Saúde

Homeopatia é placebo, mas e os outros?

Um ilustre professor ministra uma aula magna sobre a técnica cirúrgica que leva seu nome. Ao longo de 40 minutos, descreve numerosos casos de pacientes que foram operados com sucesso. Ao término, quando silenciam os efusivos aplausos, ergue-se um braço vacilante no fundo do abarrotado anfiteatro. O jovem aluno de pós-graduação se apresenta timidamente e emenda: “O que aconteceu com os pacientes do grupo controle?”

Em tom debochado, o palestrante rebate: “Você realmente acha que eu deveria ter deixado de operar metade dos pacientes?”. Sem saber se tratar de uma pergunta retórica, o aluno se arrisca novamente: “Foi exatamente o que pensei.” E o cirurgião, agora despido das liturgias acadêmicas, indigna-se finalmente: “Mas isso é um disparate, garoto! Sua ideia teria condenado à morte metade dos pacientes!” A tensão que toma o ambiente só é rompida pelo sussurro derradeiro do novato: “Qual metade?”

Em estudos clínicos, controles são os participantes que não se sujeitam à intervenção em teste. Idealmente, eles devem receber uma intervenção inerte —em tudo similar à experimental— que dê conta do chamado efeito placebo.

Simplificadamente, uma resposta positiva que não pode ser atribuída ao tratamento ativo é chamada de efeito placebo. E esse fenômeno é genuíno na medida em que pode ser medido em suas manifestações não apenas psicológicas, mas também biológicas. Pois é isso mesmo: placebos —embora “inertes” por definição— são capazes de modificar genes, hormônios, marcadores inflamatórios e até mesmo atividade cerebral.

Popularmente, o termo placebo tem sido usado de maneira depreciativa para se referir, exclusivamente, a tratamentos ineficazes. “Homeopatia é placebo!”, ouve-se com frequência. Bem, cientificamente, é acertado dizer que a homeopatia funciona graças ao efeito placebo, pelo simples fato de que, em estudos bem controlados, os benefícios dessa intervenção se equivalem aos do placebo. Por outro lado, não se encontra muita gente por aí protestando que medicamentos alopáticos são placebo. O que também não seria incorreto, como veremos.

Uma série de experimentos comparou a ação de diversas drogas ativas quando administradas por médicos ou por uma máquina de infusão pré-programada. Portanto, na primeira condição, o tratamento era recebido com o conhecimento do paciente. Na segunda, sua expectativa era suprimida pelo fornecimento automático da droga. Valendo-se dessa criativa abordagem, possíveis respostas superiores com a prescrição médica poderiam ser imputadas ao efeito placebo.

No caso da morfina (um potente analgésico), os pacientes pós-operados que tiveram a droga administrada pelos médicos reportaram um maior alívio da dor do que aqueles que a receberam pela máquina. Resultados similares foram vistos com outras classes conhecidas de medicamentos, como os anti-hipertensivos. Mas o achado mais desconcertante remete-se ao ansiolítico diazepam. Enquanto a prescrição médica do fármaco reduziu o estado de ansiedade dos pacientes conforme esperado, a administração pela máquina foi incapaz de produzir qualquer benefício clínico.

O efeito placebo, como se nota, está longe de ser uma anomalia homeopática. E, a essa altura, imagino que o caro leitor nem se chocará se eu lhe contar que as respostas terapêuticas da maioria dos antidepressivos não superam em 20% as de seus respectivos placebos.

Uma vez que a expectativa ao tratamento afeta sobremaneira suas respostas, o controle por placebo foi consagrado como um bastião da boa ciência. Estudos sem esse rigor metodológico são tomados como de baixa qualidade. Mas nem sempre sua ausência vai na conta do desmazelo do cientista. Como criar um placebo que simule precisamente sessões de psicanálise? Ou que imite com exatidão um programa de exercícios físicos? Já que não existe um controle perfeito para intervenções como essas, resta-nos admitir que seus efeitos, ao menos em parte, se devem ao placebo.

Em maior ou menor medida, portanto, surfam na onda do efeito placebo homeopatia, reiki, constelação familiar, ozonioterapia, geoterapia, imposição de mãos, cirurgia espiritual, suplementos anabólicos e multivitamínicos, antidepressivos, ansiolíticos, plasma rico em plaquetas, magnetoterapia, auriculoterapia, soroterapia, medicina antroposófica, alimentos funcionais, treinamentos funcionais, coaching. Como precocemente aprendera nosso aluno do conto, não se faz amigo falando de placebo.


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Informação

Folha de São Paulo

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