Saúde

Limitar a meta de não beber para 24 horas transforma tudo

Ao entrar no ônibus já cansada na manhã dessa segunda-feira, penso em uma recaída. Bate uma tristeza. Não, Alice, deixa disso. Não vai ter recaída nenhuma. É só um medo infundado. Vontade de querer beber não está no meu horizonte, ao contrário, está muito longe, mas tenho receio de fracassar. O calor somado ao mês frenético de dezembro também não ajuda.

“Evite o cansaço, a fome e a solidão.” Três sugestões de AA que me ajudam muito desde que comecei minha recuperação. Ouço isso quase todas as vezes que me junto ao grupo e mesmo assim minha teimosia me faz esquecer. Preciso me colocar limites. Não posso entrar na onda, não posso achar que tenho que fazer quinhentas mil coisas antes de terminar o ano. Também não posso ser muito dura comigo, não devo me levar tão a sério.

Nesse estado de calor, cansaço, estresse, tenho uma sensação parecida com a famosa ressaca. Sabe aqueles dias em que não dá pra fazer nada? Só ficar deitada no sofá, recuperando as forças? Assim eram as minhas ressacas, dias horríveis. Eu sempre tinha muita vontade de chorar, sentia muito medo e ficava muito frágil, o mundo parecia estar caindo sobre a minha cabeça.

Fica calma, Alice –fico mentalizando essa frase. Chego ao meu destino e decido tomar um café e comer algum docinho (sempre ajuda) antes de entrar na reunião. Me vê uma água, escuto ao lado no balcão. Com gás? Não, água que passarinho não bebe. Graça nenhuma. Àquela hora da manhã e eu me sentaria ao lado de alguém bebendo? Justo no dia em que esses pensamentos me atormentam? É isso, às vezes parece que o mundo está me observando e resolve pôr uma armadilha atrás da outra para me prejudicar.

Bobagem, Alice, nem tudo que acontece tem a ver com você. Me pôr no centro de tudo é uma especialidade que desconfio ser decorrente da doença do alcoolismo ativo. Eu entrava nos lugares pensando que todos estavam olhando pra mim e lembrando dos meus vexames. Nos últimos tempos, evitava falar com certas pessoas, com medo do que iriam me dizer. Nunca lembrava de nada. É isso, penso. Hoje eu posso ter todas as sensações de ressaca mas sei exatamente tudo que fiz ontem, antes de ontem, na semana passada, e isso é que me salva e me fortalece. Não vou beber hoje. Aconteça o que acontecer, não há chance do primeiro gole, só por hoje. Limitar essa meta para 24 horas transforma tudo. O nunca mais é muito longe e o para sempre é tempo demais. Fraciono. É hoje.

O alívio que me dá quando consigo raciocinar direito é gigantesco. Tem dias como hoje, em que as sensações são tão esquisitas que parece que não vou aguentar. Por isso é tão bom frequentar grupos de alcoólicos anônimos. Para saber o que aquelas pessoas, que estão há 20, 10 anos sem beber, fizeram quando passaram por situações semelhantes.

É incrível como todos me entendem, me ajudam e me acalmam. Claro que eu posso desabafar com uma amiga e pedir ajuda, mas ela não vai saber exatamente o que está acontecendo. Ao passo que em AA, todos sabem exatamente o que digo, não preciso explicar nenhuma sensação. Quando aperta, como hoje, vendo esse moço beber em plena manhã, ligo para a minha madrinha (é a pessoa que escolhi por me identificar e que tem o dobro do tempo de sobriedade que eu) e falamos.

Essa semana eu dei uma pifada. Muito por causa dos numerosos eventos que surgem em dezembro. As milhares de vezes que tenho que dizer que não bebo. Se em geral já é difícil ser alcoólatra, em dezembro é exaustivo. Todas as confraternizações são um desafio. Muita bebida, e parece que capricham em quantidade e diversidade. Festas com mil tipos de drinques. Só de escrever me dá um frio na espinha. Mas escrever me acalma. Penso em quão gratificante é poder estar sóbria e escrever linhas que fazem sentido. Sabe o dia após a ressaca? Quando você acorda e fala, ufa, acabou? É mais ou menos isso que sinto quando passo por mais um desafio sem beber. E cada um deles me torna mais forte e mais feliz.

Recentemente voltei a falar com pessoas especiais das quais a bebida tinha me afastado e também isso me traz tranquilidade. A Mari, por exemplo, quase não falava mais comigo. Perdemos o contato. Era uma grande amiga na época em que eu ainda bebia muito e me distanciei justamente por causa disso. Hoje tomamos chá e todo dia trocamos figurinhas de animais fofos no WhatsApp.

Tenho uma lista grande de presentes que ganhei este ano. O principal foi essa coluna e vocês que tanto me ajudam a atravessar todos os momentos, dos mais delicados aos mais felizes. Tenho certeza de que falar sobre tudo que considero ruim e que me deixa mal me faz ter cada vez mais clareza de tudo. E é isso, dezembro vai passar, todas-as-festas vão passar. Mas é muito importante para mim perceber quando estou cansada. E sobretudo quando me parece que tudo vai ficar ruim. Não vai, hoje sou eu que escolho. Posso decidir o que fazer todos os dias da minha vida se evito o primeiro gole. Não bebo hoje, e amanhã é um novo hoje. Com isso finalizo meu texto da semana que finalmente consegui atravessar.

Passou mais uma vez.

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Informação

Folha de São Paulo

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