Saúde

FDA aprova novo medicamento para Alzheimer

A FDA (Food and Drug Administration), agência regulatória dos Estados Unidos, aprovou nesta terça-feira (2) um novo medicamento para a doença de Alzheimer, o mais recente em uma nova classe de tratamentos que foi recebida com esperança, decepção e ceticismo.

O medicamento, donanemabe, a ser vendido sob o nome de marca Kisunla, mostrou em estudos retardar modestamente o ritmo de declínio cognitivo nas fases iniciais da doença. Também apresentou riscos significativos de segurança, incluindo inchaço e sangramento no cérebro.

Kisunla, fabricado pela Eli Lilly, é semelhante a outro medicamento, Leqembi, aprovado no ano passado. Ambos são infusões intravenosas que atacam uma proteína envolvida no Alzheimer, e ambos podem retardar o desenvolvimento da demência em vários meses.

Ambos também apresentam riscos de segurança semelhantes. Leqembi, fabricado pela Eisai e Biogen, é administrado a cada duas semanas; Kisunla é administrado mensalmente.

Kisunla tem uma diferença significativa que pode atrair pacientes, médicos e seguradoras: a Lilly afirma que os pacientes podem interromper o medicamento após limpar a proteína, amiloide, que se acumula em placas nos cérebros de pessoas com Alzheimer.

“Depois de remover o alvo que você está atacando, você pode interromper a dosagem”, disse Anne White, vice-presidente executiva da Lilly e presidente de sua divisão de neurociência. Ela disse que isso poderia reduzir o custo total e o incômodo do tratamento, bem como o risco de efeitos colaterais.

A empresa afirmou que 17% dos pacientes que receberam donanemabe no ensaio clínico de 18 meses conseguiram interromper o medicamento em seis meses, 47% pararam dentro de um ano e 69% pararam dentro de 18 meses.

Seu declínio cognitivo continuou a desacelerar mesmo depois de pararem. A empresa está avaliando por quanto tempo essa desaceleração continuará além da duração do ensaio, disse o John Sims, diretor médico da Lilly.

O preço de lista do Kisunla será de US$ 32 mil para um curso de terapia com duração de um ano. O Leqembi custa US$ 26 mil por ano, mas não é interrompido após o amiloide ser eliminado. O preço mais alto, disse White, reflete a expectativa de que os pacientes possam interromper o Kisunla após suas placas serem eliminadas.

Kisunla e Leqembi são considerados apenas um passo incremental na busca por tratamentos eficazes para o Alzheimer. Alguns especialistas dizem que eles podem não retardar o declínio o suficiente para ser perceptível para pacientes ou famílias.

Os medicamentos pertencem a uma nova classe de drogas que aborda a biologia subjacente do Alzheimer atacando o amiloide, que começa a se acumular no cérebro anos antes dos sintomas aparecerem. A primeira droga dessa classe a receber aprovação foi o Aduhelm em 2021, mas seu fabricante, a Biogen, interrompeu sua produção no ano passado porque não havia evidências suficientes de que poderia beneficiar os pacientes.

Até agora, não existem tratamentos que parem ou revertam a perda de memória ou outros problemas cognitivos. Alguns especialistas em Alzheimer são céticos em relação às drogas anti-amiloide e disseram que acreditavam que os riscos superavam o potencial de um leve benefício.

Michael Greicius, neurologista da Escola de Medicina da Universidade de Stanford, diz que não prescreveu Leqembi e também não ofereceria Kisunla.

Ele diz que se os medicamentos fossem eficazes, os dados deveriam mostrar que pacientes individuais que tivessem mais amiloide removido de seus cérebros experimentaram taxas mais lentas de declínio cognitivo, assim como medicamentos para o HIV mostraram que quanto mais um medicamento reduz a carga viral de um paciente, melhor é a saúde e a probabilidade de sobrevivência desse paciente.

Mas até agora, Greicius afirma, “não há correlação em nenhum de seus estudos entre a remoção de placas de amiloide e a resposta clínica em indivíduos”. Isso, acrescentou, levanta a questão de “como esse medicamento está funcionando, se é que está, e é um pouco frustrante e angustiante para mim como clínico”.

Outros especialistas afirmam que consideram valioso oferecer os medicamentos aos pacientes, mesmo que o benefício seja modesto.

Joy Snider, professora de neurologia da Escola de Medicina da Universidade de Washington que esteve envolvida em testes dos medicamentos e anteriormente atuou como consultora tanto da Eisai quanto da Lilly, diz que a desaceleração do declínio “não é uma diferença enorme”, mas pode ser significativa na vida das pessoas— por exemplo, ao adiar a progressão de esquecimentos leves para ter que ser lembrado de compromissos.

“Pelo menos no nível do grupo, a limpeza do amiloide se correlaciona com a desaceleração da progressão da doença”. “Será difícil ver essas correlações em um paciente individual”, diz ela, porque os problemas de memória e pensamento podem flutuar e porque durante os testes, “você não sabe se está tendo um bom dia ou um dia ruim”.

Em um ensaio com 1.736 pacientes em estágio inicial —pessoas com comprometimento cognitivo leve ou demência leve— o declínio cognitivo desacelerou cerca de 4,5 a 7,5 meses ao longo de 18 meses naqueles que receberam donanemabe em comparação com aqueles que receberam o placebo.

Em uma escala cognitiva de 18 pontos, o grupo geral de pacientes que recebeu o medicamento declinou 29% mais lentamente do que o grupo do placebo, com uma diferença de sete décimos de ponto. Quase metade daqueles que receberam donanemabe permaneceram no mesmo nível cognitivo um ano após o início do estudo, em comparação com 29% que receberam o placebo.

Aproximadamente um quarto dos que tomaram donanemabe experimentaram inchaço ou sangramento no cérebro. Embora a maioria dos casos tenha sido leve ou assintomática, cerca de 2% foram graves, e os efeitos colaterais foram relacionados às mortes de três pacientes.

O ensaio clínico com donanemabe teve taxas mais altas de inchaço e sangramento do que o ensaio com Leqembi, mas as comparações são difíceis devido às diferenças nos pacientes e em outros fatores.

Com ambos os medicamentos, os pacientes com maior risco incluem aqueles que tiveram mais de quatro sangramentos microscópicos no cérebro e aqueles com uma variante genética ligada ao Alzheimer chamada APOE4— especialmente se tiverem duas cópias da variante.

Informação

Folha de São Paulo

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