Saúde

O privilégio de ser ativo

Leio no Financial Times, replicado nesta Folha, sobre os sacrifícios de CEOs para se manter em forma.

Temos o caso de Roland Busch, diretor executivo da Siemens, para quem os treinos têm “a mesma importância que qualquer reunião de negócios”. Apesar da agenda exigente, ele se gaba: “não pulo um único dia dedicado ao treino de pernas”. Sayeh Ghanbari, chefe de consultoria da EY, não abre mão das artes marciais: durante as viagens, participa de aulas remotas, às vezes “com fusos horários bem diferentes… essa é a disciplina”. Michael Murray, presidente da rede varejista britânica Frasers Group, declara sua paixão pela Hyrox, a nova febre do fitness: “adorei o quão mensurável era; você define metas e acompanha o progresso”. James McMaster, executivo-chefe da Huel, admite que “conciliar exercícios físicos com a função de CEO e pai de crianças pequenas pode ser difícil”, mas, bem organizado, encaixa uma sessão “em um intervalo aleatório, tipo às 15h”.

E assim se sucedem exemplos edificantes, fundados em capitais hoje preciosos, como “resiliência”, “consistência”, “controle” e “foco”. Índice de que “o tempo livre segue o trabalho como sua sombra”, como diria o velho e atual Adorno. Mas não desperdicemos toda nossa compaixão com os abastados: numa sociedade em que a escala 6×1 ainda estrutura a vida de muitos, tempo livre –mesmo esse acossado pelo labor– é luxo.

Na reportagem, como de costume, a atividade física aparece como escolha individual. Mas as oportunidades de prática são distribuídas de forma desigual. Ter tempo disponível, acesso a espaços seguros, equipamentos esportivos, áreas verdes e transporte adequado depende, em parte, da posição social e do território onde se vive. Em uma metrópole marcada pela segregação socioespacial como São Paulo, essas diferenças se acentuam.

Um estudo liderado pelo meu colega Alex Florindo, da USP, procurou investigar se a combinação de diferentes marcadores de vulnerabilidade social, avaliada pelo índice de Jeopardy, estaria associada à atividade física no lazer e para transporte ao longo de dez anos. A distinção importa: exercitar-se ou caminhar por lazer envolve escolha e traz os maiores ganhos físicos e mentais; caminhar para chegar ao trabalho também pode fazer bem, mas para muitos não é escolha, e sim a única mobilidade possível.

A prática de atividade física no lazer subiu de 38,0% em 2014–15 para 51,4% em 2023–24, e a caminhada para transporte, de 61,8% para 71,6%. O principal achado veio à tona quando os cientistas incorporaram a dimensão social. Quanto maior a desvantagem acumulada, menor a prevalência de atividade física no lazer. No início do estudo, 51% do grupo menos vulnerável praticava atividade no lazer, contra 29% do grupo mais vulnerável. Dez anos depois, a diferença havia aumentado: 65% versus 39%, respectivamente.

Ser mulher, pertencer a um grupo racial ou étnico minoritário e ter baixa escolaridade esteviveram associados às menores prevalências. No outro extremo, entre os que mais se exercitam, os executivos do começo desta coluna: homens brancos com diploma. Vale dizer que a vulnerabilidade não se associou à atividade física como transporte, a sugerir que a desigualdade só aparece onde há escolha.

Daí se tira importante lição: não basta recomendar que as pessoas sejam mais ativas no lazer. É preciso criar condições materiais para que a recomendação possa ser seguida, com ações articuladas de saúde, educação, planejamento urbano, transporte, segurança e proteção social, priorizando os mais vulneráveis.

No caminho da ação coletiva, todavia, há a racionalidade neoliberal que gesta os sujeitos-empresas, fadados a competir entre si e consigo mesmos. Faceiramente, converte condições socialmente desiguais em responsabilidades pessoais. E assim faz crer que o dia de um CEO de multinacional e o de uma faxineira periférica têm as mesmas 24 horas.


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Informação

Folha de São Paulo

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