‘Minha irmã não quer viajar comigo por causa dos meus filhos; ela está sendo egoísta?’

Uma leitora do The New York Times envia um relato à terapeuta Lori Gottlieb: Nos últimos cinco anos, minha família passou por muitas mudanças. Meu pai morreu, eu me casei e tive dois filhos, e minha irmã se casou e se mudou para um estado distante. Passei de vê-la a cada duas semanas para apenas uma ou duas vezes por ano.
Estávamos planejando uma viagem em família com ela e o marido dela. Quando entrei em contato para acertar os detalhes, ela disse que não quer mais ir, porque a ideia de passar uma semana com meus filhos parece exaustiva. Ela sempre teve dificuldade em situações sociais e gosta de tempo sozinha, então fiquei surpresa, mas não chocada. O que me chocou foi a clareza dela ao dizer que o motivo eram meus filhos.
Ela insiste que ama as crianças e que essa decisão é sobre ela, não sobre elas. Mesmo assim, isso dói. Parece uma rejeição aos meus filhos. E embora eu não tenha dito isso a ela, sinto que ela está sendo egoísta. Eu gostaria que ela visse essa viagem como um investimento divertido na relação com eles, mas ela enxerga como uma obrigação desagradável.
A viagem está descartada. Como sigo em frente com minha irmã? Eu a amo, mas não me sinto bem com a forma como ela vê meus filhos, nem com esses sentimentos negativos que tenho em relação a ela.
Resposta da terapeuta: Fico feliz que você tenha começado sua carta contando as muitas mudanças recentes na sua família —uma morte, dois casamentos, dois nascimentos e uma mudança para longe—, porque esses eventos podem explicar o que você está sentindo.
Depois que um dos pais morre, irmãos costumam se tornar a principal ligação um do outro com a família de origem, as testemunhas de uma infância compartilhada. A perda aumenta o peso emocional dos laços familiares que restam, e a distância —geográfica ou emocional— pode parecer uma segunda perda.
De certa forma, essa viagem talvez representasse uma tentativa de recuperar a coesão familiar nessa nova configuração. Por isso, quando sua irmã recusou, isso tocou no seu luto. Não era apenas uma viagem. Era uma forma de se assegurar de que a proximidade entre vocês sobreviveria a todas essas mudanças.
A mudança de ver sua irmã a cada duas semanas para uma ou duas vezes por ano é significativa. Mas, embora ela tenha se afastado geograficamente, não parece que ela tenha se distanciado emocionalmente —mesmo que seja essa a impressão que você teve ao ouvir o que ela falou sobre viajar com crianças.
Note que eu disse “viajar com crianças”, e não “viajar com seus filhos”, porque o que ela transmitiu, ainda que de forma desajeitada, é sobre a relação dela com crianças em geral. Você pode estar confundindo as duas coisas porque, na nossa mitologia cultural, espera-se que crianças sejam universalmente encantadoras —especialmente para parentes.
Muitos pais recentes imaginam que os outros ficarão tão encantados com seus filhos quanto eles próprios. E, se esses adultos são próximos de seus irmãos, costumam criar fantasias sobre como esses irmãos serão como tios.
Mas conviver com crianças pequenas por longos períodos é exaustivo para muitos adultos. Inclusive para os próprios pais das crianças. Isso é especialmente verdadeiro para pessoas como sua irmã, que valorizam o tempo sozinhas, têm dificuldade social e não estão acostumadas à intensidade de duas crianças com menos de 5 anos.
Amor e temperamento são coisas diferentes. Você diz que ela é “egoísta”, mas ela está apenas comunicando o quanto de estímulo consegue lidar e o que significa “férias” para ela. Você pode estar tranquila com barulho, horários de sono, choro, interrupções constantes, atenção dividida e cuidados físicos. Já ela e o marido talvez queiram gastar o dinheiro e os poucos dias de folga visitando museus, fazendo refeições tranquilas ou descansando em silêncio numa praia.
É um sinal da relação de vocês que ela tenha se sentido confortável para ser honesta sobre seus limites. Ela poderia ter inventado uma desculpa como “não é a hora certa” ou “não temos dinheiro”. Agora você tem a oportunidade de pensar no que seria um “investimento divertido” na relação dela com seus filhos. Sem exigir uma imersão de 24 horas por dia.
Para sua irmã, isso pode significar ter curiosidade pela vida das crianças, comemorar conquistas e fazer chamadas de vídeo. Estar presente de formas que importem para elas e construir relações individuais com cada uma conforme crescem.
Enquanto isso, talvez vocês possam criar visitas em doses menores. Por exemplo, ficar em um hotel ao visitar a cidade uma da outra, em vez de dormir na casa uma da outra; equilibrar atividades planejadas com bastante tempo livre; ou reservar momentos só para os adultos.
Esse último ponto é importante. Às vezes, quando os irmãos têm filhos, a relação entre eles mesmos acaba ficando em segundo plano. Na verdade, a resposta da sua irmã pode ter tocado em questões não só sobre o amor dela pelos seus filhos, mas também sobre o amor dela por você.
Você pode sentir: se minha irmã me amasse como eu a amo, ela ia querer isso.
Ela pode sentir: se minha irmã me amasse como eu a amo, ela entenderia meus limites.
Essa narrativa não dita pode ser o centro do impasse entre vocês, mas não precisa continuar assim. A pergunta em que vale a pena focar é como vocês querem se amar nesse novo capítulo. Famílias evoluem, relações exigem ajustes.
Reconheça tanto o seu desejo quanto os limites dela. E deixe que essa experiência seja menos sobre a viagem que não aconteceu e mais sobre a conexão que vocês estão construindo depois de tudo isso —uma conexão escolhida, não obrigatória.
Informação
Folha de São Paulo



