Saúde

Meus fetiches estranhos incluem papelarias, farmácias e amor para vida toda

Renatinha me escreve querendo saber se tenho fetiches estranhos.

Poxa, Renatinha, acho que vou te decepcionar. Meu grande fetiche é fazer compras em farmácias e papelarias ou conseguir dormir sem acordar angustiada às quatro da manhã.

Mas se deseja saber algo mais picante, meu grande lance é encontrar um amor para toda a vida, algo muito mais raro do que malucos dependurados em lustres a fim de urinar lantejoulas que desenhariam esfinges em meu plexo solar.

Fernanda, sem saber da pergunta de Renatinha, quer saber o que me dá mais tesão: não sair de casa, ler um livro deitada com os pés no colo de alguém que também está lendo um livro e não quer sair de casa.

E beijar pessoas que te façam sentir amalgamada com o cosmos (também mais raro que alguém dependurado no lustre). Não suporto línguas abobadas que lembram bonecos de postos de gasolina (e que quando encaixam são estranhamente duras e parecem procurar uma obturação e não a sua felicidade).

Cris me pergunta se eu preferia ser uma barata ou ter que comer uma barata. Quando eu estava no penúltimo ano da faculdade, fui a uma festa a fantasia e conheci um rapazote de nome Vinícius. Ele estava vestido de barata e sua namorada estava vestida de repelente. Achei os dois criativos, legais, bonitos, e alguns dias depois comecei a ter um caso com o moço, mesmo sabendo que ele era comprometido. Agi como um inseto nojento (e ele idem), mas eu tinha 19 anos e ainda não existia tanta hashtag sororidade na minha vida. Juntos fomos ao esgoto da moral e tudo valeu a pena porque ele me apresentou as obras do Nelson Rodrigues (tão genial quanto Clarice Lispector e Kafka).

Ana quer saber quando devo ir ao Rio de Janeiro. Olha, eu estive aí em dezembro e faltou ar-condicionado no aeroporto do Galeão. Lá dentro estava a sensação térmica de 200 graus. Vi que ia desmaiar (sou vasovagal), então arranquei os sapatos e toda a roupa, ficando de sutiã e hot pants na fila do embarque. Pergunta quantas pessoas acharam isso estranho no Rio de Janeiro? Nenhuma.

Comprei uma garrafinha de água mineral e joguei metade dela na minha cabeça. Segui na fila do embarque, agora ensopada e usando trajes íntimos e ninguém veio me perguntar se eu estava bem. Então eu apenas desmaiei e, por fim, me ofereceram ajuda, que consistia em esperar 40 minutos por uma cadeira de rodas. Nessa hora, em que eu estava pelada, molhada, semi-desmaiada e numa cadeira de rodas, uma carioca me olhou e falou: “Eu amo seu podcast, podemos fazer uma foto?”

Então é isso, eu sou esquisitíssima, mas não a ponto de não achar o carioca ainda mais estranho (contudo, minha nova mania é ver fotos de um surfista com três hernias de disco, seus olhos são tão imperturbáveis quanto tristes).

Mariana quer saber se pessoas privilegiadas podem sofrer. Fora do Twitter (me recuso a chamar de X) não só podem como devem. Mas lá dentro é sempre importante só ter gratidão, pedir desculpas e elogiar os outros.


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Informação

Folha de São Paulo

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