Esporte

Mantra do Brasileiro foi o ‘eu acredito’, mas prefiro o ‘eu não acredito’

Terminou o Brasileirão. Não vou eleger os melhores nem os piores porque o campeonato é longo, com subidas e descidas, com ótimas e fracas partidas e com muitos resultados surpreendentes em relação ao desempenho das equipes. Não quero ser incorreto, injusto nem presunçoso.

Abel Ferreira, como os grandes profissionais, une conhecimento e obsessão para tentar fazer sempre melhor. O Palmeiras tem os dois melhores laterais direitos do país, e Abel arrumou lugar para os dois, que continuaram a jogar bem, um na zaga (Marcos Rocha) e outro de ala (Mayke).

Entre milhares de razões e explicações dadas para entender a derrocada do Botafogo, prefiro a mais simples, mais racional, que evidentemente não explica tudo, de que o elenco não era bom para ficar entre os primeiros.

Apenas Grêmio e Inter se desviaram da lógica. O Grêmio não tinha no início time para ser vice-campeão, mas surgiu Suárez, além do crescimento de vários jovens. Renato Gaúcho, com seu estilo ofensivo e de muita troca de passes, foi importante para essa evolução. O Inter poderia ter ficado entre os primeiros pela qualidade dos jogadores, porém investiu tudo na Libertadores e foi eliminado. Não ficou com uma coisa nem com a outra.

O mantra mais falado no Brasileirão foi o “eu acredito”, dito por muitas torcidas, para influenciar a equipe e os jogadores. Prefiro o “eu não acredito”.

Eu não acredito em um futebol com o calendário tão ruim, com várias competições ao mesmo tempo, que estimula os técnicos a poupar jogadores, prejudicando o time, a qualidade do jogo e os interesses de outras equipes no resultado.

Eu não acredito em campeonato com tantos gramados ruins e alguns com gramas sintéticas, que alteram a característica do jogo e facilitam contusões, como reclamaram Abel Ferreira e Fernando Diniz. Na Europa não há gramados artificiais. Eles investem na grama natural e na qualidade dos jardineiros, famosos na Inglaterra pela competência.

Eu não acredito no futebol em que os árbitros transferem responsabilidades de suas decisões para o VAR, que, no Brasil, demora para decidir e é muitas vezes confuso. É preciso reescrever as leis de marcação de pênaltis decorrentes de bolas no braço.

Apesar de saber que há várias maneiras de jogar bem e/ou de vencer, não acredito em times que exageram nas bolas longas, nas jogadas aéreas, que deixam muitos espaços entre setores, que não pressionam o adversário para recuperar a bola, que não priorizam o controle da bola no meio-campo e que utilizam maneiras ultrapassadas de jogar, como a de exagerar nos chutões pelos zagueiros e goleiros.

Eu não acredito em países como o Brasil, que há décadas não forma um cracaço meio-campista, do nível dos melhores do mundo, que se destaca de uma intermediaria à outra.

Não gosto de achar uma única causa para explicar os fatos, mas o Manchester City não ganhou os últimos quatro jogos, o que é raríssimo, com a ausência do craque meio-campista Rodri, eleito melhor jogador da última Liga dos Campeões. Pela primeira vez, o City, sob o comando de Guardiola, ficou acuado, sem o domínio da bola, na derrota para o Aston Villa por 1 a 0, pelo Campeonato Inglês.

Eu não acredito em países com tanta violência urbana, cada vez maior, que deixa os cidadãos em pânico. Eu não acredito em países que, há décadas, não tentam resolver para valer os gravíssimos problemas da educação e da falta de saneamento básico. Eu não acredito nas trocas promíscuas de favores que sempre ocorreram no futebol e na política brasileira.


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Folha de São Paulo

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