Saúde

O que você precisa saber sobre o uso de betabloqueadores contra ansiedade, segundo médicos

Ansioso antes de uma grande entrevista de emprego? Preocupado em dar um discurso? Nervoso para o primeiro encontro?

A solução, sugerem algumas startups digitais, é um betabloqueador, um tipo de medicamento que pode diminuir a frequência cardíaca e a pressão sanguínea —mascarando alguns dos sintomas físicos da ansiedade.

Normalmente, uma visita ao consultório médico seria necessária para obter uma prescrição, mas várias empresas conectam diretamente pacientes a médicos para consultas virtuais rápidas, enviando a medicação para as casas das pessoas.

“Sem mais ‘Tremedeira e Suor'”, prometeu um anúncio online. “Fácil e rápido, 15 minutos.”

Isso preocupa Yvette Sheline, professora de psiquiatria na Escola de Medicina Perelman da Universidade da Pensilvânia.

“A primeira pergunta é: O que está acontecendo com essa pessoa?”, afirma Sheline. “Eles estão deprimidos além de ansiosos? Eles têm ansiedade crônica ou é apenas um caso temporário de nervosismo? Você não quer prescrever um medicamento errado”, acrescentou.

Além disso, embora os betabloqueadores sejam geralmente considerados seguros, os especialistas dizem que eles podem ter efeitos colaterais desagradáveis, e devem ser usados com cautela.

O que são betabloqueadores?

Betabloqueadores como o cloridrato de propranolol foram aprovados pela FDA (Agência de Drogas e Medicamentos americano) para dores no peito, prevenção de enxaquecas, tremores involuntários, arritmias cardíacas e outros usos.

Alguns ainda são prescritos para hipertensão, embora não sejam mais considerados o tratamento ideal, principalmente porque outros medicamentos são mais eficazes na prevenção de AVCs (acidente vascular cerebral) e morte.

Os betabloqueadores podem aliviar os sintomas físicos da reação “lutar ou fugir” ao estresse, como tremores, mãos suadas ou coração acelerado, mas não são aprovados pela FDA para tratar transtornos de ansiedade.

Por décadas, os médicos os prescreveram para usos diferentes daquilo que foram aprovados, incluindo para ansiedade de se apresentar em público (“nervosismo” de palco). Recentemente, famosos como Robert Downey Jr. e Khloé Kardashian disseram que os medicamentos os ajudaram a superar a ansiedade pública.

Como eles funcionam?

Quando começamos a nos sentir ansiosos ou estressados, nossos corpos produzem adrenalina, que nos prepara para responder a um perigo percebido. O hormônio sinaliza para o coração bater mais rápido e estreita nossos vasos sanguíneos para redirecionar o sangue para órgãos importantes, como o coração e os pulmões. A respiração acelera e começamos a suar.

Os betabloqueadores funcionam “bloqueando” os efeitos da adrenalina. Eles fazem o coração bater mais devagar e com menos força, o que ajuda a baixar a pressão sanguínea.

Mas se você estiver se sentindo especialmente ansioso, “sua mente ainda vai correr, você ainda vai ficar remoendo e se preocupando”, diz Regine Galanti, psicóloga em Cedarhurst (Nova York), que trata pessoas com transtornos de ansiedade.

Em outras palavras, os betabloqueadores não vão abordar a raiz de seus medos. “Se isso se tornar como uma coisa semanal, ‘estou tendo dificuldades neste curso, vou simplesmente tomar um betabloqueador toda vez.’ Eu diria, ‘Qual é o objetivo a longo prazo?'” afirma.

Os pacientes geralmente recebem apenas algumas pílulas para situações específicas em que possam experimentar ansiedade pública, explica Joseph Bienvenu, professor de psiquiatria na Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins. Mas algumas empresas online distribuem até 48 comprimidos de uma vez.

Existem efeitos colaterais?

Sim. Os betabloqueadores podem fazer as pessoas sentirem tontura. Outros efeitos colaterais potenciais incluem fadiga, mãos ou pés frios, dificuldade para dormir e pesadelos. Eles também podem causar problemas estomacais como náuseas ou diarreia e, menos frequentemente, dificuldade para respirar.

Por isso, alguns médicos dizem aos seus pacientes para evitar tomá-los pela primeira vez no dia de um grande evento.

Bienvenu aconselha os pacientes a experimentarem a medicação inicialmente no fim de semana, ou “quando não tiverem mais nada para fazer.”

“Eu só quero que as pessoas saibam como isso vai afetá-las”, afirma.

Está tudo bem tomá-los para uma situação de nervosismo, como uma grande apresentação?

Possivelmente. Mas os especialistas sugeriram visitar primeiro um médico de atenção primária.

Os betabloqueadores podem não ser recomendados para algumas pessoas com diabetes, pressão baixa ou bradicardia, que é uma frequência cardíaca lenta —ou pessoas com asma ou outra doença pulmonar. E certos medicamentos, incluindo alguns para colesterol e doenças cardiovasculares, podem interagir com eles.

Médicos online não têm todo o seu histórico médico e não o examinaram pessoalmente, disse Arthur Caplan, professor de bioética na Escola de Medicina Grossman da N.Y.U.

Sem um exame físico, alguns pacientes podem não saber que têm um problema subjacente como um batimento cardíaco irregular, ele acrescentou. E eles podem não saber a quem ligar se tiverem dúvidas após obter uma prescrição.

“Você precisa ser monitorado com esses tipos de medicamentos”, explica. Para aqueles que frequentemente enfrentam tarefas que causam ansiedade, como falar em público, os especialistas disseram que pode ser mais benéfico tentar técnicas de respiração ou terapia de exposição, que envolve confrontar diretamente o que nos deixa ansiosos para quebrar um padrão de medo e evitação.

“Esconder os sintomas da sua ansiedade não vai te ensinar a lidar com os sintomas da sua ansiedade”, diz Galanti.

Informação

Folha de São Paulo

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