Pagar congelamento de óvulos a atletas é louvável, mas só parte da solução
Anos atrás, congelei meus óvulos. Na época não se falava tão abertamente sobre o assunto, eu não conhecia ninguém que tinha feito o mesmo. Meu motivo foi o mesmo de grande parte das mulheres: adiar a tentativa da maternidade para focar na carreira.
Me senti bem-informada e apoiada pela clínica, achei o processo simples: exames de sangue e ultrassom, injeções de hormônio na barriga por alguns dias, coleta dos óvulos.
Essa pauta, felizmente, chegou ao esporte. Faz pelo menos cinco anos que clubes da liga norte-americana de futebol oferecem congelamento de óvulos gratuitos às atletas que têm o desejo de ser mães, mas não querem pausar a profissão.
O assunto voltou no mês passado, quando a Real Federação Espanhola de Futebol e o Chelsea, aqui na Inglaterra, anunciaram a mesma iniciativa. Neste mês, foi a vez de o São Paulo divulgar uma parceria com uma clínica de reprodução humana assistida.
Mas esse tema tem alguns “poréns”.
Em primeiro lugar, é claramente uma vitória para o esporte feminino. O congelamento de óvulos é uma ferramenta incrível, e é maravilhoso ver que, através da evolução da medicina, dá para ajudar tantas pessoas ao redor do mundo a realizarem o sonho da maternidade e paternidade. Só que, no esporte, só vai funcionar se for visto como parte de um pacote amplo de apoio.
As conquistas delas nos direitos reprodutivos são recentes e frágeis. As escolhas são ainda mais duras para as atletas, cujo auge da performance, aos 20 e 30 e poucos anos, coincide com o pico da fertilidade.
Só em 2021 o FIFPro, sindicato global de jogadores profissionais, e a Fifa, aprovaram o direito a 14 semanas de licença-maternidade com pelo menos dois terços do salário pagos, entre outros benefícios.
Isso depois que uma pesquisa de 2017 revelou que só 2% das jogadoras eram mães, e quase metade dizia que ia deixar o esporte para ter filhos, citando falta de auxílio. Ou seja, na prática, elas ainda perdem patrocínio, contratos, emprego. A discussão sobre direitos trabalhistas precisa continuar.
Além disso, pagar pelo congelamento é um ótimo começo, mas, idealmente, o apoio deveria ser até o fim, porque o processo inteiro é muito caro. Nos casos da seleção espanhola e do Chelsea, a ajuda financeira inclui a manutenção dos óvulos congelados, exames, consultas médicas, fertilização in vitro, programas educativos.
Educar, aliás, é fundamental. Congelar óvulos é uma tentativa, não uma garantia de sucesso, e vejo como às vezes a ideia é vendida como uma falsa solução mágica. As mulheres têm o direito de saber os riscos para seu corpo e seu futuro para que tomem uma decisão informada.
Por fim, no caso do esporte, é preciso que isso seja oferecido como uma opção, não uma forma de pressionar atletas, passar a impressão de que adiar é o único caminho ou que ela vai se tornar um problema para a equipe caso deseje ser mãe durante a temporada.
Clubes e federações precisam ser elogiados por iniciativas como essas. As atletas apoiam.
Mas não podem se esquecer de adaptar espaços e estruturas, ampliar mentalidades, garantir direitos trabalhistas e acolher jogadoras que decidam ser mães, na hora que elas quiserem, em qualquer fase da carreira.
Essa, sim, será a verdadeira revolução do esporte feminino.
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Esporte / Folha de São Paulo



