Novos e velhos tempos

A atual época é a do deslumbramento consigo mesmo, do espetáculo, de enorme desenvolvimento tecnológico, de grandes transformações no comportamento social, do exagero, da velocidade das coisas e das maciças propagandas comerciais, ainda mais em uma Copa do Mundo.
A seleção brasileira do meio para frente possui quatro titulares (Casemiro, Bruno Guimarães, Vinicius Junior e Raphinha). Alguns jogadores disputam as outras duas vagas, com diferentes posicionamentos em campo. Quando Ancelotti fala que o time vai jogar no 4-4-2, independentemente da escalação, deduzo que se refere à fase defensiva, com quatro jogadores na proteção dos quatro defensores. Este é um conceito antigo, presente na maioria das atuais equipes, iniciado com a seleção inglesa campeã do mundo em 1966.
Muitas coisas vão e voltam no futebol. Evidentemente, o jogo hoje é muito mais veloz, intenso, compacto, com as equipes marcando e atacando com muitos jogadores.
As frequentes discussões se a seleção brasileira deve jogar no 4-4-2, no 4-2-4 ou no 4-3-3 são obsoletas. Os jogadores não param de correr e, a cada instante, é formado um diferente sistema tático na prancheta. Os pontas são atacantes quando avançam e defensores quando recuam. Não há diferença entre 4-2-4 e o 4-4-2, vai depender do momento do jogo. Obviamente, as equipes possuem particularidades individuais e coletivas.
Outra discussão diária, desnecessária, é se o Brasil deve jogar com quatro atacantes ou com um terceiro jogador no meio-campo. Matheus Cunha é um armador ou um atacante, pois marca no meio-campo e chega à frente?
Antes da Copa de 70, o Brasil jogava com dois no meio-campo (Clodoaldo e Gerson), dois atacantes pelo centro (Pelé e Tostão) e dois pontas abertos e agressivos. Zagallo assumiu o comando e trocou o ponta esquerda Edu por mais um jogador de meio-campo (Rivellino). As discussões eram as mesmas de hoje, se o time deveria jogar com três no meio-campo ou com quatro atacantes (4-3-3 ou 4-2-4) e se deveria ter um clássico centroavante (Roberto) ou um meia atacante (Tostão) ao lado de Pelé. Zagallo dizia, como muitos defendem hoje, que a equipe não poderia ter apenas dois no meio-campo contra as fortes seleções europeias.
A pressão feita por Pelé e outros jogadores para Zagallo me escalar não foi explicita como mostra o filme: “Brasil 70 — A Saga do Tri“, exibido pela Netflix. Se houve pressão, foi silenciosa, pelo olhar, nas entrelinhas e nas conversas ao pé do ouvido. Gerson, que jogava no Botafogo sob o comando de Zagallo, conversava muito com o técnico. Eu não fui até Zagallo para dizer que eu tinha de ser o titular, como mostra o filme. Diferentemente do que é mostrado, Pelé era um atleta consciente, equilibrado, bem-humorado e muito forte emocionalmente. Por isso e pelas condições físicas e técnicas era o Pelé, o maior da história.
O filme é bem feito, prazeroso de se ver, emocionante, possui ótimos atores, com ótima reprodução dos principais lances e gols, mas há muitas cenas inventadas e sensacionalistas para dramatizar uma grande conquista esportiva.
Leivinha
Meus sentimentos à família de Leivinha, ídolo do Palmeiras, meu companheiro de ataque na seleção brasileira, campeã da Copa das Confederações, no Maracanã, em 1972. Leivinha ocupou o lugar de Pelé, que tinha se despedido da seleção.
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Esporte / Folha de São Paulo



