Saúde

Mapeamento ajuda a localizar crianças sem nenhuma vacina – 23/10/2026 – Equilíbrio e Saúde

Em todo o mundo, cerca de 13,5 milhões de crianças nunca receberam sequer uma vacina. Elas são conhecidas como crianças de dose zero.

Alcançá-las é um dos objetivos centrais da Agenda de Imunização 2030, uma iniciativa global para garantir que todas as pessoas tenham acesso às vacinas de que precisam. A Gavi, a Aliança para Vacinas, estruturou sua estratégia em torno da identificação e do atendimento dessas crianças.

Para alcançar as crianças de dose zero, é preciso começar sabendo onde elas estão: colocando-as no mapa. A geografia oferece um ponto de partida: sua primeira lei afirma que objetos próximos entre si são mais semelhantes do que aqueles mais distantes.

Esse princípio fundamenta a saúde geoespacial, o estudo de como o local onde as pessoas vivem influencia sua saúde. Se sabemos algo sobre um lugar, muitas vezes podemos inferir o mesmo sobre as áreas vizinhas. Isso inclui estimar quantas crianças não vacinadas vivem em regiões não alcançadas por pesquisas.

Fazemos parte da equipe Reach-out, um projeto que busca desenvolver estratégias de baixo custo para levar vacinas às crianças de dose zero. Nossas áreas de especialização incluem epidemiologia espacial, economia da saúde e ciência da implementação.

Em um estudo recente, avaliamos como dados e métodos geoespaciais estão sendo usados para encontrar crianças de dose zero e quais lacunas ainda existem.

Analisamos 102 estudos realizados em 68 países de renda baixa e média-baixa, onde, segundo estimativas de cobertura vacinal da OMS (Organização Mundial da Saúde) e do Unicef, vivem mais de 80% das crianças de dose zero do mundo.

Nossos resultados mostram que abordagens geoespaciais estão sendo aplicadas à modelagem da cobertura vacinal infantil. No entanto, poucos estudos se concentram especificamente nas crianças de dose zero.

Para alcançá-las, são necessários dados mais completos e integrados, além de ferramentas nas mãos de quem está mais próximo dessas crianças.

Um país pode apresentar uma cobertura vacinal geral elevada e, ainda assim, ocultar pequenos bolsões de crianças de dose zero.

Por exemplo, segundo as Pesquisas Demográficas e de Saúde do Quênia (2022), apenas 2,1% das crianças de 12 a 23 meses em todo o país eram de dose zero. Mas a situação muda no âmbito dos condados. Dois deles, Mandera e Garissa, registraram prevalência de dose zero superior a 36%.

O mapeamento de alta resolução é uma forma de encontrar crianças de dose zero que continuam expostas a doenças evitáveis. Mas, primeiro, é preciso definir exatamente quem é considerado de dose zero.

Há duas definições. A primeira é a da Gavi, que define como de dose zero a criança que não recebeu uma única aplicação de vacina. Essa definição é muito rigorosa e, muitas vezes, difícil de aplicar por falta de dados adequados.

As pesquisas são realizadas a cada três a cinco anos, enquanto os dados de rotina das unidades de saúde não vinculam os registros a cada criança, o que dificulta o acompanhamento daquelas que precisam ser atendidas.

Na segunda definição, são consideradas de dose zero as crianças que não receberam a primeira dose da vacina DTP1, que protege contra difteria, tétano e coqueluche, até o primeiro aniversário.

A DTP1 é recomendada às seis semanas de vida, marcando o primeiro contato da criança com o sistema de vacinação de rotina. Ela também é amplamente administrada e seus dados são informados regularmente pelos sistemas nacionais de imunização, o que permite comparar a dimensão do problema entre os países.

A diferença entre as populações abrangidas pelas duas definições é grande: em âmbito global, a primeira medida identifica quase o dobro de crianças em relação à segunda. Portanto, a dimensão do problema das crianças de dose zero em um país —e a estratégia adotada para enfrentá-lo— varia conforme a medida utilizada.

As crianças de dose zero costumam ser as mais difíceis de alcançar. Elas se concentram em contextos marginalizados —áreas rurais remotas, zonas de conflito, assentamentos urbanos informais e famílias itinerantes ou migrantes—, sobretudo em países de renda baixa e média-baixa.

