Saúde

Mochila escolar pesada traz riscos para crianças, dizem especialistas

A volta às aulas reforça a necessidade de atentar para o peso que as crianças carregam nas mochilas. Com o corpo em desenvolvimento, elas apresentam risco maior de problemas relacionados ao excesso de peso nas costas, como dor crônica, cifose postural (corcunda) e desgaste precoce.

Para saber se a mochila do seu filho está pesada demais, perceba se há mudanças na curvatura do corpo, na coluna ou na forma de andar. Também pode haver modificação na frequência respiratória, assim como pressão nos pés, causando incômodo e dor, reclamação frequente nos consultórios, como conta o ortopedista Luiz Muller, especialista em coluna.

O excesso de peso na mochila é a principal causa de dor nas costas entre crianças e adolescentes atendidos por ele no Hospital Pequeno Príncipe, referência em atendimento infantil. Segundo o médico, cerca de 20% das crianças e 30% dos adolescentes têm dor nas costas, o que impacta na qualidade de vida e no desempenho escolar.

Para compensar o peso da mochila, o aluno acaba jogando o corpo para frente, facilitando a cifose postural. “Cronicamente, a má postura é difícil de resolver na fase adulta, pois vira uma postura fixa, como um hábito, ligada à dor nas costas e à sobrecarga articular”, diz Muller.

Ele destaca que o corpo em crescimento precisa se readaptar ao novo tamanho constantemente e, assim, exige maior esforço. Por isso, o excesso de peso impacta mais nas crianças que nos adultos, que possuem maior capacidade muscular e esquelética de absorção de carga.

Além da coluna, o excesso de peso prejudica ombros, cervical, quadril, lombar, joelho e tornozelo, já que a sobrecarga atinge todo o esqueleto.

Peso ideal da mochila

De acordo com a Sociedade Brasileira de Ortopedia, a mochila não pode pesar mais do que um quilo quando vazia. Cheia, o peso não pode ultrapassar 10% do peso da criança ou do adolescente.

No entanto, é preciso considerar alguns aspectos, como sobrepeso. “Uma criança obesa, por exemplo, não pode carregar 10% do seu peso, que já está acima do ideal”, alerta Muller.

Também avalie quanto tempo seu filho precisará carregar o acessório e qual a distância do trajeto. Andar com a mochila do portão até a sala de aula tem menos impacto do que carregá-la durante um longo trajeto a pé ou de ônibus até a escola. Quanto maior o tempo carregando a mochila, menor deve ser seu peso, que também dependerá da idade, da altura e do sexo da criança.

“Falando de sistema locomotor, em geral, a menina é menor do que o menino, assim como seu tórax. Por isso é difícil definir um peso só para todas as crianças”, pontua Fernando Baldy dos Reis, presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT).

Sinais de que está muito pesada

Entre os sinais de que seu filho tem a mochila pesada demais está a dificuldade ou alteração na forma de andar e se abaixar quando a utiliza, ou quando vai colocá-la. Carregá-la apenas de um lado ou muito abaixo da cintura também deve acender o alerta.

O principal sinal será a manifestação de dor. “Ela desenvolve um quadro álgico, chamado de lombalgia ou dorsalgia, que ao persistir pode levar ao desenvolvimento de uma posição antálgica para se proteger da dor, que o leva a ficar torto para um lado ou para frente”, explica Baldy.

Soluções para uma mochila ideal

Além de reduzir o peso, é preciso ajustar bem a mochila nas costas. O ideal é que elas sejam carregadas nos dois ombros, estejam coladas ao corpo e ajustadas até a linha da cintura, orienta Baldy.

A forma de distribuir o material também conta. Deixe os mais pesados na parte de trás da mochila, em contato com o corpo, e envie para escola apenas o necessário para o dia.

São indicados cadernos que não sejam de capa dura (pois são mais pesados) e que sejam finos, um por matéria. Outra opção para não carregar tanto peso é o uso de armários —nas escolas que oferecem esta opção.

As cintas também devem ser utilizadas e ajustadas ao corpo, distribuindo o peso entre a coluna e a pelve. Alças mais largas distribuem melhor o peso, poupando os ombros, além de serem mais confortáveis.

Após descartar outras possíveis causas da dor nas costas, o ortopedista inicia o tratamento com orientação aos pais, para adequação e redução do peso, o que pode ser resolvido com uma mochila de rodinhas.

“Elas são confortáveis, úteis e fáceis de carregar”, como lembra Baldy, ressaltando que elas também precisam ser leves e ter o puxador adequado ao braço da criança, sempre na altura do quadril.

“Em casos mais agudos e graves, usamos medicação para dor, que tem efeito passageiro. Associado, recomendamos o fortalecimento muscular, com fisioterapia, ergonomia e exercícios físicos”, pontua Muller. “Hoje as crianças estão carregando mais peso e se movimentando menos, o que é preocupante.”

Informação

Folha de São Paulo

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