Política

Perfis de fora do Brasil têm posts pagos para apontar favoritismo de Flávio

Contas registradas fora do Brasil na rede social X (antigo Twitter) têm feito e impulsionado publicações em apoio à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República. Nas postagens, os usuários estrangeiros têm divulgado previsões da plataforma de apostas Polymarket que apontam um favoritismo de Flávio na eleição brasileira.

As postagens a favor de Flávio foram identificados pelo próprio X como uma “parceria paga” (“Paid Partnership”) — um selo da plataforma que avisa quando uma publicação foi patrocinada ou incentivada por uma marca ou funcionário.

De acordo com especialistas consultados pelo Metrópoles, o impulsionamento de conteúdo na internet por terceiros — seja no Brasil ou no exterior — é vedado pela Lei 9.504/97.

Nas publicações impulsionadas, os usuários dizem que Flávio vai “salvar o Brasil” e derrotar o “esquerdismo” na América Latina.

Entre no canal de WhatsApp
do Metrópoles

Confira as postagens:

Perfis de fora do Brasil têm posts pagos para apontar favoritismo de Flávio - destaque galeria

De acordo com a Lei das Eleições, é proibido que partido e candidato recebam, direta ou indiretamente, doação em dinheiro ou estimável em dinheiro, inclusive por meio de publicidade, procedente de entidade ou governo estrangeiro.

Especialista em direito eleitoral, Jorge Washington Cançado explica que a lei exige que o impulsionamento de conteúdo na internet seja contratado exclusivamente por partidos, federações, coligações, candidatos ou seus representantes, com “identificação inequívoca do contratante” — o que não ocorre nas postagens patrocinadas no X.

“Sobre as doações estrangeiras, o TSE já assentou, em precedente sobre doação de estrangeiro, que a vedação recai sobre a origem dos recursos, não sobre a nacionalidade do doador em si, e que a comprovação da origem estrangeira normalmente depende de prova concreta, inclusive cruzamento de dados pela Receita Federal (art. 24-C da Lei 9.504/97), não de presunção. Provadas as possíveis ilicitudes, teremos sanções que vão de multa a cassação de diploma, a depender da situação fática”, explicou ao Metrópoles.

O X sinaliza apenas que a publicação é patrocinada, mas não é possível identificar quem foi o responsável pelo aporte para a parceria paga.

A maioria dos perfis gringos que fizeram as publicações sobre Flávio são identificados como dos Estados Unidos. Alguns deles acumulam centenas de milhares de seguidores, incluindo alguns famosos, como Elon Musk — dono do X — e um dos irmãos de Flávio, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL).

Eduardo Bolsonaro, que mora nos Estados Unidos há quase dois anos, chegou a republicar algumas das postagens impulsionadas sobre Flávio Bolsonaro.

Posts pagos da Polymarket promovem candidatos de direita, aponta site

A Polymarket tem usado publicações pagas no X para transformar a oscilação do mercado de apostas em uma espécie de “termômetro político”, segundo levantamento do site norte-americano Factchequeado, especializado em realizar verificação de informações.

A análise do site norte-americano identificou 13 posts patrocinados entre março e maio deste ano. Desses, 11 traziam narrativas favoráveis a políticos de direita ou críticas a nomes da esquerda.

No Brasil, uma das publicações afirmou que Flávio Bolsonaro havia ultrapassado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Polymarket, apresentando o movimento do mercado como sinal de que o senador teria se tornado o favorito na corrida presidencial.

A mesma estratégia foi identificada em conteúdos sobre candidatos da Colômbia e do Peru, com o mesmo enquadramento: desempenho na plataforma de apostas como indicativo de força eleitoral.

Desde junho de 2025, a plataforma é a “Parceira Oficial de Previsões de Mercado do X”.

Ligação política

A investigação também aponta uma conexão relevante. Donald Trump Jr., filho do presidente dos Estados Unidos, é investidor da Polymarket por meio da própria empresa, a 1789 Capital, e integra o conselho consultivo da empresa desde 2025. A entrada dele no board foi anunciada pela própria plataforma após o aporte do fundo.

Em abril de 2026, o governo brasileiro bloqueou o acesso a dezenas de sites de mercados de previsão, incluindo a Polymarket. Segundo o governo federal, a empresa não tem regulamentação ou autorização dos órgãos competentes para ofertar contratos ou apostas no país envolvendo temas como política e eleições.

Repercussão no bolsonarismo

Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, passou a republicar no X algumas das publicações feitas por contas estrangeiras com grande número de seguidores sobre o desempenho do candidato na Polymarket.

Perfis de fora do Brasil têm posts pagos para apontar favoritismo de Flávio - imagem 1
1 de 3Divulgação/EduardoBolsonaro
Perfis de fora do Brasil têm posts pagos para apontar favoritismo de Flávio - imagem 2
2 de 3Divulgação/EduardoBolsonaro
Perfis de fora do Brasil têm posts pagos para apontar favoritismo de Flávio - imagem 3
3 de 3Divulgação/EduardoBolsonaro

Algumas das grandes contas que impulsionaram a publicação são seguidas por Flávio e Eduardo Bolsonaro no X.

O mesmo padrão apareceu em perfis bolsonaristas como os de Mário Frias (PL-SP), Lucas Pavanato (PL-SP) e Allan dos Santos, que compartilharam o material acompanhado da frase “vai ser no primeiro turno”.

A expressão “vai ser no primeiro turno” também foi repetida por outras contas brasileiras que replicaram os mesmos conteúdos, reforçando a narrativa de que Flávio lideraria a disputa e poderia vencer já no primeiro turno. A repetição da frase, por si só, não permite concluir que exista uma ação coordenada entre os perfis.

A equipe de campanha de Flávio Bolsonaro foi procurada. O espaço segue aberto.


Metrópoles

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo