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Leandro Gugel constrói sua atuação em torno do cuidado com a endometriose

Algumas trajetórias se firmam pela coragem de rever escolhas. Entre mudanças de cidade, dúvidas profissionais e anos de estudo, Leandro Gugel encontrou na Ginecologia uma forma de unir precisão, escuta e responsabilidade. Hoje, dedica-se à cirurgia ginecológica e ao cuidado de mulheres com endometriose.

Natural de Espumoso, no interior do Rio Grande do Sul, cresceu em uma família sem médicos. A mãe era professora. O pai, que não concluiu os estudos, mantinha uma empresa de esquadrias e móveis. Mesmo distante do ambiente universitário, os dois sempre incentivaram o filho a estudar.

A primeira escolha, porém, não foi a Medicina. Leandro ingressou em Engenharia Mecânica, em Passo Fundo, mas deixou o curso após um semestre. De volta à cidade natal, trabalhou por cerca de dois anos com o pai. Depois, mudou-se para Santa Maria, onde frequentou um curso preparatório e chegou a ser aprovado em Direito. Ainda assim, percebeu que buscava outro caminho.

“Minha escolha não aconteceu de forma imediata. O período de dúvida e o trabalho com meu pai me ajudaram a amadurecer. Quando voltei a estudar, entendi que precisava encontrar uma profissão que realmente fizesse sentido”, relembra.

Da formação à chegada a Tubarão

Leandro ingressou em Medicina na Universidade Católica de Pelotas, no Rio Grande do Sul. No terceiro ano, participou de atividades na Santa Casa de Misericórdia de Pelotas, onde acompanhou gestantes, partos e cuidados no pós-parto. A experiência direcionou sua formação para a saúde da mulher.

Após a graduação, realizou residência em Ginecologia e Obstetrícia no Hospital Universitário São Francisco de Paula, também em Pelotas. Durante a faculdade, conheceu a esposa, que seguiu carreira em Radiologia.

Um tio da companheira o convidou para conhecer Tubarão, em Santa Catarina. Leandro chegou para um plantão na virada de 2006 para 2007 e acompanhou o nascimento de 12 crianças naquela noite. Pouco depois, participou de um curso de ultrassonografia em Ribeirão Preto, São Paulo. Ao retornar, seu nome já integrava a escala médica local.

“Tubarão deixou de ser uma cidade que eu nem sabia localizar e passou a ser o lugar onde construí minha vida profissional e familiar”, conta.

A endometriose redefine sua atuação

Já estabelecido em Santa Catarina, Leandro aprofundou sua formação em cirurgia ginecológica minimamente invasiva no Instituto Crispi, no Rio de Janeiro. O contato com procedimentos voltados à endometriose despertou um interesse que ultrapassava a técnica.

A doença pode provocar cólicas intensas, dor durante a relação sexual, alterações intestinais, sintomas urinários e dificuldade para engravidar. Para o ginecologista, porém, os impactos também se refletem no trabalho, nos relacionamentos e nos projetos pessoais.

“A mulher pode carregar insegurança, frustração e prejuízos que não aparecem em um exame. Compreender o quadro exige saber como a doença interfere na rotina e nas escolhas daquela paciente”, explica.

Essa visão passou a orientar sua forma de atender. Uma mulher pode buscar o controle da dor, enquanto outra tenta engravidar. Por isso, a conduta considera sintomas, idade, desejo gestacional e resposta ao tratamento.

Nem todo caso exige cirurgia. O cuidado pode envolver medicamentos, fisioterapia, orientação nutricional, acompanhamento psicológico e estratégias de controle da dor.

Um projeto construído em equipe

Ao perceber que a endometriose exige diferentes olhares, Leandro começou a planejar uma estrutura multidisciplinar em Tubarão. O projeto levou quase dez anos para ganhar forma no Complexo Médico Pró-Vida.

O centro reúne profissionais de Ginecologia, Nutrição, Fisioterapia, Psicologia, Urologia, Coloproctologia e Medicina da Dor. A composição do acompanhamento varia de acordo com as necessidades de cada mulher.

“O ginecologista pode organizar o cuidado, mas não substitui os profissionais de outras áreas. Quando cada integrante assume sua responsabilidade, a paciente deixa de enfrentar sozinha um problema que já ocupa espaço demais em sua vida”, afirma.

A integração ganha ainda mais importância quando a doença compromete o intestino, o trato urinário, o diafragma ou outras estruturas. Nesses casos, o planejamento e a comunicação entre especialistas também fazem parte da segurança do tratamento.

Tecnologia a serviço da paciente

A busca por aperfeiçoamento levou Leandro a treinamentos no IRCAD América Latina, em Barretos, São Paulo. Ao longo da carreira, acompanhou a evolução de diferentes abordagens cirúrgicas, da cirurgia aberta à via vaginal, à videolaparoscopia e à cirurgia robótica.

Na plataforma robótica, o cirurgião controla pinças articuladas a partir de um console e conta com visão tridimensional ampliada e maior estabilidade dos movimentos. O recurso pode favorecer procedimentos longos ou que exigem maior precisão.

“O robô amplia as possibilidades, mas não conduz a decisão. Ele não substitui experiência, conhecimento anatômico ou planejamento. A tecnologia precisa ser escolhida porque faz sentido para aquele caso”, ressalta.

A técnica depende do quadro clínico, da complexidade do procedimento, da estrutura hospitalar e da experiência da equipe. Leandro também acompanha o uso da inteligência artificial em sistemas que auxiliam registros e a organização de informações, sem substituir a análise médica.

A dimensão humana do cuidado

Na rotina do consultório, Leandro observa que a dor crônica pode afetar o sono, o humor, o trabalho, a sexualidade e a convivência familiar. Algumas mulheres passam anos cuidando da casa, dos filhos e da carreira enquanto deixam os próprios sintomas em segundo plano.

Para ele, humanizar significa explicar com clareza, reconhecer medos e permitir que a paciente participe das decisões. Entre as inseguranças mais frequentes estão a infertilidade, a anestesia, a dor pós-operatória e o receio de complicações.

“Quando a paciente compreende o que acontece e por que uma conduta está sendo proposta, ela deixa de ocupar um lugar passivo. Informação também é uma forma de acolhimento”, reflete.

Esse cuidado continua depois da cirurgia. Pequenas incisões externas não significam uma intervenção interna simples, e a persistência da dor pode ter diferentes causas. Por isso, o acompanhamento não termina com o procedimento.

O que permanece em movimento

Fora do ambiente hospitalar, Leandro preserva a saúde por meio da convivência familiar, da atividade física e de hábitos que ajudam a sustentar a rotina de cirurgias longas. Ele reconhece que o equilíbrio físico e emocional do médico também interfere na qualidade do trabalho.

Depois de quase uma década dedicada à criação do centro de endometriose, seus planos se concentram em consolidar a equipe, aperfeiçoar o atendimento e ampliar o acesso a tecnologias. O ensino também aparece como possibilidade, especialmente pela troca de experiências entre profissionais.

“O que me move é a possibilidade de devolver qualidade de vida, mesmo diante de uma doença complexa. Quero que a mulher consiga voltar ao trabalho, à família e aos relacionamentos sem carregar todos os dias o peso da dor. O corpo apresenta sinais, e nossa responsabilidade começa quando decidimos escutá-los”, conclui.

CRM: 13442/SC 224447/SP RQE Nº: 6677

Instagram: @gugel.leandro

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