Motta faz campanha paroquial e usa relação com Lula para ampliar poder na Paraíba

Um comício no dia 20 de agosto lota a praça Edivaldo Motta, em Patos (PB), batizada com esse nome em homenagem ao avô de Hugo Motta, que também foi deputado federal. O presidente da Câmara dos Deputados discursa sobre obras no município, como a construção do hospital de traumas, que evitará que os moradores do sertão precisem se deslocar até Campina Grande, uma viagem de três horas.
Motta usa um boné de Lula (PT), há banners e adesivos com a foto do presidente. O político “faz o L” e promete que junto com o presidente levará a transposição do rio São Francisco à região.
“Recebi hoje a ligação do presidente Lula com a autorização do Ibama, para que nunca mais falte água no sertão paraibano”, discursou. O quadro nem de longe lembra a relação conflituosa que o presidente da Câmara manteve com o governo do petista ao longo de 2025.
Motta fala das 200 ruas asfaltadas na cidade, do teatro (em construção há quase duas décadas), do custeio da saúde, das novas creches e da gestão do seu pai, Nabor Wanderley (Republicanos), que foi prefeito quatro vezes e hoje é candidato ao Senado. As propostas legislativas, que tanto espaço têm na agenda em Brasília, ficam de fora dos quase 20 minutos de discurso.
No dia seguinte, Motta recebe a reportagem da Folha na casa de sua avó, a ex-prefeita de Patos e atual deputada estadual Francisca.
“Não vou dizer que as outras coisas não interessam, mas isso [obras] é o que mais interessa à população, o que mais é cobrado da gente. O deputado federal, na nossa realidade aqui, ele sobrevive politicamente das entregas que faz, que melhoram a vida das pessoas”, afirma o político.
Ele diz que os projetos de lei aprovados sob sua gestão também serão tratados na campanha, mas cita pesquisa Quaest divulgada em agosto para reforçar seu raciocínio. O atributo mais valorizado pelo eleitor ao escolher um candidato ao Senado é a capacidade de trazer emendas e obras para seu estado. A atuação legislativa nem sequer é citada.
No mesmo dia à noite, em um comício em Juazeirinho (PB), Motta é recepcionado pela prefeita Anna Virgínia (Republicanos), junto com o pai Nabor e o governador Lucas Ribeiro (PP). Um caminhão de som da altura de uma casa alterna jingles e piseiro enquanto pessoas soltam rojões e dançam. Em 2022, Motta recebeu 49% dos votos válidos na cidade.
Desta vez, o presidente da Câmara fala da aprovação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) do fim da escala 6×1 e da isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000. Mas é quando fala sobre as verbas para a cidade que os ouvintes realmente se empolgam.
“Queremos que continue o trabalho de construção de creches”, diz João Antônio Araújo, 34 anos, ao lado da esposa grávida.
“A Paraíba conta com o presidente da Câmara, que vai nos próximos anos continuar nos ajudando com a transposição do rio São Francisco, com o hospital de traumas e com muitas outras coisas”, discursa Lucas Ribeiro.
As emendas são destaque também nos apoios divulgados nas redes sociais. Nabor Wanderley aparece em terceiro nas pesquisas, mas é o candidato ao Senado com maior número de prefeitos apoiadores –cerca de 180 dos 223, inclusive alguns de partidos adversários.
O arco de alianças sustentado pelas emendas parlamentares levou um candidato ao Senado do MDB a recorrer à Justiça Eleitoral contra Motta e seu pai, sob a justificativa de abuso de poder político. Até aliados têm dificuldades: o ex-governador João Azevedo (PSB), que é favorito na eleição para o Senado, perdeu prefeitos apoiadores para Nabor.
O jeito tradicional de fazer política, por meio do apoio de prefeitos e políticos locais, é uma marca da atuação de Motta desde que ele começou. Em 2010, ainda estudante de medicina, lançou-se candidato a deputado federal com a ajuda dos votos da linhagem política herdada de família. Visitava de 10 a 12 cidades por dia na “carreata da poeira”, já que as estradas na época eram todas de terra.
