Nos EUA, surto de sarampo em comunidades amish faz famílias repensarem vacinação

A família amish pensava que os calafrios e a febre que castigavam seu filho eram sinais de uma infecção de garganta. Então, o telefone tocou: um amigo avisava que havia casos de sarampo circulando em um leilão de cavalos em Lancaster, na Pensilvânia.
O garoto, de 15 anos, e seu pai, um domador de cavalos amish, tinham estado no local poucos dias antes. “Sabíamos que era sarampo”, diz Emma Miller, mãe do garoto.
Casos de sarampo já atingem 45 estados americanos em 2026. Na Pensilvânia —onde autoridades estaduais dizem que cinco pessoas morreram em decorrência do surto— e em Ohio, os amish estão entre os mais afetados pela doença. Eles também são alvo de críticas por um estilo de vida que tende a se afastar da medicina moderna, assim como de outros aspectos da vida contemporânea.
Dois dias acompanhando uma profissional de saúde pela zona rural amish do nordeste de Ohio mostram que, apesar do estereótipo, os amish não são contrários às vacinas. As razões para rejeitá-las são mais complexas.
Assim como a maioria dos americanos, muitos nunca tinham visto um caso de sarampo e não sabiam o quão perigoso o vírus poderia ser, causando surdez, inchaço cerebral e até morte. Eles achavam que o sarampo não chegaria até eles. Chegou.
A doença, considerada eliminada nos Estados Unidos graças à vacinação, atravessa a família Miller: 6 dos 7 filhos e a mãe ficaram doentes. Apenas o pai e uma das filhas escaparam. Os dois são vacinados.
Enquanto enfrenta a própria doença, Miller tenta cuidar dos filhos doentes, incluindo o bebê, e dá Tylenol para combater a febre provocada pelo sarampo. Cabe à filha saudável, Mary Ann, de 12 anos, varrer a casa e preparar os alimentos. Vizinhos deixam comida na porta.
A família deixa de ir à igreja para proteger os demais fiéis. Apesar de todas as precauções, porém, a doença chegou a primos que tinham visitado a família antes de haver qualquer suspeita de sarampo. “Eu não imaginava que seria tão ruim”, diz Miller.
Os amish às vezes são retratados como contrários à vacinação por motivos religiosos, mas muitas vezes, a decisão depende dos hábitos ou da tradição da família. Se os pais ou avós foram vacinados, é provável que eles também sejam.
A cobertura vacinal também é baixa porque os amish, em geral, não têm seguro de saúde privado, nem cartões de crédito. —eles pagam consultas médicas em dinheiro. Em emergências, recorrem a um fundo de ajuda mútua.
A vacina contra o sarampo começou a ser usada em 1963, quando o vírus matava de 400 a 500 pessoas por ano nos Estados Unidos.
Em 2000, o sarampo foi declarado eliminado no país, mas não erradicado —uma diferença sutil de terminologia que permite o retorno da doença. Agora, esse status está ameaçado. Os surtos aumentaram nos últimos anos, enquanto a hesitação em relação às vacinas é alimentada por Robert F. Kennedy Jr., secretário de Saúde e Serviços Humanos, que há muito tempo questiona a eficácia dos imunizantes.
A Pensilvânia registrou 977 casos de sarampo até 2 de outubro, segundo dados estaduais. O condado de Lancaster, onde vive uma grande população amish, concentra cerca de 40% dos casos.
O surto levou 195 pessoas à internação e está associado a cinco mortes, de acordo com o departamento estadual de saúde. O CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) contabiliza apenas duas mortes e contesta o número divulgado pelo estado.
Ohio registra 206 casos neste ano, com os maiores números em três condados com forte presença amish. No ano passado, o estado registrou 46 casos de sarampo.
Os surtos na Pensilvânia e em Ohio provavelmente estão relacionados. Autoridades de saúde afirmam que parte dos casos em Ohio começou da mesma maneira que na família Miller: com exposição em leilões de cavalos em Lancaster, na Pensilvânia, e em Bloomfield e Sugarcreek, em Ohio. A partir daí, a doença se espalhou para casamentos, funerais, festas e cultos religiosos.
Durante os períodos de isolamento da pandemia de Covid-19, Stephanie Truckey, enfermeira que vive em Ohio, percebeu que os amish se afastaram ainda mais dos serviços de saúde por evitar tecnologias como a telemedicina.
Truckey criou um serviço chamado Angels to Amish para fazer visitas domiciliares e oferecer atendimento médico básico a pacientes em Ohio, Pensilvânia e Indiana. Ela não aplica vacinas contra o sarampo, mas os pacientes costumam perguntar sobre elas, e ela os encaminha à vacinação.
Recentemente ela dirigiu por estradas cercadas de patinetes, carroças e charretes puxadas por cavalos, enquanto atendia ligações de amish com problemas que iam de tosse persistente a ansiedade e depressão.
Sua primeira paciente, Lorene, reclamou de congestão nasal. Ela tem 30 anos e mora com quatro de seus sete irmãos —crianças amish vivem com os pais até se casarem, ela diz.
A mãe de Lorene acompanha o atendimento. Todos os seus filhos são vacinados, afirma. Dentro da comunidade, “há muitos que se vacinam, e muitos que não”, diz. “É uma escolha individual.”
Na escola Hickory Grove, uma escola amish, uma professora de pouco mais de 20 anos sai descalça para conversar. Ela foi vacinada na infância, assim como sua mãe. Não há exigência de vacinação para os alunos se matricularem na escola, ao contrário do que ocorre nas escolas públicas, afirma.
Além dos resfriados habituais, nenhum dos 26 alunos da escola ficou doente, ela diz.
As donas de casa amish, em sua maioria, parecem distantes das disputas sobre se as vacinas causam mais mal do que bem. Elas parecem não conhecer Kennedy. Dizem que estão em grande parte protegidas desses debates porque não leem jornais, nem assistem à televisão.
“Quem?”, pergunta Nancy Miller, 24, mãe de dois meninos pequenos, quando questionada sobre Kennedy. Ela diz que recebe a maior parte das notícias por meio de conversas com outras pessoas. Miller é um sobrenome comum entre os amish.
Ela e o marido decidiram vacinar os meninos quando o sarampo “começou a circular”, conta. O marido havia sido vacinado na infância. Ela não pode ser vacinada porque está grávida.
Para Emma Miller, cuja família está entre as primeiras a contrair sarampo em sua comunidade, os últimos meses foram difíceis.
O marido, por ser vacinado, incentiva que os filhos —com idades entre 9 meses e 17 anos— recebam as vacinas recomendadas na primeira infância. Mas, até pouco tempo atrás, Emma nunca tinha ouvido falar de alguém que tivesse sarampo. Por isso a vacinação não parecia uma prioridade, diz.
Mas ficar doente de sarampo é uma experiência exaustiva, e isso a motivou a vacinar os filhos. “Vamos vacinar todos eles.”
Informação
Folha de São Paulo



