Saúde

Esmé Wang desmistifica a esquizofrenia em livro best-seller sobre sua experiência

Não é tão raro encontrar alguém que padeça, hoje, de alguma disfunção mental. O esgotamento pelo excesso de trabalho e redes sociais cria pequenos gatilhos o tempo inteiro, e o estudo da saúde mental fica ainda mais delicado quando estamos falando de neurodivergências.

Por meio da literatura, a escritora americana Esmé Weijun Wang consegue aproximar os leitores da esquizofrenia, transtorno com o qual foi diagnosticada. Sua obra “Esquizofrenias Reunidas” é elucidativa ao propor um mergulho profundo e bastante pessoal nessa realidade.

A autora se refere à sua condição como um “transtorno arquetípico da insanidade”. O uso do termo “insanidade”, hoje em desuso e potencialmente ofensivo, pode causar desconforto. No entanto, Wang o usa como forma de incitar os leitores a entender melhor a esquizofrenia.

Em entrevista à Folha, ela conta que o que mais espera desmistificar é a leitura de que “pessoas com algum tipo de esquizofrenia não são realmente pessoas ou que são criaturas vazias, desprovidas de humanidade”.

“Esquizofrenias Reunidas” elenca pequenos ensaios, nos quais Wang consegue demonstrar como o transtorno desafia a lógica e a realidade, como impacta sua vida e a de quem convive com ela.

Em um dos capítulos, ela relata quando foi aceita em Yale e ainda não tinha sido diagnosticada, dizendo que isso a tornava assustadora para outras pessoas, principalmente em relacionamentos amorosos.

Durante o período que passou na universidade, ela conta teve que encontrar formas de lidar com alucinações, ataques de pânico, dificuldade de concentração, visão embaçada, instabilidade emocional e episódios de mania —em um deles, conta que via as palavras de seu caderno rastejando como aranhas.

“A coisa mais importante é lembrar que você ainda é você. Você ainda é a pessoa que pega as ervilhas do arroz frito ou adora batom rosa e odeia heavy metal ou vice-versa. Você ainda é a pessoa que era antes do diagnóstico. Você ainda é a pessoa que era antes da psicose chegar. E ainda há coisas sobre você que não são esquizofrenia.”



A coisa mais importante é lembrar que você ainda é você. Você ainda é a pessoa que pega as ervilhas do arroz frito ou adora batom rosa e odeia heavy metal ou vice-versa. Você ainda é a pessoa que era antes do diagnóstico

Na época, ela fazia acompanhamento com psiquiatra e tomava medicação, mas ainda assim, era muito difícil se moldar ao padrão de um lugar como Yale padecendo de um distúrbio mental.

Ao longo de seu período acadêmico, foi a inúmeras consultas médicas e recebeu diferentes diagnósticos, mas o de esquizofrenia demorou. É um ponto muito frisado pela autora, que considera que quando sua disfunção foi enfim identificada, representou de certa forma “um conforto, um tratamento ou uma cura”.

Nos Estados Unidos, Wang é uma autora consagrada: seu livro de estreia, “The Border of Paradise”, foi eleito um dos melhores de 2016 e este “Esquizofrenias Reunidas” é um best-seller do The New York Times.

“Fico muito comovida pelas pessoas que encontram sua própria experiência nas páginas deste livro. Honestamente, algumas das mensagens mais tocantes que recebo são de pessoas que têm entes queridos, vivos ou mortos, que viveram com esquizofrenia”, conta a autora. “As pessoas que falam comigo muitas vezes dizem que nunca entenderam seus entes queridos e achavam que nunca entenderiam.”

É impossível acabar a leitura sem pesquisar mais sobre essa condição mental. A escrita de Wang não só aproxima os leitores de sua experiência como mergulha em tópicos que despertam o interesse da autora. “Eu pesquiso muito mais intensamente para meus projetos de não ficção. Há muitas coisas que posso inventar na ficção, então não acho necessário fazer tanta pesquisa”, conta.

“Quero descobrir as coisas com minha escrita, e é colocando-as no papel que isso acontece. Faz muito mais sentido para mim criar um diálogo mais amplo e acrescentar à minha própria experiência fazendo pesquisas, reportagens e conversando com outras pessoas”, completa.

Ela diz que é bastante pragmática em seu processo criativo. “Parece matemático fazer anotações em fichas, reorganizá-las, adicionar mais fichas, subtraí-las e depois colocá-las no papel. As fichas me ajudam a descobrir o que está faltando na pesquisa, quais elementos ainda não explorei e o formato geral da minha escrita.”

Quando o tema é ficcional, Wang diz que é “como entrar em uma floresta escura e não saber para onde ir”. “Na ficção, eu sigo meu instinto para onde parece mais interessante. Eu sigo os personagens e seus desejos. Parece muito mais orgânico e muitas vezes me leva por caminhos errados tanto quanto por caminhos certos.”

E ela não para na escrita. A autora também se dedica a artes visuais, como fotografia e desenho, percebendo que cada modo de expressão é fundamentalmente diferente —um traço perceptível na capacidade que ela tem para descrever suas histórias.

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Informação

Folha de São Paulo

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