Saúde

O que são e como funcionam testes de idade biológica

Quantos anos você tem? Quantos anos você sente que tem? Esses dois números são iguais? Testes de idade biológica validam o que muitos de nós percebem intuitivamente: nossas células nem sempre coincidem com nossas certidões de nascimento.

À medida que esses testes evoluem ao longo da última década, pesquisadores da longevidade começam a usá-los para identificar quais comportamentos e condições fazem as pessoas envelhecerem mais rápido e se existem intervenções capazes de desacelerar esse processo.

Embora os testes tenham sido desenvolvidos para uso em pesquisas de laboratório, cada vez mais consumidores desembolsam de centenas a milhares de reais para empresas de bem-estar e longevidade a fim de revelar sua “verdadeira” idade.

Veja o que especialistas dizem que os testes podem revelar —e quando, se é que em algum momento, vale a pena fazer um.

Um conceito promissor

Testes de idade biológica afirmam informar como seu corpo está se saindo ao indicar a qual idade os resultados do seu exame de sangue mais se assemelham.

“De certa forma, quando a idade biológica é maior que a idade cronológica, você corre alto risco de ter desfechos de saúde adversos”, diz Luigi Ferrucci, diretor científico do Instituto Nacional sobre Envelhecimento. “Quando sua idade biológica é menor que a idade cronológica, você está, de certo modo, protegido contra esses desfechos de saúde.”

Os testes mais proeminentes buscam modificações no genoma —um processo chamado metilação do DNA— que influenciam se determinado gene está ativo ou não.

A descoberta de que algumas dessas modificações ocorrem de forma previsível com a idade leva ao desenvolvimento do “relógio” de Horvath em 2013, pelo geneticista Steve Horvath, amplamente considerado o primeiro teste de idade biológica.

Hoje, existem três “gerações” desse tipo de teste. A primeira geração —o relógio de Horvath e outros semelhantes— está “literalmente prevendo qual deveria ser sua idade com base na sua metilação do DNA”, diz Raghav Sehgal, pesquisador principal no Instituto Marcus para Pesquisa do Envelhecimento, afiliado à Escola de Medicina de Harvard.

“Então ele diz que sua metilação do DNA se parece com a de uma pessoa de 20 anos, ou com a de uma de 40 anos.”

Os relógios de segunda geração, com nomes como PhenoAge e GrimAge, surgem cerca de cinco anos depois e buscam locais de metilação associados ao risco relativo de mortalidade de uma pessoa.

Os resultados são dados novamente como uma idade, com base em se o risco de morte de uma pessoa se parece mais, por exemplo, com o de uma pessoa média de 50 anos ou com o de uma de 70 anos.

Relógios de terceira geração, como o DunedinPACE, lançado em 2022, medem a velocidade com que alguém está envelhecendo.

Pesquisadores usam a analogia de um carro para descrever as diferenças entre os testes: os modelos de primeira e segunda geração agem como um odômetro, medindo sua idade ou proximidade da morte. Os testes de terceira geração agem como um velocímetro.

Os relógios de primeira geração “colocam este campo no mapa, o tornam famoso e continuam sendo provavelmente os mais conhecidos”, diz Daniel Belsky, professor associado de epidemiologia na Escola Mailman de Saúde Pública da Universidade Columbia, que desenvolveu o DunedinPACE.

Mas os relógios de segunda e terceira geração se mostram mais informativos quando o assunto é prever a saúde de longo prazo.

Esses relógios mais novos também são mais sensíveis a comportamentos e tratamentos relacionados à saúde, diz Sehgal. Em um estudo recente, ele compara 16 testes de idade biológica entre si.

Os relógios de segunda e terceira geração apresentam maior probabilidade de mudar em resposta a várias intervenções relacionadas à longevidade, como dietas e medicamentos.

Alguns gargalos a resolver

Mesmo com os melhores testes, existem preocupações sobre precisão e confiabilidade, especialmente quando os testes são usados em nível pessoal.

Albert Higgins-Chen, professor assistente de psiquiatria e patologia na Escola de Medicina de Yale, diz que fatores como hora do dia, momento da última refeição ou a qualidade do sono na noite anterior parecem influenciar os resultados.

Este não é um problema exclusivo dos testes de idade biológica, mas é algo que os cientistas precisam descobrir como gerenciar, e que as pessoas podem precisar levar em consideração ao fazer um teste.

Morgan Levine, que desenvolve o PhenoAge enquanto atua como pesquisadora de pós-doutorado na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, destaca que, se você fizer múltiplos testes de idade biológica, cada um dará uma resposta diferente.

Isso ocorre em parte porque os testes medem coisas ligeiramente diferentes. Mas também porque foram desenvolvidos usando conjuntos de dados distintos para estabelecer como é a “média” para qualquer idade.

“Não acho que as pessoas devam dar tanta ênfase a esse número que estão recebendo”, diz Levine, que atualmente lança uma startup de biotecnologia de inteligência artificial (Levine desenvolve e licencia outro teste de idade biológica com Sehgal e Higgins-Chen).

Para Mohammad Arfan Ikram, professor de epidemiologia no Centro Médico Erasmus, em Rotterdã, a maior limitação dos testes é que eles não dizem o que pode estar errado no corpo para causar uma idade mais elevada, tampouco como resolver o problema.

