Saúde

Nova geração de médicos traz olhar de diversidade, com discussão de efeitos de raça e gênero na saúde

Uma nova geração de profissionais da saúde têm mudado a visão tradicional da figura do médico homem, branco e com mais de 50 anos. São profissionais jovens, negros, mais diversificados quanto ao gênero e sexualidade e que tiveram, muitas vezes, seu ensino básico em escolas públicas. Muitos foram a primeira geração de suas famílias a ter um diploma de ensino superior, e ingressaram nas universidades por meio de programas como a Lei das Cotas, de 2012, ou o ProUni (Programa Universidade para Todos), de 2005.

Essa nova geração traz um olhar diversificado também para a prática clínica, entendendo que a raça, o gênero, a sexualidade, o local de vida e a renda influenciam as condições de saúde, o que deve ser considerado nas clínicas e hospitais para reduzir as desigualdades e proporcionar um atendimento mais humanizado.

Segundo dados da Demografia Médica de 2023, que utiliza o sistema do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), ligado ao MEC (Ministério da Educação), no período de 2010 a 2019 houve um aumento de estudantes negros (pretos e pardos) nos cursos de medicina do país, passando de 1.483, em 2010 (25,1%), para 9.326 em 2019 (27,7%).

A mudança ocorreu em parte pela maior declaração dos ingressantes, assim como aumento do número de vagas totais disponíveis no período. Houve, também, aumento dos graduandos que fizeram escola pública no mesmo período, de 25,9% (2010) para 29,8% (2019).

“Esse movimento, que teve início há cerca de 10 anos com a política de cotas, já há estudos que demonstram como a diversidade nas universidades traz essa discussão para a academia, porque é a população minorizada que faz essas perguntas e instiga o debate de gênero e raça no ambiente acadêmico”, explica Abna Vieira, médica oncologista do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo) e da Oncoclínicas e uma das membras fundadoras do Comitê de Diversidade da Sboc (Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica).

A médica cita um estudo publicado no último ano na revista Jama Network Open relacionando o aumento em 10% dos profissionais médicos negros na atenção primária no país com o ganho de expectativa de vida de 31 dias da população negra. “E aí essa é a importância da representatividade, ela salva vidas literalmente”, disse.

Isso ocorre, em parte, porque há o viés inconsciente de muitos médicos brancos ao tratar pacientes negros. Um estudo nos Estados Unidos aponta que mulheres negras sofrem mais violência obstétrica do que brancas. Outra razão é questões de saúde associadas a grupos minoritários serem melhor compreendidas por pessoas semelhantes.

“As pessoas ouvem melhor seus iguais. Então, ele precisa se reconhecer em quem está prestando a assistência, e a partir dali a gente consegue traçar mais empatia, diálogo, e a visão do paciente ao tratamento”, afirma a oncologista. Há também estudos que apontam que o desfecho positivo de cirurgias em pacientes mulheres feitas por médicas é em geral superior ao daquelas operadas por cirurgiões homens.



Na residência, tive um paciente que não aceitou se consultar comigo alegando que eu era muito jovem, mas ele passou com uma médica residente [mesma idade] branca. Ainda hoje vejo pessoas que passam por mim no corredor e só acenam depois de ver meu crachá, como se fosse uma confirmação que sou ‘médica, então tudo bem estar ali’. É difícil combater o racismo velado, mas temos avançado, especialmente nos congressos e encontros científicos

Segundo Vieira, ainda há um longo caminho a ser trilhado, pois o racismo no país continua a atuar fortemente, inclusive dentro dos hospitais. “Na residência, tive um paciente que não aceitou se consultar comigo alegando que eu era muito jovem, mas ele passou com uma médica residente [mesma idade] branca. Ainda hoje vejo pessoas que passam por mim no corredor e só acenam depois de ver meu crachá, como se fosse uma confirmação que sou ‘médica, então tudo bem estar ali’. É difícil combater o racismo velado, mas temos avançado, especialmente nos congressos e encontros científicos”, afirma.

Apesar do aumento recente de profissionais pretos e pardos no Brasil, ainda falta muito para alcançar igualdade racial na medicina: uma pesquisa feita em 2020 com uma universidade pública no Rio de Janeiro, publicada na Revista Brasileira de Educação Médica, aponta que pardos são menos de um quarto (23,6%) dos médicos, pretos são 3,2%, enquanto brancos seguem sendo a maior parcela (69,9%).

Dados similares foram encontrados no primeiro Censo da Oncologia Brasileira, publicado em novembro último pela Sboc (Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica), que aponta que 81% dos oncologistas são brancos, 26% são pardos e 2% são pretos.

Segundo o último censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a maioria da população é parda (45,3%), seguida de brancos (43,5%) e pretos (10,2%).

A diversidade na medicina importa porque, no Brasil, assim como em outros países, os indicadores de saúde são piores para a população negra, devido às chamadas determinantes sociais da saúde, definidas como fatores sociais, econômicos, culturais, raciais, dentre outros, que influenciam a ocorrência de problemas de saúde e seus fatores de risco na população. É, por exemplo, o caso da anemia falciforme, doença cuja prevalência é maior na população negra.

“Nós temos a imagem de que por ser um país miscigenado, as condições que afligem a população preta são associadas à pobreza, e não por conta do racismo, o que é falso. Se não tivermos esse olhar, não vamos conseguir trazer a importância de discutir o racismo na saúde”, avalia a oncologista e professora do Ambulatório de Oncologia da UFBA (Universidade Federal da Bahia), Ana Amélia Viana. “Todas essas questões que se referem à diversidade são afetadas por vieses que as pessoas não querem discutir.”

De acordo com dados do 1° boletim epidemiológico da população negra do Ministério da Saúde, de outubro de 2023, as cinco principais causas de mortalidade na população preta em 2020 foram: Covid, doenças cerebrovasculares, sinais e sintomas mal definidos, doenças isquêmicas do coração e diabetes mellitus. Entre os pardos, a 5ª causa mais comum foram agressões.

Segundo Viana, é importante suscitar o debate inclusive para expor os diferentes cenários de atendimento nas redes privada e pública, uma vez que as necessidades de cada sistema serão diferentes. “Os alunos de medicina em sua maioria não lidam com a realidade do SUS [Sistema Único de Saúde] e, depois da formação, atuam em sua especialidade, sem nunca serem expostos àquela vulnerabilidade social.”

As médicas entendem que a inclusão do debate nas escolas de medicina é um processo gradual, trazido pelos próprios médicos formados na última década e que agora são professores de escolas médicas. “Os cursos de medicina não abordam, por exemplo, os problemas de saúde da população negra, da população indígena. São temas trazidos por coletivos negros, por médicos negros, e que conseguem reunir dados e levar para os altos níveis da faculdade, mas isso precisa ser ampliado”, defende Vieira.

Para a oncologista baiana, uma forma de ampliar a discussão seria, primeiro, reconhecer a limitação do atendimento de profissionais brancos em relação aos demais grupos. “Se você não tem consciência e não procura ativamente diminuir essas diferenças, você vai correr mais riscos. Então o médico branco, ele fez um juramento de cuidar independentemente de cor da pele e raça, por isso, acredito na capacitação”, completa.

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Informação

Folha de São Paulo

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