Saúde

Mulheres são mais afetadas por disfunção na ATM, que provoca dor e estalos ao abrir a boca

Dor, estalos e dificuldade para abrir e fechar a boca são sinais de que algo está errado com a articulação temporomandibular, a ATM.

Essa é uma das conexões mais complexas do corpo humano e é acionada até mesmo enquanto dormimos, conforme contraímos os músculos da face, rangemos os dentes e engolimos a saliva.

“Uma sobrecarga nessa estrutura articular pode causar alterações nos movimentos, que combinam rotação e translação, além de muita dor”, diz Rodrigo Teixeira, cirurgião-dentista e presidente da SBDOF (Sociedade Brasileira de Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial).

A ATM liga a mandíbula ao osso temporal na base do crânio e se move em três direções: para baixo e para cima, protrusão e retrusão e lateralidade. Ela possui uma cavidade com líquido sinovial, que funciona como um lubrificante, e um disco articular, de estrutura fibrocartilaginosa, que tem a função de proteger e possibilitar o encaixe entre superfícies ósseas.

Os problemas que surgem nessa região são chamados de disfunção temporomandibular (DTM), que pode ter origem muscular —quando envolve músculos mastigatórios— ou articular —quando atinge ossos e disco articular.

As causas da DTM são multifatoriais e abrangem traumas na região, oclusão irregular (quando a mordida fica desbalanceada após restauração malfeita de um dente, por exemplo), prótese mal-adaptada, doenças sistêmicas (como a artrite reumatóide e artrose), fatores anatômicos, distúrbios do sono e fatores psicossociais (como estresse, ansiedade e depressão), que podem levar a hábitos parafuncionais —sendo o mais conhecido deles o bruxismo, que ocorre quando a pessoa range os dentes de modo involuntário, especialmente enquanto dorme.

Os sintomas são dores na musculatura da mastigação e na ATM, que podem irradiar para a região da cabeça e do pescoço, barulhos como estalos e ruídos na articulação, dificuldade para abrir ou fechar a boca e sensação de que a mandíbula sai do lugar ao fazer alguns movimentos.

Teixeira afirma que estudos epidemiológicos clínicos e populacionais indicam que esses sinais podem aparecer em até 70% da população. “Apesar disso, a prevalência relatada de casos que requerem tratamento por dor ou incapacidade funcional é de 5 a 12%”, observa.

As mulheres são pelo menos quatro vezes mais propensas a sofrer de DTM, destaca o cirurgião-dentista.

“Fatores anatômicos, aspectos comportamentais, psicossociais e alterações hormonais ligadas ao ciclo menstrual também foram estudados no intuito de justificar a maior prevalência de DTM no sexo feminino”, afirma Teixeira.

Marcos Pitta, cirurgião bucomaxilofacial, explica que as mulheres costumam ter os ligamentos mais elásticos do que os homens. “Quando o músculo faz força, o ligamento estica e o disco articular sai da posição correta”, diz.

O disco articular fora do lugar é uma das alterações anatômicas mais comuns na ATM, ressalta Pitta. “Um dos sinais é quando você abre a boca e ouve um estalo. Esse barulho acontece porque o disco vai e volta.”

Metade da população tem o disco articular fora do lugar sem apresentar nenhum sintoma, afirma Pitta. “É uma condição frequente, não é considerada uma patologia. Mas quando a pessoa sente dor, mostra dificuldade para abrir a boca ou sente a mandíbula travada, é preciso buscar tratamento.”

Foi o que aconteceu com a publicitária Elisabete Costa, 56. Ela conta que já havia recebido o diagnóstico de bruxismo, mas nunca deu muita importância para o problema. Até que, durante um almoço, sentiu que sua mandíbula estava fora do lugar.

“Coloquei o garfo na boca e travei. Aquilo me assustou muito, pois senti um movimento de gancho. Como se algo tivesse saído do lugar, mas voltado logo em seguida”, relata Elisabete.



