Política

Lobista pediu ação de Lulinha para fechar negócios de Careca do INSS com governo, diz PF

A Polícia Federal aponta que a lobista Roberta Luchsinger pediu a intervenção do filho mais velho do presidente Lula (PT), Fábio Luís Lula da Silva, para tentar fechar negócios de interesse de Antônio Camilo Antunes, o Careca do INSS, com o Ministério da Saúde.

Mensagens acessadas pela PF no celular da empresária mostram que havia uma pressão sobre Lulinha, como Fábio Luís é conhecido, para que participasse das discussões sobre a tentativa de contratação de material derivado de canabidiol e de kits para teste de dengue. Nenhum dos contratos foi fechado.

As informações obtidas pela Folha constam em investigação preliminar e em representação da PF enviadas ao ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça, que abriu inquérito sobre o caso. O material está sob sigilo.

Os diálogos mostram movimentações de Roberta para conseguir fechar os negócios, a pedido do Careca do INSS, antes que Lulinha se mudasse para a Espanha, em 2025.

Procurada, a defesa de Fábio Luís diz que ele começou a preparar sua mudança ainda em 2024 e que tem vínculos profissionais com uma empresa da Espanha que não tem relação direta ou indireta com o governo brasileiro.

“Ele vive na Espanha exclusivamente com o resultado do seu trabalho. Uma vida simples, mas muito digna e sem luxo, ao contrário do que estão dizendo”, diz o advogado Marco Aurélio de Carvalho, que representa Lulinha.

A defesa afirma que ele “nunca, em nenhum momento, fez nenhuma intervenção e nenhuma reunião” em favor de negócios do Careca do INSS. “Nos autos, não tem nada que desminta isso. O que a Polícia Federal tem é um quebra-cabeça de ilações, com inferências não conclusivas.”

Procuradas por mensagens às 9h15 desta quarta-feira (26), as defesas de Roberta Luchsinger e de Antônio Camilo não se manifestaram. Anteriormente, a defesa de Roberta disse que não se posicionaria sobre inquérito sob sigilo.

Em mensagens enviadas em 23 de janeiro de 2025, Roberta se queixa de que o Careca do INSS estava pressionando para que os negócios de seu interesse fossem fechados logo, e que o empresário não tinha coragem de fazer a mesma pressão sobre Lulinha.

Ela diz que comentou o assunto com o filho do presidente, e que seria bom “o Fábio se mexer”. A PF interpreta, nesse diálogo, que “as demandas solicitadas por Antônio dependem da intervenção de Fábio”.

As conversas de Roberta são com Gustavo Gaspar, empresário e ex-assessor do senador Weverton Rocha (PDT-MA). Ele também participava dos negócios com o Careca do INSS. Procurado, o advogado de Gaspar disse que ainda não teve acesso aos autos.

Nesse período, os diálogos apontam que o empresário, que era o dono de uma empresa de cannabis medicinal, tinha dívidas e precisava de dinheiro. Ao falar à época sobre a situação financeira dele, Roberta afirmou ter o sentimento de que “a casa do Antônio vai cair”.

Meses depois, ele virou um dos principais alvos da operação Sem Desconto, sobre suspeitas de um desvio de benefícios de aposentados e de pensionistas. Antônio Camilo está preso desde setembro do ano passado. Gustavo Gaspar também foi preso na operação e, atualmente, está em regime domiciliar.

A PF afirma que, em 27 de janeiro de 2025, Roberta procurava uma “solução para capitalizar” o Careca do INSS, e pressionava o então secretário-executivo do Ministério da Saúde, Swedenberger do Nascimento Barbosa, o Berger.

“[Temos que] Correr para o Berger comprar isso logo”, disse, em referência a kits de combate à dengue.

“Importante citar que Roberta informa que tem prazo, pois ‘Fábio vai embora'”, diz a Polícia Federal, apontando que ela também afirmou que ele precisava sair do país até junho daquele ano e que era necessária a sua intervenção na compra.

Lulinha se mudou definitivamente do Brasil para a Espanha ainda em 2025. Em janeiro de 2026, ele abriu uma empresa em Madri.

Os documentos da Polícia Federal também destacam conversas de Roberta com Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula.

Desde março de 2024, Roberta trabalhava para emplacar os contratos com o governo. Em março, ela diz ao então chefe de gabinete, referindo-se a Berger: “Mas vc vai pra cima dele pq eu fiz Gustavo investir lá na empresa do canabidiol rsrs”.

Em maio, ela diz a Marcola: “Temos q colocar Fábio em cima do berge rsrs”. Marco Aurélio responde: “blz”.

Em outubro de 2024, Roberta e Marcola combinam um churrasco. Ela pede que ele leve Berger, a pedido de Fábio Luís. Em novembro do mesmo ano, Roberta afirma a Marcola: “Fabio ta la em Portugal e acordou lá hoje me pedindo pra falar com vc pra vc fazer uma pressão no Berger dos pedidos”.

Como a Folha mostrou, Roberta pagou, em 2024, R$ 217 mil em faturas de cartão de crédito, financiamento de um veículo e outras despesas para Marcola.

Procurado por meio da assessoria do Palácio do Planalto às 11h40, Swedenberger ainda não se manifestou.

Em nota, a defesa de Marcola diz que ele “jamais intermediou negociações ou encaminhou qualquer documento referente a compras ou licitações no âmbito do Ministério da Saúde, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ou de qualquer outro órgão do governo federal”.

“A defesa de Marco Aurélio Santana Ribeiro continua sem acesso à íntegra dos autos e do inquérito. Os vazamentos seletivos de trechos da documentação, em vez da totalidade do conteúdo, têm objetivo de distorcer os fatos e interferir no processo eleitoral.”

Folha de São Paulo

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo