Política

Onda antipetista, mais do que entusiasmo por Flávio, inunda igrejas evangélicas

A bispa Sonia Hernandes tem o costume de abrir uma caixinha de perguntas em seu Instagram. No sábado (3), véspera do primeiro turno da eleição que contrapõe Lula (PT) a Flávio Bolsonaro (PL), uma fiel compartilhou algo que a afligia: “Meu namorado é esquerdista e fica me chamando de ‘minha Janja’. Eu não gosto!!!”.

A líder da Renascer em Cristo riu e questionou se o rapaz a ama mesmo. Horas depois, Sonia também sorria enquanto seu marido, o apóstolo Estevam Hernandes, com jaqueta da seleção no púlpito, dizia profetizar que “o Brasil vai ser transformado, amém”. Estevam levantou a bandeira nacional e, na manhã seguinte, intercedeu na internet por Flávio para “ver o Brasil feliz de novo”.

A algo prosaica citação de Sonia à primeira-dama, somada ao afã patriótico com invólucro bolsonarista, serve de sismógrafo para a onda antipetista que continua desaguando em muitas igrejas. O primogênito pode não despertar a devoção quase religiosa que Jair Bolsonaro (PL) cultivou no segmento, mas se beneficia diretamente de uma rejeição a Lula que permanece em alta nos templos.

Os dias que antecederam a votação deste domingo (4) ilustram bem a animosidade contra um presidente que, em suas duas primeiras campanhas vitoriosas, teve 2 em cada 3 votos evangélicos —pesquisas lhe dão hoje em torno de 30% da predileção nas urnas.

Pastores graúdos, que influenciam vários fiéis para além de suas igrejas, mantêm postura movida menos por simpatia a Flávio e mais pelo objetivo comum de barrar a esquerda. Cláudio Duarte pregou aos seus 10,7 milhões de seguidores no Instagram a “oportunidade de estabelecer uma resistência contra um sistema que quer se perpetuar”, o que daria para fazer “sem briga”. Basta “não votar 13” e “tomar a decisão de escolher alguém que pode vencer”.

O reverendo Augustus Nicodemus Lopes, referência no presbiterianismo, lembrou a passagem em Romanos 13:1-7 que orienta sujeição a governantes, pois “não há autoridade que não venha de Deus”. A frase, historicamente usada para justificar apoio ao eleito da vez, ganhou uma ressalva de explícito viés anti-Lula.

“Agora, se a autoridade constituída não está promovendo bem-estar, segurança, tranquilidade, meios de darmos o pão, se representa uma ameaça à liberdade de expressão da igreja, então a gente pode orar de maneira precatória para que Deus derrube e coloque outro no lugar.”

O pastor Samuel Vagner, pregando na Igreja Batista da Lagoinha em Alphaville, foi um dos mais virulentos. Desancou “esse cão desse presidente que falou mal da Lagoinha” e praguejou: “Lava tua boca, endemoniado”.

Dias antes, em Belém, Lula disse que “a única igreja mentirosa é aquela da Lagoinha, daquele pastor chamado Valadão, que era sócio do Vorcaro”. Falava de André Valadão, próximo a Daniel Vorcaro e líder da denominação na qual também pastoreava Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro e preso, assim como ele.

André Fernandes, pastor que saiu da Lagoinha para abrir sua própria igreja, a Celeiro, também caiu em cima da esquerda: “Domingo é dia de rompermos com uma herança maldita do marxismo cultural e socialismo no nosso país”.

Na véspera do 7 de Setembro, ele recebeu Flávio em sua “house of prayer” (casa de oração). Disse na ocasião que, se “em algum momento fizer do púlpito desta igreja comércio, que o Senhor pese sua poderosa mão sobre mim”. Mas, enquanto fosse “voz profética nessa nação”, não se furtaria a compartilhar sua opção nas urnas: aquele que “tem chance de vencer pela direita”, Flávio.

O tom exaltado se repetiu com Valnice Milhomens. “Não haverá inferno que impeça o mover de Deus nesta nação”, declarou a apóstola, uma ex-entusiasta de Marina Silva (Rede) que se converteu ao bolsonarismo.

A Igreja Universal do Reino de Deus encerrou no sábado seu Desafio de Neemias, campanha que durou 52 dias e terminou na véspera do pleito, o que não foi tomado como acaso. Com alegado propósito espiritual de “restauração e construção dos valores cristãos, da fé e da proteção das famílias”, a iniciativa propôs desafios diários aos fiéis, que deveriam refletir sobre temas como fake news e falsos profetas.

O pastor Marcos Granconato, da Igreja Batista Redenção, afirmou que preferiria votar em Judas a Lula, caso o homem descrito como traidor de Jesus ressuscitasse. Judas, apesar de perverso, “pelo menos reconheceu o seu erro a ponto de se matar”, disse.

O pastor José Wellington Bezerra da Costa, do Ministério Belém da Assembleia de Deus, nunca foi tomado como simpático ao lulismo. Seu discurso nessa reta final das eleições, contudo, foi mais conciliatório do que o de muitos de seus pares. “Precisamos reaprender a respeitar as lideranças, as instituições e uns aos outros”, disse, evocando o versículo “bem-aventurados os pacificadores”.

O tsunami bolsonarista de 2022 nas igrejas evangélicas veio mais fraco neste ano, mas não dá para dizer que virou marolinha. E esse movimento não é pouca coisa. Com 3 em cada 10 eleitores, crentes se consolidaram como um dos ativos políticos mais cobiçados devido a uma expressiva expansão demográfica e à altíssima capacidade de mobilização. Contam com uma rede bastante capilarizada, estruturada fisicamente nos templos e amplificada por redes sociais de pastores como Silas Malafaia, ex-apoiador de Lula em pleitos passados que se tornou um canhão virtual contra o PT.

Embora católicos sejam maioria (5 em cada 10 brasileiros), seu comportamento social é mais pulverizado, inclusive pelo número de não praticantes. Fora que o Vaticano proíbe o engajamento partidário do clero. Mas também não dá para dizer que o discurso eleitoral passou ao largo desse outro bloco cristão.

O padre Júlio Lancellotti celebrou no domingo uma missa dedicada a Nossa Senhora Aparecida, escolha com patente lastro político. Também anunciou a venda de camisas com imagem da santa e a legenda “o Brasil tem mãe”, isso num momento em que Flávio é acusado, sem evidências, de querer demovê-la do posto de padroeira do país.

Dom Itacir Brassian, bispo de Santa Cruz do Sul (RS), publicou um texto em que aponta dois grupos seguindo “direções opostas”, um que ajudaria e outro que impediria “o desenvolvimento nacional, a autonomia das organizações civis e populares e a integração soberana do Brasil no concerto das nações”.

Há quem veja nesses critérios um alinhamento à esquerda, “e isso seria inaceitável para um cristão católico“, afirmou em artigo publicado no site da CNBB, atacada por Flávio. “Mas eu pergunto: é aceitável que um católico escolha […] candidatos que pleiteiam unicamente interesses privados, combatam os direitos humanos, relativizem a democracia e a soberania do país, tolerem a destruição do meio ambiente, submetam tudo aos interesses dos ricos e relativizem a dignidade inviolável do ser humano?”

Dom Adair José Guimarães, bispo da goiana Formosa, foi para a outra direção. Em homilia na Catedral de Brasília, pediu que Nossa Senhora “nos livre da peste da fome, da guerra e do comunismo, amém”.

Folha de São Paulo

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