Coloquei o garfo na boca e travei. Aquilo me assustou muito, pois senti um movimento de gancho. Como se algo tivesse saído do lugar, mas voltado logo em seguida

Isso aconteceu em 2020, no início da pandemia da Covid-19, quando a publicitária estava cuidando do pai, que estava doente.

“Eu estava passando por um momento de muito estresse. Eu ouvia um barulhinho do lado esquerdo da mandíbula, como se fosse um ossinho esmigalhado, mas não tinha tempo para cuidar de mim naquele momento.”

O problema foi se agravando, até que a publicitária começou a sentir dificuldade para abrir a boca. “Procurei um profissional que me deu uma placa de mordida, para usar durante a noite, mas não resolveu.”

Por recomendação de sua dentista, Elisabete marcou uma consulta com Pitta. Ela fez um tratamento com relaxante muscular de uso oral e toxina botulínica aplicada na região da ATM, em 2022.

“Hoje eu consigo bocejar, coisa que eu não conseguia antes. Também não acordo mais com dor nem ouço nenhum barulho na articulação. E, o mais importante, consigo comer tranquilamente, sem medo de ficar com a mandíbula travada”, afirma.

Pitta diz que o tratamento conservador, que ajuda o paciente a relaxar a musculatura da região, é o mais recomendado para a maioria dos casos.

“Cada caso é avaliado individualmente e o diagnóstico é clínico, feito durante a consulta. O profissional vai descobrir de onde vem a dor, se é muscular ou intra-articular. Quando o paciente apresenta dificuldade para abrir a boca, podemos pedir um exame de ressonância magnética para saber o que está causando essa limitação”, conclui.

Mesmo quando o disco articular está fora do lugar, a cirurgia para o reposicionamento dessa estrutura só é necessária em poucos casos. “O procedimento só é indicado quando o disco é o impedidor do movimento da mandíbula, quando ele trava lá na frente e impede o movimento da mandíbula”, explica Pitta.

A cirurgia é considerada minimamente invasiva, mas deve ser feita em hospital, com anestesia geral. O cirurgião reposiciona o disco articular no lugar correto e fixa essa estrutura com uma âncora, que pode ser de polietileno ou de titânio, e reconstrói o ligamento.

“No entanto, o paciente precisa saber que hoje temos recursos para tratar o problema sem precisar de uma intervenção cirúrgica”, afirma Pitta.

Entre eles, aponta o cirurgião bucomaxilofacial, estão o uso medicamentos como relaxantes musculares e antidepressivos (quando a tensão é causada por transtornos de ansiedade, por exemplo), de placas de mordida, aplicação de toxina botulínica, fisioterapia e acupuntura.

Ainda antes de partir para a cirurgia é possível tentar uma artrocentese, que é um procedimento minimamente invasivo em que o profissional faz uma infiltração com soro fisiológico na ATM. “Mas a artrocentese só é utilizada naqueles casos em que o disco articular é a causa do problema, e se o paciente não respondeu ao tratamento conservador.”

Rodrigo Teixeira, cirurgião-dentista e presidente da SBDOF, ressalta que o tratamento para a DTF pode envolver mais de um profissional, já que a condição é multifatorial.

“O cirurgião-dentista especialista em disfunção temporomandibular e dor orofacial (DTM-DOF) é o profissional mais indicado para fazer o diagnóstico. O tratamento vai abordar questões biológicas, como condições inflamatórias, até questões comportamentais, como ansiedade e alterações no padrão de sono“, explica Teixeira.

Por isso, após a avaliação com um cirurgião-dentista, é possível que esse profissional faça encaminhamento do paciente para um fisioterapeuta, um neurologista, um psicólogo ou um psiquiatra.

“Em sua maioria, os tratamentos são conservadores e têm ótimos resultados, com comprovação de eficácia na literatura. Os procedimentos invasivos, como os cirúrgicos, são menos frequentes. Cabe ressaltar que casos de DTM exigem do especialista conhecimentos que vão além da odontologia. Isso evita diagnósticos incorretos e intervenções desnecessárias”, destaca Teixeira.

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Informação

Folha de São Paulo

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