Política

Lima Barreto e o mar de lama

Em “O Único Assassinato de Cazuza” Lima Barreto, faz através de um de seus personagens uma afirmação de grande atualidade: “Penso, ao ler tais notícias, que a fortuna dessa gente que está na Câmara, no Senado, nos ministérios, até na presidência da República se alicerça no crime, no assassinato, que acha você?”. Ao que seu interlocutor retruca:

– Já houve quem dissesse que, quem não mandou um mortal deste para o outro mundo, não faz carreira na política do Rio de Janeiro.

Mas o ponto que escolhi para uma análise mais detida vem depois:

– Você sabe o que dizem esses políticos que sobem às alturas com dezenas de assassinatos nas costas?

– Não.

– Que todos nós matamos.

A primeira reação do autor de um crime é a negação; a segunda, que todos fazem o mesmo. A crença de que a fortuna e a carreira política assentam-se no crime não é sem consequências. Se todos acham que a corrupção é a regra do jogo, estamos em uma armadilha. Quando práticas escusas são percebidas como a regra, o ator que joga limpo se verá como um “otário”. Os incentivos nessa situação são para jogar sujo (recorrendo à violência ou a corrupção), esperando que os demais também o façam.

Há forte correlação entre a crença de que “a corrupção é generalizada” e a de se considerar que “pagar propina é justificável”. Um estudo experimental mostrou que a exposição à informação sobre o aumento da corrupção na Costa Rica produzia aumento de 28% na propensão a pagar propina em relação a um grupo de controle.

A cientista política Nara Pavão em estudo experimental mostrou que quando todas as alternativas são vistas como corruptas, o efeito da corrupção desaparece. O impacto da informação que um gerente da Petrobras havia devolvido meio bilhão de reais e que a Odebrecht tinha um departamento inteiro, com servidor na Suíça, dedicado a propinas foi avassalador. Após o caso JBS-Aécio a crença em um mar de lama se generalizou. A ascensão de Bolsonaro e a renovação parlamentar em 2018 não são consistentes, no curto prazo, com a ideia do efeito “mar de lama”.

A atual reação contra a Lava Jato é marcada pela negação. Mais importante, vai contra as crenças do eleitorado e mostra a resiliência da aversão à corrupção. Em nosso país, o hiato entre expectativas normativas e crença sobre a prevalência da corrupção política é o maior da região. Enquanto apenas 10,1% dos entrevistados do LAPOP afirmam que é admissível pagar uma propina, o menor percentual da região (México, 22%; Uruguai 11,4%; Chile, 12.5%); só somos superados na percepção da corrupção entre os políticos pelo Peru (78.8%). A Argentina (71%) e Chile (70%) têm percentuais próximos ao nosso (75%).

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Folha de São Paulo

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