Tecnologia

Javier Milei quer fazer da Argentina um polo de IA de baixa regulação

Javier Milei está propondo tornar a Argentina “o quarto polo de inteligência artificial do mundo”, disse um conselheiro do presidente, prometendo regulação mínima para atrair chefes de tecnologia dos EUA para o problemático país sul-americano.

Demian Reidel, chefe do conselho de assessores econômicos de Milei e organizador das reuniões de alto nível do presidente com OpenAI, Google, Apple e Meta no mês passado, disse ao Financial Times que investir na Argentina proporcionaria às empresas “uma proteção” contra os crescentes riscos regulatórios nos EUA e Europa.

“A Argentina tem um presidente que está realmente apresentando ideias de liberdade, baixa regulação, livre iniciativa, e ele capturou a imaginação do mundo da tecnologia”, disse em entrevista. “Todas as estrelas se alinharam para que talvez sejamos o quarto polo de inteligência artificial do mundo.”

Os planos de Milei para a Argentina surgem em meio a uma grave crise econômica que levou a inflação anual a 289%. Seis meses após assumir a presidência, seu governo minoritário ainda não aprovou nenhuma lei no Congresso para desregulamentar a economia e atrair investimentos.

Mas sua crítica inflamada aos líderes ocidentais, a quem acusou de serem “cooptados” pelo socialismo em um discurso em Davos em janeiro, conquistou fãs no setor de tecnologia, que está cada vez mais sendo alvo de regulamentação por formuladores de políticas europeus e americanos.

Em maio, Milei e Reidel tiveram reuniões privadas na Califórnia com executivos-chefes, incluindo Sam Altman da OpenAI e Tim Cook da Apple, e sediaram uma cúpula com investidores e pensadores de inteligência artificial, incluindo o capitalista de risco Marc Andreessen e o sociólogo Larry Diamond.

O presidente argentino se encontrou duas vezes com o executivo-chefe da Tesla, Elon Musk.

“As pessoas não percebem que se todas essas pessoas querem se encontrar conosco… não é apenas para uma foto”, disse Reidel. “É um interesse mútuo, em termos de [investimento] e o que lhes daremos em termos de regulação e um ambiente favorável aos negócios para operar.”

Reidel acrescentou que estava conversando com as empresas há meses sobre regulação e as vantagens competitivas da Argentina, que incluem uma população bem educada e uma vasta oferta de terras para datacenters.

Ele disse que as reuniões foram “muito amigáveis” e que Milei tinha um “relacionamento particular” com Andreessen, autor do “Manifesto do Tecnólogo-Otimista”.

Outros governos latino-americanos também estão tentando se tornar o Vale do Silício da região. Analistas disseram que as empresas de tecnologia que vierem para a Argentina precisarão fazer grandes investimentos em infraestrutura, como servidores, e estar preparadas para enfrentar grandes riscos políticos e econômicos.

“Eles precisariam ver a Argentina se livrar de seus [controles de capital rígidos], e aprovar reformas econômicas de longo prazo antes de investir”, disse Ignacio Labaqui, analista sênior baseado em Buenos Aires na consultoria de risco Medley Global Advisors. “Esse processo está apenas começando e eu seria cauteloso.”

Um projeto de lei destinado a incentivar o investimento enfrenta uma votação no senado, onde Milei controla 10% dos assentos, na quarta-feira (12). O presidente também precisaria do apoio do Congresso para aprovar uma regulação de inteligência artificial “pró-inovação”.

Reidel argumentou que as pressões regulatórias em outros lugares levariam as empresas a procurar novos locais para investir.

Regras “extremamente restritivas” mataram a inteligência artificial na Europa, disse, acrescentando que as discussões nos EUA, onde os legisladores da Califórnia estão considerando novas regras de segurança para a inteligência artificial, sugeriram que o país “poderia acabar seguindo o mesmo caminho”.

Ele disse esperar que as empresas comecem a “retirar capital humano da Europa” e acrescentou: “Sabe de uma coisa? Vamos recebê-los com bons bifes e Malbec.”

“Não podemos [fazer] tudo imediatamente, mas estamos nos concentrando nas coisas que podemos fazer”, disse Reidel. “Após as reuniões, ajustamos nossos planos e saímos com planos bastante concretos para investimentos”, acrescentou.

Folha de São Paulo

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