Política

“Nossa inesgotável porção de trevas”

Uma fala enigmática de Próspero, o mago de A Tempestade, última peça de Shakespeare, lança luz sobre a farsa política brasileira, diz Jerônimo Teixeira na Crusoé.

…E assumo que é minha
Esta porção de trevas.”

“Quem fala é Próspero, conjurador de forças sobrenaturais e duque deposto de Milão. Ele se refere a Calibã, criatura que encontrou na ilha onde vive exilado. Filho da feiticeira Sycorax, Calibã tem porte e sentimentos humanos, mas sua aparência faz lembrar um peixe.”

“‘This thing of darkness/ I acknowledge mine’ é a frase no original. Acima, citei essa passagem de A Tempestade na excelente tradução de José Francisco Botelho, publicada pela Penguin/Companhia das Letras. No ato final desta que é a última peça de William Shakespeare, Próspero reconhece Calibã diante de um grupo de nobres cujo navio naufragou perto da ilha. O monstro vem acompanhado de Trínculo e Estéfano, serviçais dos nobres. O trio havia tramado assassinar Próspero para tomar seus domínios.”

“Na aparência, Próspero limita-se a esclarecer quem é dono de quem: Calibã, como tudo na ilha, é propriedade sua, enquanto Estéfano e Trínculo pertencem aos recém-chegados. Mas o sentido das palavras em Shakespeare nunca é tão estrito. Enredado na dialética do senhor e do escravo, Próspero assume como sua a escuridão do servo que, no passado, tentara estuprar Miranda, sua filha e única companhia no exílio.”

“Todos têm sua porção de trevas. Poucos a reconhecem.”

“Um episódio em que será difícil encontrar porções de luz: a morte de Cleriston Pereira da Cunha no Complexo Penitenciário da Papuda, no mês passado.”

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Matéria: O Antagonista

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