Saúde

Para acabar com a pandemia de Aids, é preciso ter as comunidades liderando

O Brasil está diante de uma oportunidade histórica: com as comunidades liderando, pode acabar com a pandemia de Aids como ameaça à saúde pública até 2030. Este é um desafio coletivo, que requer a participação ativa de toda a sociedade, mas é um objetivo tangível que podemos alcançar.

Entretanto, apesar dos avanços significativos na resposta ao HIV, ainda enfrentamos obstáculos substanciais. No país, aproximadamente um milhão de pessoas vivem com o HIV, das quais 720 mil estão em tratamento constante, mantendo o vírus indetectável. Em 2022, registramos no Brasil 50 mil novas infecções por HIV, afetando particularmente as juventudes entre 15 a 29 anos. Houve também 13 mil mortes relacionadas à Aids, com um impacto desproporcional sobre a população negra.

O Unaids (Programa das Nações Unidas sobre HIV/Aids) acaba de lançar um novo relatório global, intitulado “Comunidades Liderando”, que destaca o papel crucial das comunidades de pessoas vivendo com HIV ou em risco de contrair o vírus como motores do progresso na resposta ao HIV/Aids. Essas comunidades não apenas conectam as pessoas aos serviços de saúde pública, mas também constroem confiança, inovam, monitoram políticas e serviços e responsabilizam os provedores de cuidados.

Um exemplo inspirador ocorreu em Porto Alegre (RS), onde a ONG Fonte Colombo, com o suporte do Unaids, implementou o projeto “Mãe Acompanhada, bebê protegido”. Esta iniciativa mobilizou e apoiou 80 gestantes de comunidades de baixa renda, incentivando-as a conhecer e monitorar seu estado sorológico, visando prevenir a transmissão do HIV para seus bebês durante a gestação e lactação. A estratégia adotada envolveu a capacitação das pessoas atendidas pela ONG para identificar gestantes em suas comunidades e incentivá-las a participar do projeto.

Esse acesso direto às pessoas em situação de vulnerabilidade extrema, promovido por organizações lideradas pela comunidade, demonstrou ser eficaz não apenas na resposta ao HIV/Aids, mas também em outras pandemias, como a Covid-19, Mpox e Ebola.

No entanto, a resistência à liderança das comunidades persiste, levando à falta de reconhecimento, escassez de recursos técnicos e financeiros e, em alguns casos, ataques e restrições. O financiamento global para comunidades diminuiu 11% na última década, de 31% em 2012 para 20% em 2022.

O relatório “Comunidades Liderando” insta à ação, destacando a necessidade de garantir o papel central das comunidades em todos os aspectos relacionados ao HIV, desde a formulação até a avaliação de planos e programas. Além disso, enfatiza a importância do financiamento consistente e integral das comunidades, bem como a remoção de barreiras à liderança comunitária, incluindo a criação de um ambiente regulatório e legal favorável.

Para reconhecer e fortalecer o papel das comunidades na resposta ao HIV, o Unaids lança neste ano, no Brasil, o projeto “HIVIDA – Celebrar a Vida para Eliminar a Epidemia de AIDS”, em parceria com o Ministério da Saúde, organizações da sociedade civil, órgãos governamentais, agências da ONU e empresas.

Este projeto, que acontece entre 1º de dezembro e 10 de dezembro, visa promover os direitos humanos e combater o estigma e a discriminação associados ao HIV e à Aids, por meio de expressões artísticas, debates e exposições em Brasília (DF).

O HIVIDA, aberto a todos que desejam conhecer mais sobre o HIV/Aids, representa um esforço coletivo para celebrar a vida e eliminar a epidemia de Aids até 2030. Convido calorosamente quem estiver em Brasília a participar das atividades no Espaço Cultural Renato Russo ou acompanharem o evento nas redes sociais.

Repito: o fim da ameaça à saúde pública representada pela AIDS até 2030 está ao nosso alcance. Temos as ferramentas necessárias, mas é essencial uma união de todos os setores da sociedade, com as comunidades liderando, para alcançarmos esse objetivo histórico.

Informação

Folha de São Paulo

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