Voltando à metáfora do carro, Ikram destaca que apenas saber que um carro tem 100 mil milhas (cerca de 16 mil quilômetros) rodadas não diz se os freios, o motor ou a embreagem vão falhar primeiro.

Essa questão decorre em parte do que os testes medem: quando cientistas isolam o DNA de uma amostra de sangue, estão testando apenas o DNA dos glóbulos brancos.

“Você pode medir as alterações nessas células sanguíneas”, diz Tony Wyss-Coray, professor de neurologia e ciências neurológicas em Stanford, mas “não vê alterações que possam estar acontecendo nos neurônios do seu cérebro, nas células do fígado ou no pâncreas.”

Para tentar resolver isso, em vez de olhar para o DNA, Wyss-Coray e outros pesquisadores passam a testar amostras de sangue em busca de milhares de proteínas liberadas por diferentes tecidos. Isso permite avaliar como múltiplos tipos de células ou órgãos estão se saindo, em vez de inferir a saúde geral de alguém apenas pelos glóbulos brancos.

Alguns especialistas acreditam que essa abordagem fornecerá informações mais valiosas e aplicáveis, pois, embora a ideia de resumir a saúde de todo o seu corpo em um único número seja sedutora, é provavelmente mais útil, sob o ponto de vista médico, saber qual órgão causará problemas primeiro.

No entanto, essa técnica é mais cara e não está amplamente disponível para o público. (Wyss-Coray é cofundador de uma empresa voltada diretamente ao consumidor que planeja vender o teste nos próximos dois anos).

Para que eles servem

Apesar das limitações dos testes, os especialistas dizem que eles podem ser ferramentas de pesquisa valiosas quando usados para avaliar grandes conjuntos de dados. Por exemplo, cientistas utilizam os testes como uma nova forma de quantificar como experiências de vida, como a gravidez ou a perda de um ente querido, afetam a saúde das pessoas.

Talvez o ponto mais promissor seja que os testes podem ser usados para avaliar, em um curto período, se um medicamento ou outra intervenção estudada em um ensaio clínico é capaz de desacelerar o envelhecimento.

Este é um grande benefício para a pesquisa sobre longevidade, já que acompanhar alguém por décadas para descobrir se um tratamento alterou sua expectativa de vida não é viável.

Os testes já são usados para esse fim em alguns ensaios, incluindo um que examina os potenciais benefícios para a saúde de suplementos comuns e outro que avalia se a restrição calórica pode melhorar a longevidade em humanos.

Mas, em alguns casos, os testes levantam mais perguntas do que respostas. No ensaio com suplementos, por exemplo, a intervenção desacelera significativamente alguns dos relógios de idade biológica, mas não afeta métricas de saúde mais concretas, como a pressão arterial.

Belsky, que participa do estudo, levanta a hipótese de que essa discrepância pode ter surgido porque os testes podem estar detectando mudanças sutis que emergem antes de sinais de doença mais estabelecidos.

Existe também a possibilidade de que os testes meçam algo relacionado ao envelhecimento ou à saúde que não faz diferença significativa se for alterado.

Por exemplo, os cabelos das pessoas ficam grisalhos e a pele ganha rugas à medida que envelhecem, mas corrigir qualquer uma dessas duas coisas não torna as pessoas mais jovens ou mais saudáveis.

Para os consumidores, o tempo dirá

Vários especialistas traçam um cenário otimista de um futuro em que as pessoas possam comprar e usar os testes para acompanhar a si mesmas a longo prazo e alertar sobre sinais precoces de declínio da saúde.

“Acho que os testes de idade biológica são a terra prometida da medicina preventiva”, diz Sehgal. Mas ele acrescenta: “Ainda não chegamos lá.”

Higgins-Chen vê um benefício potencial agora: consumidores podem escolher um teste e fazê-lo periodicamente para acompanhar sua pontuação à medida que envelhecem, ou depois de iniciar um novo medicamento ou rotina de saúde.

“O envelhecimento é um processo longitudinal que se desenrola ao longo de períodos muito longos”, diz ele, por isso o real benefício dos testes é detectar quando e como sua saúde muda ao longo dos anos.

Em geral, porém, os especialistas concordam que os testes disponíveis hoje diretamente ao consumidor, especialmente quando usados de forma isolada, não são tão informativos.

Para Ikram, as pessoas se saem melhor fazendo testes tradicionais de consultório médico, como os de colesterol e glicose. “Isso já dá uma imagem muito melhor” e identifica coisas “nas quais você pode intervir diretamente”, diz ele.

Na melhor das hipóteses, os testes de idade biológica podem dar uma compreensão superficial da sua saúde, diz Levine. “Pessoas que geralmente pontuam mais baixo apresentam um sinal, em certo grau, de que provavelmente são mais saudáveis do que as pessoas que geralmente pontuam alto.”

Mas ela acrescenta que a maioria das pessoas já tem uma noção aproximada de quão saudável é. Se você se exercita, come uma dieta equilibrada e não fuma, sua pontuação de idade biológica provavelmente será menor —e você provavelmente já sabe disso.

Informação

Folha de São Paulo

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