Política

O Santos F.C. e a COP28

“Como você faliu?”

“De duas maneiras. Gradualmente, e depois subitamente.”

Acredito que a frequência com que esse diálogo do romance “O Sol Também se Levanta”, de Hemingway, é citado deva-se não apenas à sua originalidade, humor e concisão mas principalmente ao fato de que a sequência “gradualmente e depois subitamente” se aplica a várias situações.

Ainda há poucos dias, um fato particularmente doloroso para mim enquadrou-se perfeitamente no figurino: o rebaixamento do Santos F.C. para a Série B do Campeonato Brasileiro. Certamente não cabe buscar a explicação para o desastre nos gols perdidos contra o Fortaleza no dia 6, nem mesmo nas acachapantes derrotas nas três últimas partidas do campeonato.

O rebaixamento vinha se avizinhando gradualmente ao longo de vários anos de gestões ineptas, más contratações, descontinuidade e quase a lista completa de mazelas que podem afligir a condução de qualquer empresa.

Entre as emoções que animaram os torcedores aos atos de vandalismo que atravessaram a madrugada santista, uma não se justificava: a surpresa. Era “bola cantada”.

O fato faz pensar em quantos processos de degradação podem estar em marcha gradual, sem que nos apercebamos, ou —melhor dito— permitindo que ignoremos a decadência para não ocupar nossa mente com pensamentos desagradáveis.

Em qualquer fase da vida, se examinarmos nossas atividades profissionais, nossas relações afetivas, projetos antigos, muito possivelmente encontraremos razões para questionar se neste, ou naquele caso específico, não estará ocorrendo um lento declínio.

Compreender suas causas talvez nem sempre seja suficiente para evitar o desenlace, mas ao menos permite que nos tornemos agentes conscientes na sua condução.

Mesmo em situações nas quais o final é iniludível —como se dirigiu Manuel Bandeira à “indesejada das gentes”, a morte—, a consciência dos mecanismos que atuam sobre nossa saúde nos permite influenciar decisivamente o prazo e as condições em que o atingiremos. Nesse domínio, o “súbito”, a surpresa, devem ficar reservados para as exceções.

Mas, se enquanto seres humanos não há como escapar à morte, o mesmo não se aplica à humanidade em seu conjunto. Os recursos intelectuais que tornaram o homem a espécie dominante sobre a Terra devem ser suficientes também para assegurar a continuidade da espécie.

Essa crença tem sido posta à prova pela forma como evoluem “gradualmente” as ameaças ao planeta.

Poucas horas antes do drama na Vila Belmiro, foi divulgado na Conferência do Clima (COP28), em Dubai, o Global Tipping Points Report (relatório global sobre pontos de não retorno), coordenado pela Universidade de Exeter.

O texto alerta para a iminência do desencadeamento de fenômenos climáticos irreversíveis “representando riscos de magnitude jamais enfrentada pela humanidade” segundo seu coordenador.

Esses fenômenos “incluem o colapso das grandes calotas de gelo da Groenlândia e da Antártida Ocidental, o degelo generalizado do permafrost, a morte dos recifes de coral em águas quentes e o colapso de uma corrente oceânica no Atlântico Norte”.

As descrições do relatório provocam a desagradável sensação de que, à medida que as mudanças se intensificam, podemos migrar do território do “gradual” para entrar no “súbito”.

No entanto, até a véspera do encerramento da COP28, tudo indicava que o mundo seguiria sua trajetória suicida de priorizar interesses financeiros imediatos sobre a necessidade imperiosa de conter o processo de aquecimento global, através da redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE), três quartos das quais devem-se à queima de combustíveis fósseis (carvão, gás e derivados do petróleo).

A minuta, divulgada aos 45 do segundo tempo, convidava a “tomar iniciativas que poderiam incluir a redução de consumo e produção de combustíveis fósseis”. Apesar de mencionar pela primeira vez o termo “combustíveis fósseis”, fazia a recomendação parecer um cardápio, no qual os países poderiam optar, ou não, por restringir a produção e o uso de petróleo e seus derivados.

Al Gore, que há mais de 20 anos alerta para os riscos climáticos, disse sobre o documento: “É profundamente ofensivo para todos os que levaram esse processo a sério”.

O representante de um dos países insulares do Pacífico acrescentou dramaticamente: “Não desceremos silenciosamente aos nossos túmulos aquosos”. A indignação provocada pela minuta foi de tal ordem que provocou uma prorrogação de quase 24 horas na reunião.

No encerramento dos trabalhos da COP, na quarta-feira (13), os céticos —eu inclusive— foram surpreendidos com o anúncio de um acordo aprovado por 200 países, que pela primeira vez insta todas as nações a abandonar os combustíveis fósseis “de forma justa, ordenada e equitativa, acelerando a ação nesta década crítica, de modo a atingir zero emissões até 2050”.

Na prática, ao longo dos próximos dois anos, todas as nações deverão apresentar um plano formal e detalhado, explicitando como reduzirão suas emissões de GEE até 2035.

O acordo não é perfeito, não tem força de lei e várias nações fazem restrições a ele, o que é de esperar em um compromisso envolvendo tantas partes com interesses distintos.

Há razões para celebrar, após 30 anos, a inclusão dos combustíveis fósseis no texto final, mas resta muito a fazer. Talvez “além do esperado, aquém do necessário” seja a expressão que melhor reflita o resultado da reunião.

O Brasil esteve distante das manchetes internacionais durante a COP, a não ser pelo evento pouco edificante da adesão à Opep+. Não duvido, porém, que nossos representantes tenham atuado fortemente nos bastidores, como é muitas vezes o estilo do Itamaraty. Creio que o país deva lamentar apenas a pouca ênfase dada à questão das “soluções baseadas na natureza” para captura de GEE, durante a reunião.

De todas as formas, o progresso alcançado na reunião permite sonhar, em duas ou três décadas, o seguinte diálogo entre a atmosfera e os combustíveis fósseis:

“Como vocês foram descontinuados?”

“De duas maneiras. Gradualmente, e depois subitamente”.

Folha de São Paulo

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