Saúde

O problema do ‘meio amigo’, aquele que não é o mais próximo, mas não é só um conhecido

A maioria de nós mantém um inventário mental informal de nossas amizades, separando aqueles mais próximos de nós, nossos íntimos, de nossos conhecidos. Meu amigo R. uma vez foi um passo além. Ele classificou seus amigos em um documento em seu computador. (R. pediu que eu usasse sua primeira inicial aqui por uma questão de decoro, sabendo que é tabu reconhecer até mesmo a existência de tal lista, muito menos divulgar aos amigos suas posições nela.)

Quando jovem, R. se viu insatisfeito com sua vida social, que o mantinha ocupado, mas insatisfeito, e ele construiu sua hierarquia de amigos para diagnosticar o motivo. Ele descobriu que tinha um pequeno grupo de amigos de primeira linha, com quem estava feliz em passar tempo sob quaisquer circunstâncias. E ele tinha um grande número de conhecidos. Mas os amigos que lhe causavam mais conflitos —bem como mais angústia interna, anseio, ansiedade e culpa— eram aqueles situados nos níveis intermediários. Chame-os de “meio amigos”.

Como exemplo, R. me contou sobre uma certa amiga. Eles eram próximos durante a faculdade, mas aos 30 anos se afastaram. Não houve desentendimento, nenhuma razão identificável para a amizade deles murchar. R. simplesmente não se sentia tão conectado a essa amiga como antes. E assim, sem malevolência ou mesmo intenção consciente, ele a rebaixou em seu baralho pessoal de amigos.

Quando a amiga de R. entrou em contato recentemente, pedindo seu apoio durante sua recuperação da dependência química, seu primeiro impulso foi se sentir sobrecarregado —então incomodado com sua própria irritação. “Ela não estava pedindo nada, na verdade”, disse R. Mas ela estava contando com ele de uma maneira que parecia muito pesada, dada a natureza de sua amizade, e ele relutou sobre como estar lá para ela. Ele não reservou um voo para visitá-la. Ele nem mesmo ligou para ela. Ele percebeu que não estava fazendo essas coisas e sentiu uma autoreprovação.

Emily Langan, professora de comunicação no Wheaton College que estuda amizade, descreveu esse sentimento como, “Eu não estou disposto a ir até lá, e me sinto meio mal por não ir até lá”. E “nós simplesmente não somos esse tipo de amigo”.

Meio amigos são amigos genuínos. Vocês compartilham história (como a mesma faculdade), circunstâncias (um empregador) ou interesses (piadas ácidas, brechós ou jogar squash). Eles fazem você rir, trazem notícias, oferecem insights ou expertise. Mas, ao contrário dos amigos mais próximos, os amigos intermediários testam os limites de seu tempo, amor e energia.

E esse é o problema com os meio amigos, as linhas invisíveis que você desenha ao redor deles sem nunca ser explícito —para eles ou até mesmo, possivelmente, para você. A tensão embutida na nesse tipo de amizade é essa ausência de clareza, permitindo a possibilidade do que Claude Fischer, um sociólogo da Universidade da Califórnia, Berkeley, referiu em uma entrevista como “expectativa assimétrica”: você pode gostar menos (ou mais) de seu meio amigo do que ele gosta de você. Com um amante, parceiro ou um amigo muito próximo, você pode negociar desequilíbrios, discutir feridas ou traições. Mas de alguma forma tais conversas parecem impossíveis no âmbito dessa amizade.

Os silêncios ansiosos em torno da amizade intermediária são reconhecíveis para qualquer pessoa que já mentiu sobre a duração de uma viagem de negócios para adiar um compromisso no calendário, e para qualquer pessoa que ouviu “vou te ligar” muitas vezes. Os riscos aumentam em crises ou celebrações, quando a falta de clareza —e qualquer desequilíbrio— se revela.

Em uma emergência pessoal, o círculo íntimo sabe correr para ajudar, enquanto os conhecidos se sentem seguros para lamentar à distância. Mas as pessoas intermediárias orbitam de forma instável, incertas de suas obrigações sobre como, quando ou até mesmo se agir.

Quando um meio amigo fica doente, você se oferece para acompanhá-lo a uma ressonância magnética, entregar um molho à bolonhesa ou não faz nada? Onde está a linha entre bolonhesa e nada? O meio amigo pertence ao leito de morte, oferecendo abraços? Ou uma ligação telefônica seria suficiente?

