Saúde

Menopausa aparece em só 12% dos prontuários, diz estudo – 04/10/2026 – Equilíbrio e Saúde

Toda pessoa que tenha ovários e viva tempo suficiente passará pela menopausa. Embora seja uma transição natural da meia-idade, a menopausa pode afetar profundamente a qualidade de vida e os riscos atuais e futuros de doenças cardíacas, osteoporose e outros problemas. Portanto, seria de esperar que o fato de alguém estar passando ou já ter passado pela menopausa constasse em seu prontuário médico.

No entanto, quando nós e nossos colegas analisamos os prontuários eletrônicos de quase 240 mil mulheres, apenas 12% mencionavam a menopausa, embora mais da metade delas tivesse informado separadamente que estava passando por essa transição. Nossas descobertas, publicadas na revista Menopause, revelam uma grande lacuna na forma como profissionais de saúde registram informações básicas sobre a saúde da mulher.

As mulheres na menopausa que analisamos fazem parte de um grupo mais amplo de 400 mil participantes do All of Us Research Program, um estudo nacional conduzido pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos para reunir uma ampla variedade de dados de saúde de pelo menos 1 milhão de americanos. Investigamos como as informações sobre a menopausa eram incluídas nos prontuários eletrônicos e como esses registros variavam de acordo com características demográficas como idade, escolaridade, raça e renda.

Como as participantes preencheram questionários de saúde ao ingressar no estudo, pudemos identificar discrepâncias entre seus próprios relatos sobre a menopausa e o que constava em seus prontuários. A idade em que a menopausa ocorreu e sintomas como ondas de calor ou distúrbios do sono também estavam, em grande parte, ausentes tanto dos prontuários quanto do questionário.

Elos ausentes

Muitos aspectos da menopausa e a diversidade das experiências das mulheres com essa fase ainda são pouco compreendidos.

Por exemplo, tantoo momento em que a menopausa começa quanto a intensidade de seus sintomas pode variar muito. Algumas mulheres têm ondas de calor intensas, alterações no sono e névoa mental, enquanto outras não. Uma mulher pode entrar naturalmente na menopausa aos 45 anos, e outra, aos 54. Ambas as idades seriam consideradas normais, mas o momento em que isso ocorre pode afetar a saúde atual e futura de maneiras distintas.

A menopausa é uma transição natural da meia-idade, mas pode afetar profundamente os riscos atuais e futuros à saúde.

Os prontuários eletrônicos oferecem uma oportunidade inigualável para investigar essas lacunas de conhecimento, permitindo que pesquisadores estudem a experiência de centenas de milhares ou até milhões de pessoas com base em dados coletados rotineiramente.

Estudos em tão grande escala podem esclarecer como os sintomas da menopausa mudam ao longo do tempo e quem tem maior probabilidade de apresentá-los; como indicadores de doenças cardíacas, saúde óssea ou saúde mental evoluem em relação à menopausa; como determinantes sociais da saúde, como etnia e acesso à assistência médica, afetam a experiência de uma pessoa com a menopausa; além de inúmeras outras questões ainda sem resposta.

Fechando a lacuna de dados

Nosso estudo não é o primeiro a apontar a inconsistência com que a condição menopausal e seus sintomas são registrados nos serviços de saúde e nos prontuários eletrônicos. Mas ele evidencia de forma sistemática a dimensão dessa lacuna, mostrando que, muitas vezes, a menopausa sequer é registrada.

Não está claro por que a menopausa é tão raramente documentada nos prontuários eletrônicos. Isso pode ocorrer porque ela não é uma doença e, portanto, em geral, não passa pela cabeça dos profissionais registrá-la como um código de diagnóstico. Diagnosticá-la ou avaliá-la pode parecer óbvio ou irrelevante.

Também é possível que as próprias pacientes muitas vezes não mencionem o assunto, a menos que os sintomas sejam intensos. Profissionais de saúde perguntam rotineiramente a pacientes de meia-idade sobre sua saúde reprodutiva —por exemplo, quando ocorreu a última menstruação—, mas essas informações raramente acabam sendo documentadas no prontuário eletrônico.

Em nossa avaliação, deixar de registrar essas informações representa uma enorme oportunidade perdida de impulsionar pesquisas essenciais e aprimorar a assistência médica personalizada. Nossa equipe está desenvolvendo um questionário curto e simples sobre a condição menopausal e seus sintomas, para que as pacientes o preencham ao fazer o check-in para consultas médicas.

As respostas poderiam então ser adicionadas aos prontuários para uso tanto pela equipe de saúde quanto por pesquisadores. Também estamos desenvolvendo uma abordagem computacional para inferir informações relacionadas à menopausa a partir de outros dados presentes no prontuário ou no perfil genético da mulher.

Por fim, estamos explorando o conjunto de dados do All of Us para identificar diferenças sistemáticas —por exemplo, relacionadas à origem cultural ou à faixa de renda das pacientes, às práticas específicas dos sistemas de saúde e aos contextos urbanos ou rurais— que possam estar associadas ao registro ou não de dados sobre a menopausa nos prontuários. Essas associações podem indicar maneiras específicas de incentivar sua coleta.

É impossível pesquisar e tratar aquilo que não é medido. Registrar a transição para a menopausa é uma etapa essencial para melhorar a assistência à saúde das mulheres na meia-idade.

Esse texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler o original.

Informação

Folha de São Paulo

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