Flávio assume o sobrenome ao revelar seu programa

Quando chegou ao poder em 2019, Jair Bolsonaro prometia uma revolução contra o que chamava de sistema, um ente etéreo e útil como alvo de críticas por radicais à direita e à esquerda.
O deputado acreditava ser possível moldar a política brasileira a seu gosto apenas com os votos que recebera.
Politicamente, mostrou-se desdentado, amparado por uma amálgama de militares, aderentes de ideologias exóticas e boa vontade do dito mercado, enquanto isso foi lucrativo.
A debacle na pandemia mostrou a extensão de seu despreparo, e a crise militar de 2021 o colocou em uma rota de radicalização que explodiu no 7 de setembro daquele ano. Acuado pela reação à sua apoplexia golpista, Bolsonaro cedeu enfim ao centrão que tanto criticava.
Quase reelegeu-se com o novo arranjo, no qual seu chefe da Casa Civil Ciro Nogueira (PP), hoje mais conhecido por ser o político mais próximo de Daniel Vorcaro, era a estrela maior. Veio a trama golpista, seu fracasso e a ida de Bolsonaro para a prisão.
Lula (PT) começou o governo sob o signo do 8 de Janeiro e sua aliança com o Supremo ante um Congresso hostil, uma combinação eleitoralmente tóxica até aqui. Mas a turbulência provocada pelo Executivo cessou, sendo substituída só neste ano pela confusão no Judiciário.
Entra em cena o príncipe herdeiro do bolsonarismo, o primogênito Flávio. Sua campanha de primeiro turno foi marcada pela ausência de algo parecido com um programa de governo, e deu certo.
Bafejado pelo primeiro lugar na primeira rodada e pela nova configuração política do país, Flávio Bolsonaro enfim parece assumir seu sobrenome. Dois dias depois da votação, começou a falar como eleito e abrir o jogo acerca de forma mais concreta.
Disse na terça-feira (6) que queria “redemocratizar o Brasil”. Nesta quarta (7 ), sugeriu o que seria isso: reformar a política, o Judiciário, a Constituição, a lei penal e, de quebra, ver estendido o mandato presidencial às expensas da reeleição.
Fazer tais propostas é legítimo, e elas estavam citadas genericamente em seu plano de governo protocolado na Justiça Eleitoral. Mas o histórico golpista do bolsonarismo leva a suspeitas imediatas acerca das intenções de Flávio.
O que ele quer dizer por reforma do Judiciário, por exemplo? Até aqui, pelo proferido por ele e seus aliados, a prioridade é promover por meio de um Senado bolsonarista o impedimento de ministros que condenaram seu pai. Há também a ideia de reduzir competências e ritos internos.
Em relação ao mandato, é provável que apenas esteja acenando à necessidade de ter o trabalho de Tarcísio de Freitas (Republicanos), nome certo do jogo federal de 2030, em São Paulo no segundo turno.
Ciente do seu DNA, o próprio candidato buscou fazer um “hedge”. “Eu já vi gente começar a dizer: ‘Ah, agora o Flávio, com esse Congresso com ampla maioria, ele vai fazer o que o pai dele não fez’. Vamos parar de mentir, vamos aterrissar no mundo real. Para de fazer torcida”, disse.
Além de admitir a “torcida”, o senador logo na sequência afirmou que apenas ele poderá governar com o novo Congresso, ainda mais à direita que o atual.
Se é óbvio que uma eventual vitória de Lula fará o petista encarar um cenário ainda mais conflituoso, a confluência dos raciocínios sugere que Flávio procura, sim, fazer mais do que o pai.
Modelo ele já tem: o ídolo Donald Trump, cuja trajetória Jair Bolsonaro sempre espelhou. O roteiro inclui primeiro mandato turbulento, derrota por pouco, insurgência golpista, condenação judicial e volta por cima nas urnas.
A diferença é que a regra do jogo no Brasil não permite que apenados sejam candidatos, então Jair foi de Flávio. Voltando a Trump, com o controle que deverá perder agora das duas Casas do Congresso, o americano desde então trabalha para desmontar o arcabouço institucional de seu país.
Até aqui, tal reforma não se mostrou coerente do ponto de vista interno, além de trazer caos ao resto do mundo.
Para saber o que poderia acontecer no Brasil no caso de eleição de Flávio, é preciso agora clareza acerca da sua proposta. O impacto presumido de seu enunciado é doméstico, mas não desconectado dos desígnios de Trump para a região.
Folha de São Paulo



