O que há de ético em atrasar 40 anos terapia com MDMA?

Um soco no estômago da plateia, seguido de vários sorrisos: eis o resumo da fala de Patty Birkhoff na Conferência Internacional sobre Pesquisa Psicodélica (ICPR26), encerrada sábado (6) em Haarlem (Holanda). Sim, é possível voltar a rir após um trauma horroroso, e psicoterapia com MDMA pode ajudar nisso.
Quem vê a oficial de polícia científica falar com serenidade do acidente de uma década atrás quase não acredita no que ouve. Com 22 anos em atividade ela havia periciado dezenas de cenas de morte em Amsterdã, não sem prejuízo emocional. Mas nada que a preparasse para o que encontrou nos trilhos do metrô.
Ao levantar o tecido que cobria o corpo da ciclista atropelada, deu com o rosto de sua irmã. Um episódio de dissociação completa a fez continuar trabalhando no sinistro, mas nas semanas seguintes o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) se materializou em vários sintomas, da insônia ao pânico de sair na rua.
A investigadora passou por mais de um tipo de terapia, sem sucesso, contou na ICPR26 a Joost Breeksema, anfitrião da conferência, e Tijmen Bostoen, psiquiatra. Foi com Bostoen que Birkhoff se tornou a primeira voluntária de um teste clínico com MDMA (ecstasy) na Holanda, um ensaio de fase 2 que abrangia 11 sessões de psicoterapia, duas delas com dose de MDMA.
Na primeira, ela pairou sobre a cena da morte da irmã. Bostoen sugeriu que tentasse pousar, e ela o fez, traçando depois um desenho projetado no telão da Phiharmonie de Haarlem: dois pares de pernas sobre os trilhos, as dela e as da moça morta. Voltar à cena permitiu que se despedisse da irmã, enfim.
Na segunda sessão com MDMA, o atropelamento aparece mais periférico noutro desenho: a policial está agora na cena principal, entre duas arquibancadas, com três vítimas de outras acidentes que havia periciado, como a de uma menina morta. Todos estavam ali para lhe dar apoio, contou, como havia feito na ICPR24 (vídeo disponível para associados da Open Foundation).
“Antes da sessão [com MDMA] não havia espaço para luto”, disse com serenidade na ICPR26. À pergunta de Breeksema sobre estar curada, reagiu com franqueza: “Curada o bastante para viver de novo, mas com limitações”.
Além de estudos experimentais como esse na Holanda, são raras as oportunidades para tentar a cura com MDMA. Países como a Suíça admitem tratamento sob responsabilidade de médicos com licença especial, que expira em um ano.
Em 2025, apenas 113 suíços com TEPT tiveram acesso à terapia, informou na ICPR26 Helena Aicher. Josh Hardman, do boletim Psychedelic Alpha, estimou em cerca de 20 mil as pessoas submetidas legalmente a substâncias psicodélicas, a maioria (17 mil) no Oregon (EUA), onde a psilocibina de cogumelos foi regulamentada –e custa caro.
A psicoterapia com MDMA era legal até 1985, quando veio a proibição do composto nos EUA. Quatro décadas se passaram até que a empresa Lykos submetesse dados de seus testes de fase 3 para aprovação da agência de fármacos FDA, que entretanto a recusou em 2024.
O caso de Birkhoff recairia, pelo jargão da medicina baseada em evidências, na categoria de evidência anedótica. Mas serve de mote para questionar: o que há de ético em atrasar por 40 anos um tratamento para ajudar mais de 300 milhões de pessoas com TEPT no mundo?
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Informação
Folha de São Paulo



