Na reta final de propaganda na TV, Flávio se diz alvo de ataques, e Lula mira governo Bolsonaro

A menos de duas semanas do primeiro turno, Flávio Bolsonaro (PL) usou a propaganda na TV desta terça-feira (22) para se colocar como alvo de ataques de Lula (PT). O presidente, candidato à reeleição, aposta na comparação entre seu governo e o de Jair Bolsonaro.
Flávio abriu o programa afirmando que, desde o início da campanha, a propaganda do petista tenta apenas atacá-lo, faz “baixarias” e edita suas falas. Disse ainda que o eleitor não verá esse tipo de conteúdo da parte dele, apesar de fazer críticas diretas ao governo do adversário no mesmo programa.
Trata-se de uma peça preventiva, avalia o cientista político Aldo Fornazieri, coordenador do curso de pós-graduação em Estratégia e Liderança Política da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo). “É uma estratégia de fidelização e uma estratégia de defesa”, diz.
Segundo ele, o objetivo é manter o voto de quem já pretende escolher o senador, em uma disputa que tende a ser decidida pelos indecisos. O horário eleitoral do primeiro turno termina no dia 1º, três dias antes da votação, marcada para 4 de outubro.
No programa desta terça, Flávio afirmou que Lula fala mal dele porque não quer enfrentar o recorde de brasileiros endividados. “O governo dele é uma vergonha”, disse o senador, que repetiu a palavra ao longo da peça.
O senador encontrou os temas centrais da eleição: o endividamento e a segurança pública, avalia Camilo Aggio, professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e pesquisador do INCT.DD (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital).
Segundo Aggio, a retórica de que a dívida do eleitor não é culpa dele guarda relação com certos princípios religiosos. “Há um subtexto da compaixão e do perdão, o que, de alguma forma, exime os sujeitos de culpa”, diz.
Na segurança pública, Flávio prometeu começar a construir cinco megapresídios federais, quadruplicar a pena de “ladrão de celular” e reduzir a maioridade penal. Com ele, disse, presídio não será “escritório do crime”. Aggio nota que o senador propõe combater a violência cotidiana com punições mais duras, e a menção ao roubo de celular dialoga com a experiência de quem convive com esse tipo de crime.
Na economia, Flávio diz que vai ajudar a renegociar dívidas, baixar juros e cortar impostos. No encerramento, a propaganda anunciou que o programa de Lula começaria em seguida e atacaria Flávio, mas que ali seria mostrado o “Brasil real”. Segue-se, então, uma sequência de depoimentos de mulheres negras com críticas ao custo de vida e ao PT.
A escolha responde a pesquisas de intenção de voto, avalia Aggio. Flávio tem pior desempenho entre mulheres e eleitores negros, segmentos em que Lula vence com margem significativa. No programa do dia 17, o senador já havia apresentado propostas para mulheres, como um voucher para creche na rede privada onde faltar vaga na rede pública.
No programa do PT, Lula afirmou que a situação ainda não está boa e promete reduzir a inflação. Para Fornazieri, a frase trabalha contra o petista. “Isso é antipropaganda”, diz.
Segundo ele, ao reconhecer que a situação não está boa depois de o adversário tratar de endividamento e custo de vida, Lula reforça a mensagem de mudança.
Sem citar o nome do adversário, o presidente questiona candidatos que prometem baixar preços e lembrou o período em que eles tiveram “a caneta na mão”. A propaganda comparou ainda a política tributária dos dois governos, afirmando que Lula isentou do Imposto de Renda quem ganha até R$ 5.000.
O programa afirmou que o preço dos alimentos disparou na gestão Bolsonaro e que os efeitos da gestão anterior ainda são sentidos porque “reconstruir leva tempo”. A associação entre Flávio e o governo do pai também apareceu em programas anteriores. No dia 17, a propaganda do PT afirmou que a família Bolsonaro deixou o país mais violento e colocou mais de 1 milhão de armas nas ruas. A peça exibiu imagens do senador com o bordão “falar é Flávio, fazer é Lula”.
Fornazieri avalia que a campanha petista deveria ter concentrado a propaganda no que o governo fez nos últimos quatro anos, com propostas e ataques em segundo plano. Em geral, diz, é a oposição quem parte para o ataque, e a campanha de Lula inverteu essa lógica. “Um ataque excessivo se torna prejudicial para quem ataca”, diz, sobretudo para quem está no governo.
Nesta terça (22), Augusto Cury (Avante), com 6% das intenções de voto no Datafolha, e Ronaldo Caiado (PSD), com 4%, continuam a explorar a ideia de terceira via e a rejeição aos dois principais candidatos.
Cury exibiu uma radiola que repete “é Lula, é Bolsonaro” e um jingle que repete “Cury é a cura”. No dia 17, havia afirmado que não veio “disputar um lado”, mas “um Brasil”.
Já Caiado exibiu trechos de sua entrevista ao podcast Flow, em que falou sobre segurança pública e uso de tecnologia na educação, e encerrou o programa com um QR code que leva ao vídeo na íntegra, no que Aggio avalia ser uma estratégia de campanha com menos recursos. “É interessante ele ir aos segmentos de nicho, aos podcasts”, afirma.
Folha de São Paulo


