Política

Marçal vende messianismo, bolsonarismo e o seu aerotrem

A sabatina Folha/UOL com o influenciador Pablo Marçal ofereceu ao eleitor paulistano uma mistura peculiar de voluntarismo messiânico, bolsonarismo e teleféricos —sua pegada 2024 para o antigo aerotrem do falecido fundador do seu PRTB, Levy Fidelix.

Começando pelo fim: entrava e saía eleição e lá estava Fidelix (1951-2021) prometendo o tal do trem suspenso como solução para as mazelas urbanas do país. Com desassombro, Marçal falou o mesmo de teleféricos, do turismo para favelas fracassado ao estilo Complexo do Alemão (RJ) a forma de desafogar rodovias.

Foi o mais próximo que ele chegou de uma proposta na conversa. Nela, alheio a políticas públicas, ele mostrou-se disposto a fazer de São Paulo um laboratório de seus programas motivacionais, adotando conceitos não muito claros sobre prosperidade a partir da espiritualidade, “destravar a escassez” e quetais.

Para Marçal, é preciso “mudar a cabeça do povo”. Não todo mundo: ele considera que 3,5 milhões de paulistanos estão perdidos porque, subnutridos, não têm correto “desenvolvimento cerebral”. Afirmou que esses têm de ser objeto de assistencialismo, assim como os supostos africanos, americanos e gaúchos a quem ele diz ter ajudado.

Há público para a retórica, como os 11,5 milhões de seguidores de Marçal no Instagram e a fortuna declarada por ele de R$ 96 milhões provam. Com efeito, ele é hoje o principal elemento exógeno da disputa em São Paulo, embolado no terceiro posto, segundo o Datafolha.

Entrevistado por três mulheres, não se constrangeu em manter e dobrar ao ataque machista a Tabata, além de destilar cortes típicos do “mansplaining” (“Presta atenção!”, “Você está inventando isso!”). Não por acaso, tem metade da intenção de voto entre elas (7%) do que entre eles (14%).

Marçal diz que sua prioridade é barrar o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL), empatado com Ricardo Nunes (MDB) na liderança da corrida, mas é do eleitorado do atual prefeito que ele pretende ganhar likes, ou melhor, votos.

O faz buscando se mostrar um filho do bolsonarismo, mesmo que sem Jair Bolsonaro (PL), lembrado por ele como padrinho impopular. Em um mês na praça, viu subir de 14% para 22% os eleitores do ex-presidente que o apoiam —ainda longe dos 42% do grupo que vão de Nunes.

Como Bolsonaro em 2018, mira o “sistema”. A mídia mente, logo ele quer comprar sites para divulgar sua verdade. Critica a política tradicional, focando em Valdemar Costa Neto, o chefão do PL que bombardeia sua candidatura para evitar danos ao atual prefeito, a quem apoia.

Diferentemente de Bolsonaro, que só abraçou de vez a velha política em 2021 para evitar perder o cargo, Marçal já tem um centrão para chamar de seu: diz que está tudo certo para a União Brasil o apoiar. Resta, claro, saber se o dono da sigla na cidade, Milton Leite, fala sério quando ameaça largar Nunes.

Ao falar do caso, o autodenominado ex-coach resvalou a realidade. Disse que a União quer “a sua alma” e que é preciso crescer nas pesquisas: “Preciso baixar o preço” cobrado pela sigla.

Folha de São Paulo

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