Lula contra a matemática no 2º turno

Em 2022, às vésperas da disputa entre Lula (PT) e Jair Bolsonaro (PL), escrevemos que o segundo turno não era uma nova eleição. O argumento vinha de 287 disputas brasileiras: 75,5% dos candidatos à frente no primeiro turno venceram também o segundo. Na eleição daquele ano, o modelo dava a Bolsonaro 27% de chance de virada. Quatro anos depois, a mesma matemática mudou de lado.
Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno de 2026 com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula —diferença de apenas 1,87 ponto. Mas os dois já somam mais de 92% dos votos válidos: sobrou pouco voto para redistribuir.
Se os eleitores dos finalistas permanecerem onde estão, Lula precisa de cerca de 62% dos votos dos candidatos eliminados para ultrapassar Flávio —uma divisão meio a meio não basta. Essa é a primeira matemática contra o presidente.
O modelo RPA (Russo, Pimentel e Avelino), que desenvolvemos para o segundo turno, é propositalmente simples: usa a votação do líder e sua diferença para o segundo colocado no primeiro turno para estimar o resultado esperado e a chance de confirmação da vitória.
Aplicado a 2026, esse modelo estrutural projeta 51,1% dos votos válidos para o líder do primeiro turno, e 48,9% para o segundo, com 70,5% de chance de confirmação da vitória.
No artigo de 2022 registramos uma limitação: o modelo sabe quantos votos sobraram, mas não de quem são esses votos. Agora, criamos um índice de proximidade ideológica, que pondera a distância partidária de cada candidato eliminado aos dois finalistas pelo tamanho de sua votação.
No primeiro turno de 2026, essa composição é assimétrica: quatro quintos do estoque ideológico dos eliminados está mais próximo do campo do PL do que do PT. Isso não determina o voto individual, mas mostra que o estoque de votos disponível não está distribuído de forma neutra.
Incorporada à própria equação de probabilidade, essa informação aumenta para cerca de 81% a chance de confirmação do líder —e 19% a de virada. No placar, a versão híbrida —estrutural e ideológico, juntos— projeta 52,2% para Flávio e 47,8% para Lula: a ideologia não compensa a vantagem inicial do primeiro colocado, ela a amplia ligeiramente.
Portanto, neste ano, Lula teria de 19% a 29,5% de chances de vitória, a depender do modelo.
Modelos trabalham com regularidades históricas; campanhas, com pessoas. Entre turnos podem ocorrer vários fatos, incluindo debates e erros, que podem levar à migração de votos. Em 2022, escrevemos que o segundo turno não era uma nova eleição. Em 2026, Lula terá a chance de testar essa afirmação: para virar, terá de vencer a matemática do segundo turno.
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Folha de São Paulo


