Política

Não Choquei

Uma jovem de 22 anos tirou a própria vida por não conseguir lidar com mentiras disseminadas nas redes sociais. Jéssica Vitória Canedo foi alvo de uma enxurrada de mensagens falsas que a envolveram em um relacionamento inexistente com o humorista Whindersson Nunes. Os dois negaram em vão. A reação do governo Lula foi a mesma que tem sido em qualquer caso que envolva as redes sociais: “Temos de regular”. Quem se chocou?

“Volto ao ponto: a regulação das redes sociais torna-se um imperativo civilizatório, sem o qual não há falar-se em democracia ou mesmo em dignidade. O resto é aposta no caos, na morte e na monetização do sofrimento”, escreveu o ministro Silvio Almeida, dos Direitos Humanos, em seu perfil no X, ex-Twitter.

O líder do PT na Câmara, Zeca Dirceu (PR), disse que “precisamos avançar em 2024 na tramitação do PL 2630 – Fake News, isso deve ser prioridade já no início do ano para o parlamento”.

A ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, divulgou nota para dizer que “a morte de Jéssica Vitória Canedo, uma jovem de 22 anos, nesta sexta-feira (22), é mais uma tragédia fruto da irresponsabilidade de perfis nas redes sociais que lucram com a misoginia e disseminação de mentiras e, igualmente, da falta de responsabilização das plataformas”.

Em sua nota, Gonçalves também mencionou, convenientemente, a recente invasão do perfil da primeira-dama Janja no X. A ministra se esqueceu de mencionar, contudo, a cumplicidade entre Janja e Raphael Sousa Oliveira (foto, à direita), que criou o perfil Choquei, um dos envolvidos no acosso virtual de Jéssica. Também não choquei por isso.

Foi ao perfil Choquei que a primeira-dama deu a famigerada (e enganosa) resposta sobre a taxação de compras do exterior até 50 dólares, em 12 de abril: @choquei a taxação é para as empresas e não para o consumidor”.

Chocando o noticiário desde fevereiro de 2022

“A Choquei”, como o perfil é conhecido, foi incorporada desde a última eleição à milícia digital petista. “O dono do perfil disse que nunca se interessou por política, mas, com o governo Bolsonaro, assumiu um posicionamento contra o presidente – o que o levou a adotar uma linha pró-Lula”, registra reportagem da revista piauí publicada em 1º de novembro de 2022.

A reportagem menciona uma série de dados para destacar a relevância do perfil na eleição do ano passado. A importância foi tanta que Raphael acabou convidado para participar da posse de Lula, em 1º de janeiro.

O perfil, criado em 2014, tratava apenas de fofocas até fevereiro de 2022, quando seu criador percebeu que também era possível chamar atenção nas redes sociais com notícias, a partir da eclosão da guerra na Ucrânia, motivada pela invasão das tropas russas de Vladimir Putin.

O acompanhamento do noticiário passou a ser feito sem qualquer rigor ou responsabilidade jornalística, o que não é de se chocar também. Mas os apoiadores da candidatura de Lula não se incomodaram com isso. O canhão de likes da Choquei estava do lado deles.

O deputado federal André Janones (Avante-MG), coordenador da campanha digital de Lula, tenta se distanciar agora do perfil, diante das cobranças da oposição. “Estão me atacando com um print falso para fazer politicagem sobre a morte de uma jovem de 22 anos de idade. Vocês são nojentos, quem matou com fake news foram vocês falando contra vacinação e contra máscara”, defendeu-se o governista.

É o mesmo deputado que admitiu inventar notícias durante a eleição do ano passado. Janones disse, por exemplo, que, caso eleito, Jair Bolsonaro indicaria o ex-presidente Fernando Collor para o Ministério da Previdência.

Sempre provocando os adversários, Janones, que foi denunciado recentemente por suspeita de rachadinha, disse que tirou a informação “do cu”. O PP pediu a cassação de seu mandato pelo episódio.

Hoje, Janones nega ter disseminado fake news. Diz que apenas manipula a informação.

O petismo atua nas redes sociais como se tivesse recebido um salvo conduto para combater as mentiras disseminadas pelo bolsonarismo e joga a culpa nas próprias redes sociais.

Como resolver o problema?

No caso de Jéssica, bastaria que perfis como Garotx do Blog e Choquei fossem punidos nos termos da lei vigente pelo que fizeram para que novos casos de acosso público baseados em mentiras fossem desencorajados.

Os políticos que pretendem resolver o problema também ajudariam muito se não alimentassem a rede de mentiras armada nas redes sociais que eles tanto querem regular.



Matéria: O Antagonista

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