação: a norma de preservação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) descreve oficialmente a construção com referências a “formas de transatlântico, rádios e cinema”.
Construído entre 1940 e 1942, o então Cine Teatro Goiânia surgiu no período em que a nova capital buscava representar uma ideia de modernização. O prédio integra o conjunto arquitetônico planejado para a cidade e participa dos acontecimentos ligados ao Batismo Cultural de Goiânia, realizado em 1942.
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Por que o Teatro Goiânia parece um navio?

A resposta está no streamline, uma vertente do art déco que ganha espaço internacionalmente nos anos 1930. O movimento transporta para prédios características associadas à velocidade e às novas máquinas daquele período, como automóveis, locomotivas, aviões e navios. Curvas, linhas horizontais e referências náuticas passam a representar a ideia de movimento.
No Teatro Goiânia, essas escolhas aparecem na própria forma do edifício. O Iphan registra fachada principal convexa, acessos laterais em formas cilíndricas, volumes recortados em zigue-zague, marquises sinuosas e elementos geométricos escalonados.
O detalhe que praticamente encerra qualquer dúvida sobre a inspiração naval fica em uma área menos percebida por quem passa pela rua: segundo o Iphan, a parte posterior da construção possui um elemento decorativo que imita um leme.
Assim, a comparação com um transatlântico não depende apenas do formato arredondado da fachada. Ela aparece no conjunto de soluções arquitetônicas adotadas no edifício.
O que é o estilo streamline

O streamline nasce como uma derivação do art déco e adota formas associadas à aerodinâmica. Na França, essa linguagem recebe também o nome de style paquebot, expressão que pode ser traduzida como “estilo transatlântico”. Navios como o francês Normandie ajudam a transformar a estética das grandes embarcações em referência para arquitetura e design.
Enquanto parte do art déco trabalha com volumes geométricos, ornamentação e verticalidade, o streamline acrescenta curvas, superfícies contínuas e linhas que reforçam a horizontalidade. No Teatro Goiânia, essas duas linguagens aparecem juntas.
A Assembleia Legislativa de Goiás também classifica o prédio dentro da tendência streamline e aponta que a construção foi pensada para remeter visualmente a um navio transatlântico. A fachada combina linhas retas e curvas, além das extremidades arredondadas.
Um prédio para representar a nova capital

A escolha arquitetônica acompanha o projeto político e urbano que cerca a criação de Goiânia. A cidade nasce planejada na década de 1930 e seus primeiros edifícios públicos adotam o art déco como parte da imagem da nova capital. O conjunto tombado pelo Iphan inclui prédios, monumentos e parte do traçado urbano projetado por Attílio Corrêa Lima.
Nesse contexto, o Cine Teatro ocupa uma função específica: além de receber cinema e apresentações, torna-se um espaço para solenidades da cidade que Goiás apresenta ao restante do país.
A construção começa em 1940 e entra para a história de Goiânia em 1942. O espaço recebe eventos do Batismo Cultural, que se estende entre 1º e 11 de julho e reúne autoridades, intelectuais e representantes de diferentes setores.
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De cinema a palco da cidade

O nome original, Cine Teatro Goiânia, revela que o edifício nasce para duas funções. A estreia cinematográfica tem como uma das referências históricas a exibição de “Divino Tormento”, produção da Metro-Goldwyn-Mayer com Jeanette MacDonald e Nelson Eddy. Na mesma fase, a Companhia Eva Todor leva ao palco a peça “Colégio Interno”.
A própria autoria do projeto guarda uma diferença entre os registros. A Secretaria de Estado da Cultura atribui a obra ao arquiteto Jorge Félix de Souza. Pesquisas acadêmicas sobre a formação de Goiânia também registram José Amaral Neddermeyer como coautor do projeto.
O prédio atravessa as décadas como espaço para teatro, dança, música, cinema e solenidades. A Secult informa que uma reforma realizada em 1998 recompõe parte da estrutura e amplia a capacidade da sala.
Teatro integra patrimônio protegido pelo Iphan

O Teatro Goiânia faz parte do Acervo Arquitetônico e Urbanístico Art Déco de Goiânia. O conjunto recebe proteção federal e reúne 22 edifícios e monumentos públicos, além de elementos do traçado urbano da capital e do núcleo pioneiro de Campinas.
Em 2024, o Iphan publica uma norma específica com critérios de preservação para esse patrimônio. No documento, o Teatro Goiânia aparece descrito em detalhes, inclusive com as referências a transatlânticos e ao leme presente na arquitetura.
Mais de oito décadas depois de sua construção, portanto, parte da história da modernização de Goiânia permanece visível na esquina do Centro. Para perceber o “navio”, é preciso olhar para a fachada curva, os volumes laterais, as marquises e, principalmente, para os detalhes que transformam um teatro em uma das referências náuticas da arquitetura da capital.
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