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Joias criadas por goiana carregam história da filha

Os corações que aparecem nas joias de cerâmica da designer goiana Karine Resende Brasil, de 47 anos, carregam uma história que vai além da estética. As peças nasceram da experiência da artista com a cardiopatia congênita da filha caçula, Isis, e se tornaram uma das marcas de seu trabalho autoral. Natural de Goiânia, Karine transformou a vivência familiar em expressão artística e já apresentou suas criações em eventos na Itália, na Austrália e, em setembro de 2026, em Paris, na França.

Karine passou a incorporar os corações nas peças em 2021, quando a filha estava com sete anos. “Até hoje, os corações continuam surgindo nas minhas mãos de forma involuntária, durante a rotina de criação no ateliê. Ao longo dos anos, fui compreendendo que esse movimento também tem uma dimensão espiritual, como se os corações encontrassem em minhas mãos um caminho natural para se manifestar por meio da cerâmica”, contou em entrevista ao Mais Goiás.

A formação acadêmica também contribuiu para a construção da identidade artística de Karine. Ainda na faculdade, ela estudou patrimônio histórico, conhecimento que, somado à relação afetiva com o centro da capital, influenciou suas criações. O Art Déco, estilo arquitetônico e urbanístico que marcou as primeiras décadas de Goiânia, tornou-se uma das referências de seu trabalho e inspirou uma coleção de minivasos e a primeira linha de joias da designer.

“Sempre morei em Goiânia, e as referências do Art Déco sempre estiveram presentes no meu cotidiano. Além disso, tenho uma memória afetiva muito forte com a Avenida Goiás: minha avó paterna trabalhava na Feira Hippie, e sua banca ficava próxima ao relógio da avenida. Essa lembrança faz parte da minha história”, conta.

Ao falar sobre os minivasos, ela resume: “Foi um encontro entre as minhas memórias afetivas, identidade cultural e expressão artística”.

Mudança de carreira

Durante cinco anos, Karine atuou como professora universitária nas áreas de Turismo e Hotelaria. A maternidade marcou o início de um processo de autoconhecimento que a levou a questionar suas escolhas profissionais e a buscar uma atividade com a qual se identificasse mais.

O primeiro contato marcante com a cerâmica ocorreu em 2015, durante uma viagem a Monte Verde (MG). Ao visitar a galeria da ceramista Paula Unger (1954-2022), Karine se encantou com as esculturas integradas à natureza, o design das peças e a maneira como o espaço recebia os visitantes. “Isso me fez desejar um dia me tornar uma artista e ter um local como o dela”, revelou.

De volta a Goiânia, procurou um ateliê para aprender a trabalhar com cerâmica. No início, experimentou diferentes possibilidades, da escultura à produção de luminárias e objetos decorativos. Durante cerca de dois anos, alternou períodos dedicados à cerâmica com retornos à carreira acadêmica, principalmente por questões financeiras. Em 2019, criou sua marca autoral e, em 2021, deixou definitivamente a universidade para se dedicar integralmente à produção artística.

Joias que conquistam celebridades

Desde 2022, Karine busca aproximar suas criações de personalidades públicas. Mais de 40 celebridades já receberam peças da designer, e mais de 20 usaram suas criações.

Na Amarê Fashion, em 2024, uma de suas peças chamou a atenção da apresentadora Ana Hickmann, que usou um colar criado pela designer durante o evento. O acessório fazia parte de um projeto desenvolvido em parceria com o professor Celso Camilo, do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás (CEIA/UFG), que explorou a cocriação entre cerâmica e inteligência artificial.

“A experiência com Ana Hickmann foi especialmente marcante. Tive a oportunidade de apresentar a criação a ela, e sua reação foi emocionante: ela acolheu o projeto de forma muito genuína, colocou o colar no pescoço e o usou durante todo o evento, inclusive em entrevistas, falando sobre a iniciativa.”

O projeto também levou Karine ao Globo Repórter, em novembro de 2024, em uma edição dedicada à inteligência artificial. Desde aquele ano, segundo a artista, ela também comercializa peças para a Rede Globo. As experiências ajudaram a aproximar seu trabalho de novos públicos e a ampliar as possibilidades de atuação da marca.

Karine Brasil em Paris (Foto: reprodução)

Projeção internacional sem perder a essência

A projeção internacional ganhou novos capítulos em 2026, com a participação na Brasil Week AU, na Austrália, e na Jornada Exportadora Paris 2026. Na capital francesa, Karine foi a única representante de Goiás entre os 20 selecionados de todo o país para a iniciativa promovida pelo programa Brasil Feito à Mão, da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).

Entre os trabalhos apresentados em Paris estava a coleção inédita Luz, criada especialmente para a ocasião e composta por peças que exploram as cores da bandeira francesa. A participação marcou mais um passo na busca por espaço no mercado internacional e reforçou o interesse da designer em apresentar referências brasileiras a outros públicos.

Depois de expor em diferentes países, Karine pretende ampliar a presença da marca no exterior sem se afastar das referências que sustentam sua produção. A artista quer aprofundar suas pesquisas e continuar desenvolvendo joias e objetos inspirados nas próprias raízes, nos afetos e nas experiências que marcaram sua trajetória.

Para ela, levar suas criações a outros países também significa mostrar a singularidade da produção brasileira. “Mais do que o reconhecimento da marca, fico feliz em perceber que a arte que nasce no meu ateliê, em Goiânia, pode dialogar com outras culturas sem perder sua identidade e entender o quão única e potente é a nossa cultura.”

“Percebi que não precisamos perder nossa identidade para ocupar espaços internacionais. Não existe nada igual ao que fazemos aqui, e essa é a nossa maior força.”

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