Saúde

Fronteiras na ciência só perturbam

Acabo de visitar a Universidade do Texas em El Paso, na fronteira com a cidade de Juárez, no México. A UTEP tem por missão servir às minorias da região, que se tornam maiorias em suas salas de aula: no curso de mapeamento cerebral que meu anfitrião estadunidense, mas nascido paquistanês, Arshad Khan, organiza há anos, 70% dos alunos são hispânicos, e 80% são mulheres (por quê? Pressão sobre os rapazes para trabalhar assim que saem da escola? Ou será que ciência agora virou “coisa de mulher”?). A maioria dos hispânicos são cidadãos mexicanos que residem em El Paso com visto de estudante, mas uma minoria mora em Juárez e atravessa a fronteira todos os dias, duas vezes por dia. Quando não há fila, são vinte minutos em pé na ponte; quando há, são até duas horas. Migrantes têm garra.

Não foi à toa que Arshad, binacional, escolheu trabalhar El Paso: sua pesquisa lida justamente com o mapeamento de estruturas no cérebro, que em nada difere de traçar linhas fronteiriças como as do mapa entre México e EUA. Arshad nos mostra o trecho do rio Grande que mudava de lugar ao longo dos anos até os dois países concordarem em fixá-lo com uma obra e diz, só meio de brincadeira, que fronteiras bem demarcadas são necessárias para manter a paz…entre neurocientistas, que debatem os limites entre regiões vizinhas, discutem se um neurônio pertence a esta ou àquela estrutura, e brigam sobre qual critério usar para identificar um neurônio como daqui ou de lá.

Os neurônios não estão nem aí para como nós os classificamos, claro, mesmo porque eles fazem o que fazem, que é tornar o comportamento flexível, complexo e assim interessante, justamente porque trabalham em conjunto, como mexicanos e estadunidenses em El Paso. Neurônios e estudantes da UTEP têm seu corpo ou coração residente em uma estrutura e seus dendritos e axônios em outra, de onde levam e trazem sinais, promovendo o funcionamento de um todo integrado apesar das fronteiras arbitrárias. Trump e seus amiguinhos republicanos têm muito a aprender com a neurociência.

Em entrevista para a rádio da UTEP, o âncora, ele também cientista nascido estrangeiro, na Inglaterra, me pergunta se cientistas formados no estrangeiro devem algo ao seu país de origem. Em particular, quer saber se eu sinto que devo algo ao Brasil. Acho que ele esperava que eu mostrasse algum senso de culpa, pois ele claramente ainda se sente culpado de ter deixado o Reino Unido que investiu nele.

“De forma alguma”, eu respondo sem pestanejar (em todo caso: nunca recebi dinheiro brasileiro para estudar fora, mas a resposta seria a mesma se tivesse recebido). Se alguém deve algo a alguém, são os países que não investem em sua ciência que devem aos países que de fato formam os cientistas exportados pelos outros, e, neste sentido, o Brasil tem uma dívida cada vez maior com o resto do mundo. Mas ganha o país que atrai cientistas para si, então fica elas por elas.

Em todo caso, explico pacientemente a ele, a ciência não tem fronteiras. Migrar tem um custo mental e emocional que só os migrantes conhecem, e ainda assim, cientistas emigrados escolhem ir trabalhar onde têm mais condições porque é disso que a ciência é feita: de conhecimento construído em conjunto. Hillary disse que é preciso todo um vilarejo para criar uma criança; eu digo que é preciso um mundo inteiro para criar um cientista.


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Informação

Folha de São Paulo

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