Economia

Mentalidade fixa no passado dificulta transição para uma economia de baixo carbono

Na virada do ano, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) anunciou medidas para reintroduzir a tributação sobre veículos elétricos e placas fotovoltaicas importados. Apesar de décadas de protecionismo não terem evitado a decadência da indústria, mais uma vez apostam no isolamento comercial. A dificuldade de políticos se adaptarem e buscarem novas soluções têm impacto no desenvolvimento.

Diferentes visões de mundo parecem impactar as atitudes, crenças e ações frente às mudanças climáticas.

Os pesquisadores Lorenzo Duchia, Doug Lombardi, Fred Paas e Sofie Loyens resolveram testar essa hipótese por meio de questionários e exposição dos participantes a textos sobre mudança climática. Os resultados revelam que uma mentalidade de crescimento, caracterizada pela visão do mundo como uma entidade mutável e aprimorável, está associada a uma maior aceitação das mudanças climáticas, crença na sua mitigação e propensão a comportamentos pró-ambientais.

Similarmente, quem apresentava mentalidade fixa, ou seja, pessoas que tendem a evitar desafios, desistir facilmente diante de obstáculos, ignorar críticas e feedbacks eram menos sensíveis aos textos sobre questões climáticas e se engajaram menos em atitudes verdes. Na prática, uma visão pré-existente sobre o mundo contribui ou atrapalha na busca e na adesão de novas soluções.

Quando se trata de política industrial, o Brasil sofre um caso grave de mentalidade fixa. Ao passo que assumimos compromissos em prol de uma transição para uma economia de baixo carbono, os incentivos para a indústria automobilística continuam firmes com 3 bilhões em benefícios e os impostos sobre importação de placas solares aumentam.

Se o protecionismo gerasse desenvolvimento e inovação tecnológica, os setores mais protegidos da economia brasileira deveriam ser os que mais crescem em produtividade. Mas, ao contrário, o protecionismo pode comprometer a inovação e a transição para o desenvolvimento de baixo carbono ao desincentivar o acesso a equipamentos de última geração que o Brasil não produz. Esse tipo de medida favorece um restrito grupo de empresas nacionais que já têm sido beneficiadas por programas anteriores sem grandes entregas. Quem paga a conta são as demais empresas e os consumidores.

Na verdade, mercados bem estabelecidos são aliados do desenvolvimento verde. Precisamos de uma mentalidade política que consiga olhar para o passado, ver o que deu errado e seguir em frente com soluções promissoras. Nesse sentido, o esforço do governo deveria ser pela aprovação da regulamentação do Mercado de Carbono a fim de criar incentivos monetários para tecnologias que reduzem emissões ou que consigam capturar o carbono na atmosfera.

Outra medida possível é considerar as externalidades ambientais da geração de energia elétrica; fatores que devem ser refletidos nos preços. Essa medida abrange também a geração distribuída, possibilitando a expansão dinâmica do sistema por meio de fontes renováveis. Essas propostas, além de se alinharem com a necessidade de fomentar práticas econômicas mais sustentáveis, não perpetuam os privilégios a montadoras e o protecionismo ao qual o país tem se submetido.

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Folha de São Paulo

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