João Fonseca, esse sim, merece sua atenção e seu respeito

Li aqui na Folha que o duelo entre João Fonseca e Jakub Mensik, pelas quartas de final de Roland Garros, foi a partida de tênis com maior audiência na história da TV por assinatura no Brasil. Superou a marca de outro jogo dele no torneio, a vitória sobre Novak Djokovic.
Me surpreendi positivamente. Mostra que brasileiros têm apetite para passar algumas horas em frente à TV para ver esportes além de futebol. E é um reconhecimento ao alto nível de tênis demonstrado em Paris. Mesmo com a derrota, quem viu a partida sabe o quanto o tcheco foi superior e como João saiu maior do que entrou. Às vésperas da Copa do Mundo e em um mundo extremamente polarizado, isso me fez pensar em para quais figuras públicas damos nossa atenção e nosso respeito.
Pela dedicação ao esporte e bom exemplo dentro e fora de quadra, João merece ambos. Idealmente, de forma equilibrada, sem pressão exagerada sobre um jovem de 19 anos com muito a evoluir.
Em janeiro de 2025, escrevi a coluna “João Fonseca não tem a obrigação de ser ‘o que o Brasil tem de bom'”. Citei como não podemos cair na armadilha de projetar no outro expectativas que, na verdade, fazem parte do nosso ideal de sucesso.
Em comparação aos brasileiros, os britânicos fazem parte de uma sociedade na qual são respeitados, têm acesso a educação e a transporte público de qualidade e vivem com menos estresse. Por isso, não colocam nos ombros de um atleta a responsabilidade de ser a única coisa bom do país. Se uma estrela do esporte perde ou ganha, vida que segue.
Mas os critérios para definir quem escolhemos como referências estão distorcidos. Cito duas polêmicas pré-Copa.
Quem critica o fato de Neymar ter sido convocado (como eu) o faz, principalmente, pela parte esportiva. Independentemente disso, acho estranho que parte do país o idolatre. Como defender a qualquer custo quem tem falas machistas, atitudes questionáveis na vida pessoal, agride companheiro de clube, e cujo primeiro ato público ao ser chamado para o Mundial foi publicar propaganda de casa de apostas? Não conseguiria admirá-lo como atleta, de qualquer forma, e defendo que não deveria ter status de ídolo.
Outra questão que virou crise nacional foi o fato de a moça influencer ter sido escalada como repórter no programa do Luciano Huck na Copa.
Curioso ver que muitos dos que disseram não ser nada de mais são homens, brancos, de classe média ou alta —ou, pasmem, mulheres. Claro, a tal moça não vai tirar o lugar deles em uma cobertura dessas. No entanto, há outros jornalistas formados que atuam na área do entretenimento e poderiam ter a vaga. Mas, de novo, vamos à inversão de valores.
Não vi tanta indignação com o problema maior, de fato: legitimar como referência, em rede nacional, alguém que faz post beijando um macaco ao terminar o namoro com uma das maiores vítimas de racismo público no mundo, e ganha milhões explorando algo que destrói a vida de pobres no Brasil.
Vamos perdendo o norte do que é certo ou errado, não nos colocamos no lugar do outro. Você tem prestado atenção em quem escolhe apoiar, chamar de ídolo, dar seu tempo, audiência, dinheiro, mesmo quando esta pessoa tem um mau comportamento que não te afete diretamente?
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Esporte / Folha de São Paulo



