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Morte após FIV: cirurgia só foi feita após 26 horas – 12/06/2026 – Equilíbrio e Saúde

Em depoimento à Polícia Civil, médicos intensivistas que atenderam a juíza Mariana Francisco Ferreira, 34, na UTI (unidade de tratamento intensivo) do Hospital e Maternidade Mogi Mater, em Mogi das Cruzes (SP), disseram ter recomendado diversas vezes uma cirurgia de urgência ao médico responsável pelo procedimento de coleta de óvulos que levou à morte da mulher.

Mariana morreu no dia 6 de maio após complicações decorrentes do procedimento para fertilização in vitro (FIV). Segundo os depoimentos, ela sofreu duas paradas cardiorrespiratórias na madrugada, e uma intervenção cirúrgica só aconteceu 28 horas após a admissão da paciente no hospital. As informações foram primeiro divulgadas pelo G1 e confirmadas pela Folha.

O Hospital e Maternidade Mogi Mater, em nota à imprensa, declarou que o profissional Maurício Ligabô era o médico responsável pelo caso. Segundo o hospital, cabia a ele o acompanhamento do diagnóstico principal, a definição das estratégias terapêuticas relacionadas à sua especialidade, a indicação de procedimentos e a comunicação com a família.

O hospital também afirma que a equipe intensivista, que integra o corpo clínico do hospital, possui autonomia técnica para conduzir os cuidados intensivos, o suporte clínico e as medidas necessárias à segurança imediata da internada dentro da UTI. Segundo a nota, isso foi feito prontamente.

A polícia instaurou um inquérito para investigar Ligabô por homicídio culposo, quando não há intenção de matar.

Procurada, a defesa de Maurício Ligabô afirmou em nota que, conforme pareceres dos conselhos de medicina, quando o paciente dá entrada em UTI, o intensivista é o responsável técnico e o tomador de decisões das terapias e medicações ou cirurgias necessárias para o tratamento adequado.

“Na realidade, as médicas intensivistas, ao atribuírem a responsabilidade ao doutor Maurício tiveram o claro propósito de isentar o Hospital e a si próprias de eventual falha na tomada de decisões e procedimentos necessários para salvar a vida da paciente. Por outro lado, Maurício tomou todas as medidas que o caso requeria para prestar os devidos socorros à paciente”, diz a defesa.

Segundo o depoimento, a intensivista Dayse Guedes Fernandes assumiu o plantão às 19h de 4 de maio. Durante a noite, ela enviou mensagens a Ligabô Júnior com resultados de exames que apontavam queda de hemoglobina e piora da função renal. Em resposta, o médico teria dito que o quadro era de hiperestimulação ovariana —condição conhecida como efeito colateral do tratamento hormonal— e que, por isso, considerava a situação normal.

No dia seguinte, a intensivista Nadja Roberta Melo Cury assumiu o plantão. Ela encontrou Mariana em estado grave, com palidez, pressão baixa e exames indicando presença de sangue na cavidade uterina. Segundo o depoimento da médica, ela alertou o médico sobre a necessidade urgente de cirurgia, mas ele insistiu no diagnóstico de hiperestimulação.

A intervenção cirúrgica só ocorreu às 21h daquele dia, 28 horas após a admissão de Mariana no hospital.

Antes disso, o médico Luís Paulo da Silva, que substituiu Cury no plantão, auxiliou no procedimento que indicou sangue no abdômen da paciente e convenceu o médico responsável a realizar a cirurgia. Em relato à polícia, ele afirmou que os profissionais presentes alertaram Ligabô Júnior sobre a hipótese de hemorragia interna e a necessidade de intervenção cirúrgica imediata.

Silva relatou que, no momento da cirurgia, havia preocupação com o estado da paciente, que apresentava iminência de parada cardiorrespiratória. Logo após a cirurgia, Ligabô Júnior informou que houve a retirada do ovário e trompas esquerdos, e ooforoplastia no ovário—procedimento cirúrgico para remover lesões, cistos ou nódulos— e trompas direitos, e que havia muito sangue na cavidade abdominal, segundo relato.

O depoimento também diz que, ao voltar da cirurgia, a vítima chegou à UTI em estado grave, e que havia suspeita de pouco sangue em circulação no corpo da paciente. O médico intensivista afirmou que foram realizados procedimentos para normalizar o quadro, e, após a segunda parada cardiorrespiratória e a tentativa de reanimação por 40 minutos, foi constatado o óbito.

Os depoimentos foram dados nos dias 25 de maio, 1º e 8 de junho.

Nos autos, consta uma petição da defesa de Ligabô Júnior solicitando o adiamento do depoimento do médico até que o laudo de exame necroscópico seja juntado, alegando a necessidade de conhecer a causa exata da morte.

Entenda o caso

De acordo com informações do boletim de ocorrência, o procedimento foi realizado na manhã do dia 4 de maio, na clínica Invitro Reprodução Assistida. Segundo o relato de Marilza Francisco, mãe da vítima, ao chegar em casa naquela manhã, a juíza sentiu dor. De volta à clínica, foi constatada uma hemorragia vaginal, e Mariana foi submetida a uma sutura.

O médico que socorreu a vítima na clínica orientou encaminhamento para um hospital. A juíza foi, então, levada para uma maternidade em Mogi das Cruzes, onde ficou internada em UTI. Ela morreu na manhã do dia 6.

De acordo com a Secretaria Estadual da Segurança Pública de São Paulo, o caso está sendo investigado por meio de inquérito policial no 1º DP de Mogi das Cruzes. “A autoridade policial prossegue com as diligências visando o total esclarecimento dos fatos”, afirma.

Conduta médica

O embate entre o hospital e o médico acusado é explicado pela resolução 170 do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo). A norma estabelece que as medidas devem ser discutidas com o médico assistente e que este deve indicar procedimentos respeitando a opinião do intensivista.

A norma do Cremesp ainda determina que, na indisponibilidade do médico assistente, o diretor clínico do hospital deve definir um responsável.

O especialista Vinícius Garcia, médico intensivista que não está envolvido no caso, explica que, quando um paciente é admitido na UTI, a equipe intensivista e o médico assistente são corresponsáveis pelo cuidado daquele paciente.

“O que cabe ao médico intensivista é identificar a piora clínica, dar o suporte e se comunicar de forma clara com o médico assistente sobre a necessidade de uma intervenção cirúrgica.”

Ele complementa que, quando existem divergências entre condutas, o protocolo correto é acionar a diretoria clínica do hospital para mediar o conflito. Geralmente, diz, casos que culminam em óbito raramente partem de uma falha isolada, mas uma sucessão de falhas que podem incluir a falta de processos institucionais que deveriam proteger os pacientes.

Informação

Folha de São Paulo

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