Política

O espírito bolsonarista que move a campanha de Ciro Gomes ao governo do Ceará

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A campanha de Ciro Gomes (PSDB) ao governo do Ceará vem sendo tomada cada vez mais pelo espírito bolsonarista de fazer política. Diante de um vácuo eleitoral da direita local, o tucano fechou aliança com o PL de Flávio Bolsonaro e atraiu as principais lideranças do partido e de outras siglas à direita. Na esteira, passou a assumir discursos associados a esse campo político, entre eles a pregação antipetista e as críticas aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

A postura é adotada mesmo com o tucano sendo categórico ao afirmar que não apoia Flávio Bolsonaro à Presidência da República, da mesma forma que também não apoia a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em muitas entrevistas, ele afirma que é “uma terceira coisa” e lembra que já esteve em eleições presidenciais contra Lula e Bolsonaro.

A própria equipe de Ciro Gomes costuma ressaltar que ele conquistará o voto combinado no estado — Lula para presidente e Ciro para governador –, visto que pontua muito bem nas pesquisas contra o governador Elmano de Freitas (PT) e tem chance de vencer em um estado majoritariamente lulista, que é governado pelo PT há três mandatos consecutivos.

Segundo a última pesquisa, feita pelo instituto Real Time Big Data entre 15 e 19 de agosto, Ciro e Elmano estão numericamente empatados em 44% das intenções de voto. No segundo turno, o petista tem 46% contra 45% do tucano.

Alianças

Apoiado pelo senador Flávio Bolsonaro e seus irmãos, Eduardo e Carlos, além do presidente do PL cearense, o deputado André Fernandes, Ciro Gomes montou um palanque inclinado à direita, com o apoio de siglas como União Brasil, PP e PL.

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Concorrendo ao Senado na sua chapa está o pastor e ex-deputado estadual Alcides Fernandes (PL-CE), que é pai de André Fernandes e se notabilizou em setembro do ano passado ao dizer que já havia rezado para que Lula morresse. Em uma entrevista, ele disse a jornalistas que não adiantava fazer esse tipo de oração: “Já orei foi muito, não dá certo”. Após a repercussão, afirmou que não estava se referindo à morte física do petista, mas à sua “morte política”.

Além dele, o outro nome que disputa espaço no Senado ao lado de Ciro é ex-deputado federal Wagner Sousa Gomes (União-CE), o Capitão Wagner, que se projetou politicamente ao liderar um motim de policiais militares do estado em 2020, que paralisou expressivamente o trabalho policial, gerando forte impacto na segurança do estado.

Em uma das paralisações, em Sobral, o senador Cid Gomes (PSB-CE), irmão de Ciro, foi baleado, com dois tiros, quando decidiu pilotar uma retroescavadeira contra o portão de entrada de um quartel onde havia policiais militares amotinados.

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Antipetismo

As alianças formadas por Ciro em 2026, por sua vez, só foram possíveis por causa da adesão de políticos antipetistas ou anti-Lula. Por mais de uma vez, os bolsonaristas disseram que iriam apoiar Ciro Gomes, mesmo discordando dele em muitas questões, porque o objetivo maior era derrotar Lula e Elmano.

Vácuo político

Com o apoio do PL, Ciro se aproveitou também da falta de concorrentes à direita desde que o senador Eduardo Girão (Novo-CE) saiu da disputa pelo governo do Ceará para ser vice de Romeu Zema (Novo) na eleição presidencial. Girão tinha o apoio explícito da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF), e sua saída jogou o que havia de eleitor de direita no estado para o lado de Ciro.

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‘Freio respeitoso’ no STF

Há poucos dias, Ciro Gomes também comprou uma das bandeiras mais caras do bolsonarismo: o enfrentamento político aos ministros do STF. Desde 2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro já falava sobre a importância de conquistar a maioria das cadeiras do Congresso Nacional para impor suas teses na Casa do Congresso, em especial tornar possível processos de impeachment contra magistrados do Supremo.

No último domingo, 23, Ciro Gomes falou, durante um “adesivaço” na Praia do Futuro, em Fortaleza, que os dois candidatos ao Senado na sua chapa, se eleitos, “ajudarão a endurecer a legislação contra as facções criminosas e a colocar um freio respeitoso, mas um freio, nos abusos de setores do Supremo Tribunal Federal“.

Câmeras corporais na PM

Outra bandeira cara ao bolsonarismo é a defesa irrestrita dos policiais militares em sua atuação nas ruas, com ressalvas relevantes ao uso de câmeras corporais para combater eventuais abusos e a letalidade policial.

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Há três dias, Ciro Gomes também sinalizou apoio a essa pauta. “Câmeras de segurança, eu sou contra. Aqui, no Ceará, o que nós precisamos fazer agora é acabar com essa farsa que o PT, Elmano de Freitas e Camilo Santana montaram. Eles criaram uma corregedoria de polícia separada da estrutura policial. Eu quero libertar a polícia do Ceará até a hora em que a gente restaurar a ordem. Aí sim, depois a gente vai ver como conter os abusos policiais da forma mais trivial que puder”, afirmou durante uma caminhada no Conjunto Palmeiras, também na capital cearense, na manhã da última segunda-feira, 24.

Acusações de misoginia

Ciro também comprou polêmica ao dar declarações no mínimo controversas sobre mulheres. Durante a convenção que lançou a sua candidatura, em 1º de agosto, ele afirmou que “as mulheres do PT são absolutamente agressivas num feminismo vazio”.

A declaração provocou reação de parlamentares e outras lideranças femininas no estado. A deputada federal Luisa Cela (PT), disse que Ciro era “machista” e que “não tem moral para falar de agressividade”. “Como é que um sujeito condenado por violência política de gênero, justamente por atacar as mulheres, tem a cara de pau de dizer que as mulheres do PT são agressivas? Aprenda a respeitar as mulheres, Ciro”, disse a deputada.

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Ela fazia referência à condenação de Ciro pela Justiça, em maio deste ano, por violência política de gênero em razão de declarações contra a então senadora e hoje prefeita de Crateús, Janaína Farias (PT). Entre as ofensas dirigidas à petista, ele a chamou de “cortesã” e “assessora para assuntos de cama do Camilo Santana”, de quem era suplente no Senado.

Em relação à última declaração, sobre as mulheres do PT, Ciro disse que ela foi tirada de contexto para atacá-lo. “A verdade muitas vezes dói. Foi o que aconteceu ontem com a deturpação cretina que fizeram do trecho que eu denunciava o descaso do governo Elmano com as mulheres”, disse nas redes sociais, postando vídeo no qual confirma a frase que gerou polêmica, mas diz que ela foi uma crítica ao silêncio diante da falta de atenção às mulheres no governo cearense do PT.

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