Economia

Maioria dos brasileiros prefere recicláveis, mas só 1/5 já restringiu compras por isso, diz Datafolha

A maioria dos brasileiros prefere embalagens recicláveis quando vai às compras, mas apenas 18% já deixaram de comprar algum produto em razão disso, segundo pesquisa Datafolha conduzida no último mês de maio sobre a percepção e as práticas sobre reciclagem no país.

Questionados se preferiam itens com embalagens recicláveis, 68% dos entrevistados responderam afirmativamente na pesquisa espontânea, enquanto 30% disseram não ter preferência por embalagens recicláveis, e 2% declararam não saber.

De outro lado, 82% negaram já ter deixado de comprar algum produto porque a embalagem não era reciclável.

O Datafolha entrevistou 2.010 pessoas com idade superior a 16 anos entre os dias 13 e 21 de maio em todas as regiões do país. A margem de erro para o total da amostra é de 2 pontos para mais ou para menos.

O levantamento mostra que, entre pessoas de 16 a 24 anos, 66% preferem recicláveis na hora das compras. Os percentuais por idade variam dentro da margem de erro de 5 pontos. Na última faixa, de 60 anos ou mais, o índice chega a 67%.

Em relação à pergunta seguinte, dos mais jovens, 12% disseram já ter deixado de comprar algum produto porque a embalagem não era reciclável, enquanto 24% dos brasileiros com 60 ou mais responderam o mesmo.

Daqueles com ensino fundamental, 69% afirmaram a preferência pelos recicláveis. O número se repete no segmento de pessoas com ensino médio. Entre os mais escolarizados o índice foi mais baixo: 63%. As oscilações, no entanto, estão dentro da margem de erro: de 4 pontos para o primeiro e o último grupos, e de 3 pontos para o segundo.

Quanto à pergunta sobre se já deixaram de comprar algo por isso, 23% das pessoas com fundamental disseram sim. Apenas 16% daqueles com ensino médio e 15% dos com superior responderam dessa forma.

Felipe Mesquita, 36, vende café da manhã ao lado de um ponto de ônibus na zona oeste de São Paulo. Ele é um dos que não se importam com a a possibilidade de reciclar uma embalagem nem deixou de comprar algo por isso. “Vamos ao mercado atrás de preço baixo”, resumiu.

Vania Ribeiro dos Santos, 50, cuidadora de idosos, prefere recicláveis, mas isso nunca a impediu de obter algo que não o fosse. Vania compra o que precisa, apesar da preferência.

“Tento fazer minha parte”, diz ela, que lava embalagens e separa lixo em casa, mesmo sem haver coleta seletiva onde mora. Para a consumidora, a indústria deveria se esforçar para produzir recicláveis e educar a população sobre o tema.

Dos que separam o lixo, 73% preferem recicláveis. Entre quem faz a separação, 22% disseram já ter deixado de comprar um produto porque a embalagem não era reciclável. Dos que não separam, 9% relataram já ter feito a mesma escolha.

No grupo de quem declarou já ter deixado de comprar produtos porque a embalagem não era reciclável, 63% relataram haver serviço de coleta seletiva onde moram.

Dados de 2022 do Sistema Nacional de Resíduos Sólidos Urbanos (Snis), mostram que apenas 32% dos municípios brasileiros têm coleta seletiva.

A estimativa é que 1,87 milhão de toneladas de resíduos recicláveis secos tenha sido coletado naquele ano e que 1,12 milhão de toneladas tenha sido recuperado, conforme informações do Snis.

A reciclagem no Brasil vive uma crise desde que foi implementada, há 14 anos, foi elaborada a PNRS (Política Nacional de Resíduos Sólidos), com planos e metas para estimular o reaproveitamento de materiais e o descarte correto de lixo.

Os elos da cadeia carecem de incentivos e têm problemas para manter o funcionamento do negócio. Isso se reflete em pilhas de resíduos sobrando, empresas se desfazendo de patrimônio e menos produtos sendo reaproveitados pela indústria.

Luciana Pellegrino, diretora-executiva da Abre (Associação Brasileira de embalagens), disse que o mercado continua a produzir não recicláveis porque a indústria precisa de viabilidade econômica. Mas a reciclabilidade depende de novas tecnologias e iniciativas sistêmicas.

“Pensamos sempre nos direitos do consumidor, mas temos de olhá-lo como um cidadão. E cidadão tem direitos e deveres”, diz ela. É importante que ele pesquise o produto e saiba como descartá-lo.

A administração pública tem o papel dela. “O governo não fala desse assunto como fala de outros —vacinação, cinto de segurança—, para a população entender que precisamos olhar para isso como sociedade”, afirma Pellegrino.

Folha de São Paulo

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