UMA AMBIGUIDADE EDUCADA, MAS EGOÍSTA

Os estudiosos que estudam redes sociais tentaram classificar as camadas de amizade. “Melhor amigo”, “próximo”, “bom”, “casual” e “conhecido” é uma taxonomia que eles usam. “Grupo de apoio”, “grupo de simpatia”, “grupo de amizade”, “companheiros” e “conhecidos” é outra. Esses pesquisadores imaginaram redes de amigos como uma pirâmide, com amigos próximos e familiares no topo e todos os outros classificados e ordenados abaixo. Outra forma de classificação é com círculos concêntricos, “como ondulações em um lago”, em que pessoas mais próximas ficam no centro, diz o psicólogo evolucionista de Oxford, Robin Dunbar; ou como um comboio, com certas pessoas acompanhando um indivíduo ao longo da vida, e outras ficando para trás, fora do cortejo.

Dunbar diagramou extensivamente a amizade, com suas descobertas resumidas em seu livro “Friends: Understanding the Power of our Most Important Relationships” (Amigos: Entendendo o Poder de Nossos Relacionamentos Mais Importantes, em português), publicado em 2022. Em um artigo amplamente citado de 1993, ele postulou que os humanos têm a capacidade cerebral de manter cerca de 150 amizades, com cinco ou seis no núcleo (incluindo certos membros da família).

“Essa malabarismo que você tem que fazer entre todas essas pessoas, é muito complexo”, diz Dunbar. “Você não quer traçar linhas muito rígidas.”

O silêncio em torno do meio amigo é destinado a proteger os sentimentos dos outros. Alguém se refere a você como um “amigo do trabalho”, e você pensa, eu achava que éramos mais próximos do que isso. Você descobre uma gravidez no Instagram e fica chateado por não ter ouvido diretamente.

Essa desigualdade nos confunde e nos fere, nos deixando impotentes, irritados ou autocríticos. Mas não temos recurso. “Sabemos que quando há um problema em uma amizade, as pessoas tendem a ser muito passivas, relutantes em trazer à tona questões negativas que possam causar conflitos”, afirma Beverley Fehr, psicóloga social da Universidade de Winnipeg.

Dunbar especula que a ambiguidade em torno da manutenção da amizade de nível médio pode ser educada, mas também egoísta. Sua pesquisa mostrou que as pessoas movem amigos para fora do círculo mais íntimo extremamente lentamente, cerca de um por década. Especialmente aquelas amizades estabelecidas nos anos da faculdade que “parecem ser tão sólidas que nada neste mundo as mudará”, diz ele. São as amizades em que você pode retomar de onde parou, sem manter muito contato.

Mas no nível intermediário, há muita rotatividade. Jovens adultos tendem a trocar 30% a 40% de seus amigos do tipo anualmente, diz Dunbar, e embora esse ritmo diminua com a maturidade, o princípio permanece. Você rebaixa amigos quando seus filhos mudam de escola. Ou quando você muda de emprego ou se muda. E você os promove quando se vê compartilhando uma nova experiência: ambos estão se divorciando, têm um pai doente.

Não somos explícitos sobre as regras básicas com nossos amigos de nível intermediário da mesma forma que somos com nossos melhores amigos ou amantes porque queremos evitar sentimentos feridos, sim. Mas também “porque você pode querê-los de volta em dois anos”, afirma Dunbar. Queremos manter nossas opções em aberto.

PODE MENOS ‘BOM’ SER MELHOR?

Meio amigos podem ser vistos não como inferiores aos melhores amigos, mas como encantadores e benéficos em seus próprios termos: uma parceria de tênis bem combinada; um vínculo sobre câncer de mama; uma dinâmica de mentoria; um amigo de infância redescoberto; um companheiro de jogos no exterior. Livres da pressão de serem “bons”, a amizade pode florescer e servir a cada pessoa como é.

No seu melhor, uma amizade de nível intermediário pode ser “quase libertadora, sem um grande senso de obrigação”, diz Fehr, da Universidade de Winnipeg. Ela aponta para pesquisas recentes mostrando que “em um casamento ruim, ter bons amigos sustentará seu bem-estar”, e outros estudos mostrando que um grupo de amigos amplo e diversificado composto por laços fracos e fortes é o ideal. Ela chamou isso de “não colocar todos os seus ovos em uma cesta de relacionamento”.

Os benefícios emocionais e psicológicos da amizade de nível intermediário não foram estudados, mas Fehr acredita que são consideráveis.

Informação

Folha de São Paulo

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