Economia

Ministros de Lula envolvidos na disputa de poder na Petrobras devem explicações

O novo round da crise política e econômica em torno da Petrobras chegou num momento de elevação das incertezas para o combate da inflação e também para a agenda econômica de aumento da arrecadação do ministro Fernando Haddad (Fazenda).

Está se formando rapidamente uma conjunção terrível de fatores para o governo justamente no momento em que ele precisava garantir até maio resultados melhores para o presidente Lula ganhar de presente um espaço maior no Orçamento para investimentos de quase R$ 16 bilhões.

Esse espaço estava contratado no arcabouço fiscal, mas o presente não será entregue se a arrecadação não melhorar e se as renúncias tributárias não aumentarem.

A arrecadação de impostos em março apresentou resultados bem menos positivos. Não é um resultado ruim, mas muito abaixo do que o governo tinha previsto, ao contrário das surpresas positivas nas receitas nos dois primeiros meses do ano.

Para piorar, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, deu uma canetada e deixou caducar o trecho de uma medida provisória elaborada pelo Ministério da Fazenda que previa a reoneração da folha de pagamento das prefeituras. Foi um baque para o ministro Haddad.

A derrubada da medida pode levar a uma perda de R$ 10 bilhões em receitas. Caso não haja uma solução para o impasse, o governo vai judicializar no Supremo Tribunal Federal, o que é sempre motivo de desgaste na já desgastada relação entre os Poderes.

Uma enxurrada de liminares na Justiça contra a lei que alterou a chamada subvenção do ICMS e fechou brechas para grandes empresas pagarem menos tributos federais, descontando incentivos fiscais concedidos pelos Estados, também colocou em alerta o governo para o risco de redução da arrecadação prevista com a medida.

E, para complicar, a Abrasca, entidade que representa as companhias com capital aberto, está jogando pesado no Congresso contra outra medida de Haddad que restringe as compensações tributárias.

Do lado da inflação, as incertezas também aumentaram devido ao cenário muito mais desafiador nos Estados Unidos, com a possibilidade de postergação do corte de juros diante da forte geração de emprego no mercado norte-americano.

O mercado de trabalho aquecido e a atividade econômica maior podem tornar mais lento o processo de desinflação e acabar encurtando o período da queda e o tamanho do corte da taxa de juros.

O retrato dessas incertezas pode ser observado no último leilão do Tesouro Nacional. Os juros reais dos títulos NTN-B subiram um pouco mais e chegaram a quase 6,0%, sinal de grande desconforto do mercado não só com os problemas domésticos mas também com a concreta possibilidade de a política monetária nos Estados Unidos seguir apertada por mais tempo do que se imagina, o que dificulta a queda de juros por aqui.

A crise da Petrobras em torno do pagamento de dividendos, que é também política fomentada por interesses ainda muito obscuros, foi o ingrediente que faltava para fechar o tempo em Brasília.

Aqueles que afirmam que essa é uma crise fabricada têm razão. Não está claro quem é o mais beneficiado nessa arapuca que o governo colocou na Petrobras. Os ministros envolvidos na disputa de poder na companhia devem explicações. Lula precisa arbitrar essa disputa. Não basta trocar o presidente da empresa.

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Folha de São Paulo

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