Saúde

Parelheiros e Marsilac, na zona sul de SP, entram em epidemia de dengue pela 1ª vez desde 2015

De 2015 a 2023, os distritos de Marsilac e Parelheiros, no extremo sul da cidade de São Paulo, não apontaram alta incidência de dengue e nem chegaram a um nível epidêmico —acima de 300 casos por 100 mil habitantes. É o que mostra uma série histórica de casos e incidência da doença presente nos boletins epidemiológicos de arboviroses (doenças transmitidas por mosquitos) da Secretaria Municipal de Saúde.

Em 2024, a intensidade da doença mudou a história epidemiológica destes distritos. O último boletim da Secretaria Municipal de Saúde —com dados contabilizados até 3 de abril— aponta para epidemia de dengue em Marsilac (316,3) e Parelheiros (544,4).

Na semana de 20 a 27 de março, Parelheiros já havia alcançado esta condição, quando chegou a uma incidência de 405.

Em 2015, ano em que a capital paulista confirmou 103.186 casos de dengue, a transmissão da doença se manteve baixa em Marsilac, com coeficiente de incidência de 12,1, e média em Parelheiros, cuja taxa foi de 152,2.

Em 2024, até 3 de abril, o município contabilizou 114.314 casos e 39 mortes por dengue.

Marsilac e Parelheiros abrangem a Área de Proteção Ambiental Capivari-Monos. Os distritos possuem as menores temperaturas mínimas e máximas da capital. O clima é mais ameno no verão. Os locais são cercados por trilhas e cachoeiras.

Segundo o secretário municipal de Saúde de são Paulo, Luiz Carlos Zamarco, o que explica a incidência acima do nível epidêmico nos dois distritos em 2024 foi a maior identificação de casos devido à oferta de testes de dengue. “São Paulo, é a única cidade no Brasil onde você tem a realidade do que está acontecendo com a dengue”, afirma Zamarco.

“Nos outros locais, as pessoas chegam com sintomas, são notificadas como suspeitas, mas não são consideradas casos, a não ser que realmente tenham sintomas que ficam recorrentes, voltando várias vezes, fazem hemograma, e confirmam queda de plaqueta. Em São Paulo, com uma simples febre, o paciente chega na unidade, é feito um teste da dengue. Se der positivo, já é notificado”, completa o secretário.

Essa não foi, no entanto, a situação observada quando a reportagem da Folha visitou tendas de atendimento à dengue abertas pela Prefeitura na última semana. Além dos atrasos no atendimento e aglomerações, diversos pacientes se queixaram de apresentarem sintomas típicos de dengue —como febre alta, dor de cabeça e no corpo e vômito— que esperavam mais de três horas para a triagem, procedimento necessário para encaminhar as pessoas para atendimento e testagem.

O secretário de Saúde, porém, reforça que o “Brasil inteiro teve um grande aumento da dengue”, mas em São Paulo o número é muito maior “porque São Paulo é a única cidade que está fazendo teste de dengue”.

Zamarco também aponta como motivo a possibilidade da infecção em moradores em Marsilac e Parelheiros ter ocorrido em outros bairros. Segundo ele, a pasta da Saúde monitora os dois distritos.

“Em geral, o morador de Marsilac ou Parelheiros vai trabalhar em outras regiões da cidade. Às vezes, onde tem uma incidência maior de dengue, e essa pessoa acaba se infectando em outros locais. Mas a notificação é feita pelo local da residência daquela pessoa”, explica.

Para Maria Anice Mureb Sallum, professora do departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo) e coordenadora do mestrado profissional em entomologia, vários fatores explicam a alta incidência de dengue em Marsilac e Parelheiros.

“Este ano a transmissão está mais elevada, mais intensa e longa do que nos anos anteriores. Nós temos vários meses com transmissão. Tinha uma grande parcela da população suscetível a adquirir a infecção pelo vírus da dengue porque nunca havia tido dengue, tanto que você viu que nos anos anteriores eram poucos casos”, explica Sallum.

“Uma vez que o vírus chega até o lugar, já que o mosquito sempre esteve circulando, ele é introduzido no local onde tem o mosquito Aedes aegypti e pessoas suscetíveis começam a se infectar e desencadeia a transmissão. Muitas podem ter se infectado em outras áreas da cidade e levado o vírus para estes locais”, diz a professora.

A epidemiologista também observa que os quatro sorotipos da dengue estão em circulação no estado de São Paulo, e que há um fato novo no histórico da doença na capital.

“Antes, os casos estavam mais localizados, em alguns bairros, algumas regiões de São Paulo. Este ano, não. A transmissão está mais intensa, ou seja, tem mais casos na cidade inteira. E está mais dispersa. A dengue chegou em áreas que não tinha antes”, explica Sallum.

Além disso, as mudanças climáticas intensificam a transmissão e aumentam a ocorrência de casos em toda a cidade.

E, por fim, Marsilac e Parelheiros são áreas pobres e com infraestrutura urbana mais caótica, o que favorece a proliferação do mosquito, diz a professora.

“Há casas com caixa d’água em cima da laje, casas com laje sem telhado, não há coleta regular de lixo. Nas lajes você pode ter acúmulo de água e também tem pessoas que guardam água em casa. Mesmo que tenha menos pessoas e menos mosquitos, há o suficiente para manter a transmissão do vírus da dengue.”

Na opinião da pesquisadora, a tendência é que os casos comecem a diminuir, tanto devido à imunidade natural, ou seja, reduz o número de pessoas suscetíveis, e também pela diminuição da temperatura.

“O vírus, para se desenvolver no organismo do mosquito, tem que sofrer replicação. Em temperaturas mais baixas, esse processo é um pouco mais lento. Então, como a gente agora tem uma diferença, por exemplo, à noite a temperatura chega a 20 ºC, e às vezes durante o dia tem temperaturas de 29 ºC, 30 ºC, essa amplitude desfavorece.”

“Pela replicação do vírus ser um pouco mais lenta, para o mosquito se alimentarem de um sangue infectado e o vírus chegar até a glândula salivar, vai demorar de 8 a 10 dias. Com isso, muitas fêmeas do mosquito já morreram. As larvas e as pupas demoram um pouco mais para se desenvolverem”, explica Sallum.

Segundo Zamarco, mesmo nas regiões com taxa de incidência inferior a 300 por 100 mil habitantes, a secretaria mantém as ações de combate à doença, com ação casa a casa e o fumacê. Os agentes de endemias estão distribuídos por todas as regiões e o trabalho ele é feito em toda a cidade, independente do número de casos.

Informação

Folha de São Paulo

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