Saúde

Meu surto trouxe à cabeça frases e músicas, em uma espécie de meditação

Por volta de 2016, eu morava num apartamento dos sonhos. Ficava numa rua calma e o prédio era desses bem pequenos, cujos vizinhos a gente conhece sem fazer muito esforço. Além da quantidade de pelos caninos, da decoração também fazia parte uma exposição de frases de autoajuda. As paredes estavam todas cobertas com as mais clichês. Eu gosto muito dessas frases, ainda que algumas tenham virado banais de tanto serem repetidas na internet.

As frases são todas geniais para levantar o astral. E, naquele momento, faziam um grande sentido para mim. Tinham ido parar lá das mais variadas maneiras —compradas em lojas de decoração, em feirinha hippie ou capturadas na própria internet, nesses sites rápidos e milagrosos em que achamos de tudo. Elas funcionavam como post-its diários. Era legal ver aqueles lembretes espalhados pela cozinha, no quarto, banheiro, sala, um montão. Um exageeeeeeeeeero, diziam os amigos mais sinceros. Mas faziam sentido para mim, principalmente porque pareciam bagunçar tudo. Talvez já fosse um sintoma do meu estado geral de saúde.

Me lembro aqui de duas: “É proibido pisar nos sonhos” e “Me ame quando eu menos merecer porque é quando eu mais preciso”. Ficava hoooooooooras olhando para a última em especial, porque era a que estava mais no alto, próxima ao teto, bem longe da vista das raras pessoas que ainda frequentavam a minha casa. O meu alcoolismo foi afastando todos e a sujeira e a solidão tomaram conta das frases e da minha vida.

Mas tinha uma que nunca foi exposta, porém ficou empilhada na minha memória: “Chore um rio inteiro, construa uma ponte, atravesse”.

Hoje acho graça (modo de dizer, né) na frase, depois do meu surto que durou algumas semanas. Estou chorando muito e aos poucos tentando construir a ponte. Mas tenho certeza que vou conseguir e vou atravessar. Talvez estimulada por vocês, que me escrevem elogiando a coragem e a força que dizem que tenho.

Atravessar uma ponte com as lágrimas que eu mesma derrubei, tantas as dores íntimas e profundas… Acho que posso dizer que é o que venho fazendo desde que entendi um pouco as minhas dificuldades mentais. E isso não é de hoje. É uma coisa que começou lá na infância e vem me acompanhando.

Ao longo do surto, as frases que decorei vieram junto com músicas que nunca deixei de ter em mente, numa espécie de meditação. Aos poucos fui entendendo que a melodia, uma das primeiras manifestações com as quais temos contato no mundo, me ajuda (meus amigos com bebês vivem ninando a cria). Nesse meu último surto, eu cantava (bem baixinho) músicas de que gosto. E me aliviava bastante.

Nesse tempo distante de mim e de vocês, eu sabia que precisava relaxar. Antes de mais nada, aceito. Eu me entrego? Confio? Não sei. Mas aceito. Que sou antes de mais nada uma mulher e não uma menina. Uma alcoólatra e não apenas uma pessoa com transtorno mental.

Talvez desconfie e não confie tanto. Ouvir música me faz muito bem. É uma espécie de meditação. Impressionante como aos poucos vou me dando conta da potência da música. Já me disseram muitas vezes que a meditação, aquela tradicional, seria fundamental para mim, mas ainda não consigo. Pelo menos não da maneira clássica.

Eu medito ouvindo música, por exemplo, e acho que está valendo. Gosto de ouvir música popular brasileira, e a canção que me acompanhou nos momentos mais difíceis foi “Debaixo D’água”, sobretudo por causa da voz de Arnaldo Antunes.

Adoro ele, gosto da voz dele. Ficar ouvindo e pensando mentalmente na letra e na melodia funcionou para mim como uma meditação. “Mas tinha que respirar tooooooodo dia, todo dia, todo dia.” Nos piores momentos da minha ausência, quando estava muito difícil, eu recorria a essa canção pra lembrar que era preciso ver a beleza da vida, por mais difícil que estivesse a situação, assim como é importante saber que no fundo do mar tudo é lindo, mas um ser humano precisa de ferramentas para respirar com calma.

É um exercício. Escuto a música enquanto termino o texto. Lembrando da casinha linda que eu tinha em 2016 e ao mesmo tempo respirando o ar que tenho nessa nova paisagem de 2024. Ah, os amigos, amigos mesmo, nunca saíram. Permanecem como a continuidade de um rio.


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Informação

Folha de São Paulo

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