Flávio Bolsonaro manteve contatos e pedidos com Vorcaro mesmo com investigações avançadas; veja cronologia

A análise da Polícia Federal (PF) sobre o celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro revela que o candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) manteve contatos frequentes e cobranças financeiras com o ex-dono do Banco Master em meio ao avanço público das apurações de fraude financeira na instituição.
Mesmo com a rejeição oficial do negócio pelo Banco Central (BC) e a divulgação da abertura de inquérito policial, o candidato do PL seguiu tratando Vorcaro como aliado central no financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Os registros obtidos pela investigação indicam que a proximidade entre o político e o ex-banqueiro se intensificou a partir de agosto de 2025. No dia 3 de setembro daquele ano, o Banco Central rejeitou formalmente a compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB), após cinco meses de análise técnica.
Cinco dias após a negativa da autoridade monetária, em 8 de setembro, Flávio enviou áudio a Vorcaro cobrando repasses em atraso para a produção cinematográfica, manifestando receio de inadimplência com o ator norte-americano Jim Caviezel e com o diretor do longa-metragem.
As tratativas financeiras continuaram nas semanas seguintes. Em 16 de setembro de 2025, no mesmo dia em que houve registro de ligação telefônica entre o candidato e o ex-banqueiro, ocorreu a última remessa de US$ 1,66 milhão pela empresa Entre Investimentos para o fundo Havengate, no Texas (EUA), estrutura apontada pelo Coaf e pela PF como canal de operacionalização dos recursos.
No dia 30 de setembro de 2025, veio a público que a Polícia Federal havia instaurado um inquérito policial sobre as operações suspeitas entre o Banco Master e o BRB, a partir de informações encaminhadas pelo próprio BC ao Ministério Público.
No final de setembro, a apuração tratava de carteiras de crédito sem lastro negociadas entre as instituições, em transações que alcançavam R$ 12,2 bilhões e que culminariam no núcleo central da Operação Compliance Zero.
Mesmo com a investigação policial tornada pública, as conversas mantiveram tom de parceria direta. Em 22 de outubro de 2025, com o filme no terceiro dia de filmagens, Flávio Bolsonaro pediu que Vorcaro avisasse caso não conseguisse realizar os aportes para que pudesse buscar alternativas urgentes, convidando o ex-banqueiro para um jantar em São Paulo com a equipe do longa.
Em 7 de novembro, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro encaminhou um vídeo das gravações ao empresário acompanhado da mensagem: “Tudo isso só está sendo possível por causa de você”.
A relação culminou em 16 de novembro de 2025, véspera da ação ostensiva da PF, quando Flávio Bolsonaro tentou contato telefônico e enviou a mensagem: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”.
Na noite do dia seguinte, 17 de novembro, Vorcaro foi preso preventivamente no aeroporto de Guarulhos ao tentar embarcar para o exterior. Em 18 de novembro, a PF deflagrou a Operação Compliance Zero e o BC decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master.
A defesa de Flávio Bolsonaro afirma que as conversas integraram uma captação privada de patrocínio para a obra audiovisual, nega o recebimento direto de valores e diz que não houve irregularidades ou uso de verba pública na produção.