Patos, cidade onde sua família comanda a prefeitura há décadas, lhe deu 24 mil votos, o que representou mais de um terço de seus eleitores. Ainda assim, insuficiente para elegê-lo. Os outros 62 mil votos vieram principalmente de municípios vizinhos, mas a candidatura teve votos em mais de 200 cidades. Motta foi eleito o mais jovem deputado do país, aos 21 anos, no que seria o primeiro de seus quatro mandatos.
Na Câmara, a aliança com Eduardo Cunha o alçou a presidente da CPI da Petrobras em 2015, onde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) foi gestado. Motta se ausentou da sessão que cassou o mandato de Cunha, e até hoje os dois são próximos, o que lhe rende críticas e comentários negativos de ser “cria” do ex-presidente da Câmara. Ambos eram do MDB, mas foi ao sair do partido, por conta de uma desavença local, que Motta ampliou sua força.
Ele assumiu em 2018 o comando estadual do Republicanos, que tinha apenas um prefeito. Dois anos depois, a sigla elegeu 18 e atualmente é a segunda maior da Paraíba, com 50 prefeitos. O partido tem também hoje a maior bancada de deputados federais e estaduais.
A fragilidade de Motta demonstrada nos primeiros meses de condução da Câmara, quando enfrentou um motim e questionamentos sobre sua capacidade de liderar a Casa, não aparece na relação com os políticos locais. Ele é atualmente um dos principais líderes políticos da Paraíba, elogiado pela habilidade de escutar e de cumprir acordos.
Com a presidência da Câmara, aumentou ainda mais a influência sobre emendas parlamentares e acesso a cargos, o que ajuda a ampliar o grupo de apoiadores.
A avó, Francisca, 85, vai se aposentar e apoiará a eleição da neta Olívia como sucessora no Legislativo estadual. O Republicanos também estruturou a campanha para tentar ampliar a bancada na Câmara de três para quatro deputados e seguir no comando da Assembleia Legislativa.
O pai disputa o Senado com a rede de apoios construída pelo filho. Patos, a cidade natal da família, tem 108 mil habitantes, mas influencia eleitores de outras 70 cidades do entorno, uma vez que é um polo comercial e de serviços públicos.
Deputado mais votado da Paraíba na eleição passada, Motta alterna a campanha deste ano com a agenda de presidente da Câmara. Seus aliados dizem não ver risco de uma derrota local.
No 7 de Setembro, o político viajou a Brasília para participar do desfile pátrio ao lado de Lula, a quem ajudou também na negociação com partidos como PP, União Brasil, Republicanos e Podemos para que se mantivessem neutros na eleição presidencial e não embarcassem na campanha de Flávio Bolsonaro (PL).
A relação atual com Lula é diferente da dos momentos de maior atrito ano passado, quando Motta trabalhou contra o governo para derrubar o aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). Ele também escolheu um relator de oposição para o projeto antifacções criminosas, uma das vitrines do governo na segurança pública e que acabou desfigurada.
O PT local não esqueceu as rusgas do passado, e Nabor Wanderley foi vaiado numa convenção do partido em julho. Lula não apoia formalmente o pai de Motta, mas também não desautoriza a família a usar seu nome na campanha local. O presidente é um puxador de votos no Nordeste e é disputado pelas campanhas. Na Paraíba, obteve 66,6% dos votos válidos em 2022.
A vantagem eleitoral de se aproximar de Lula neste ano levou o presidente da Câmara a mudar de postura. Motta se tornou “habitué” dos eventos no Palácio do Planalto e explora a relação pessoal com o presidente, à espera também de apoio para seguir no comando da Câmara caso o petista seja reeleito.
O convívio, no entanto, pode voltar a pontos de atrito após a eleição. Lula defende na campanha a redução das emendas parlamentares. Nisso, encontrará Motta como um ferrenho adversário.
Folha de São Paulo