Encontrá-las exige mais do que saber quais distritos têm baixa cobertura; é preciso localizar os assentamentos e domicílios onde vivem.

A modelagem geoespacial da cobertura vacinal infantil avança rapidamente. A maioria dos estudos que analisamos foi publicada após 2022. Ainda assim, a base de evidências continua limitada.

Apenas um em cada cinco estudos examinou especificamente as crianças de dose zero; a maioria analisou a cobertura da vacinação de rotina de forma mais ampla.

As evidências também apresentam um forte desequilíbrio geográfico, pois a maior parte dos estudos veio de apenas três países: Nigéria, Etiópia e Índia.

Alguns países, inclusive aqueles com grande número de crianças de dose zero, como Sudão e Iêmen, quase não foram representados. Isso reflete desigualdades mais amplas na capacidade de pesquisa em saúde global e na definição de prioridades.

O modelo só é tão bom quanto os dados

Uma de nossas constatações mais claras foi a enorme dependência de dados provenientes de pesquisas domiciliares. Dados de vacinação de rotina das unidades de saúde, coletados continuamente por meio de sistemas como o DHIS2 —plataforma digital amplamente utilizada para coletar, gerenciar e analisar dados rotineiros dos serviços de saúde—, raramente foram empregados.

As pesquisas são valiosas, mas têm limitações. Realizadas a cada três a cinco anos, elas oferecem apenas um retrato de determinado momento. São concebidas para produzir estimativas nacionais ou regionais, e não para localizar com precisão bolsões de crianças não vacinadas.

Os dados de rotina, coletados continuamente nas unidades de saúde, oferecem mais detalhes locais, mas podem ser prejudicados por registros incompletos e estimativas pouco confiáveis sobre quantas crianças estão aptas a receber a vacinação.

Os estudos analisados muitas vezes não conseguiram representar justamente as crianças com maior probabilidade de ficar sem vacinação. Poucos incluíram comunidades afetadas por conflitos, grupos nômades, refugiados, migrantes transfronteiriços ou moradores de favelas urbanas.

Essas populações têm maior probabilidade de viver longe de unidades de saúde, mudar-se com frequência ou depender de serviços que podem ser facilmente interrompidos.

Um modelo que não inclua dados sobre isolamento geográfico ou conflitos não consegue estimar quantas crianças são afetadas por essas condições. Assim, as crianças que mais precisamos encontrar tornam-se justamente aquelas que os dados menos conseguem enxergar.

Os métodos são tão importantes quanto os dados. Mais da metade dos estudos recorreu a métodos mais simples, como análise de agrupamentos e de áreas críticas. Esses métodos mostram onde crianças de dose zero foram contabilizadas, mas não quantas vivem em locais não alcançados pelas pesquisas.

Apenas alguns estudos utilizaram métodos geoestatísticos que integram diferentes tipos de informação para prever onde provavelmente existem lacunas na cobertura vacinal.

Quais são os próximos passos?

Três medidas fariam a maior diferença. Primeiro, combinar os pontos fortes dos dados de pesquisas e dos dados de rotina. Cada fonte revela apenas parte do cenário. Juntas, elas podem mostrar onde as crianças não estão sendo alcançadas.

Mas ambas precisam ser fortalecidas. As pesquisas enfrentam fragilidade financeira e atualmente são mantidas por um subsídio emergencial, depois que seu financiamento entrou em colapso em meio à crise mais ampla no financiamento da saúde global.

Os dados de rotina precisam ser reformulados para acompanhar cada criança, em vez de apenas contabilizar totais mensais, e combinados com estimativas melhores sobre quantas crianças cada unidade deveria atender.

Segundo, fornecer aos modelos as informações que ainda lhes faltam. Alcançar crianças em zonas de conflito, assentamentos informais ou em deslocamento exige incorporar aos modelos informações sobre conflitos, deslocamentos populacionais e isolamento geográfico.

Parte desses dados já existe em bancos de dados sobre ocorrências de conflitos, sistemas de monitoramento de deslocamentos e mapas de assentamentos produzidos por satélite.

Terceiro, desenvolver a capacidade de produzir e utilizar esses mapas onde o problema é mais grave. Os mapas mais importantes serão elaborados por pessoas dos países mais afetados: pesquisadores, profissionais de saúde e lideranças comunitárias.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.

Informação

Folha de São Paulo

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo